“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Jayati Ghosh ousa pensar o pós-capitalismo

Quarta, 30 de setembro de 2026

Jayati Ghosh ousa pensar o pós-capitalismo

Economista indiana provoca: ideias hoje “naturais”, como a ciência limitada por patentes, a hierarquia Norte-Sul e o trabalho não remunerado das mulheres, serão vistas no futuro como ridículas. É hora de encarar a crise da imaginação política

Entrevista a Thiago Gama

Poucos dias antes de os chefes de Estado desembarcarem em Nova Délhi para a cúpula do BRICS, uma das economistas que o Sul global está aprendendo a ouvir falou a Outras Palavras por quase uma hora, sem recusar uma só pergunta. No diálogo, Jayati Ghosh (leia seus textos já publicados pelo site) descreve mercados financeiros oligopolizados, nos quais a expectativa vira profecia e condena o devedor periférico antes de qualquer balanço; uma economia visível que se assemelha a um navio flutuando sobre um mar de trabalho não remunerado; um regime de patentes que precisa ser arrancado do caule aos ramos; e uma rota concreta para escapar do SWIFT, o sistema de pagamentos internacionais sob domínio do dólar e da Casa Branca.

Ao falar sobre a Índia, seu país, Ghosh é impiedosa: o crescimento – incensado pelo jornalismo econômico do Ocidente – é oco, e o governo que o anuncia ao mundo, diz ela, é fascista, opressor e incompetente. Nascida em 1955, formada em Délhi e doutorada em Cambridge, a economista lecionou por quase trinta e cinco anos na Universidade Jawaharlal Nehru e é, desde 2021, professora na Universidade de Massachusetts, em Amherst. Assinou ou organizou mais de vinte livros, entre os quais Never Done and Poorly Paid, sobre o trabalho jamais concluído e mal pago das mulheres na Índia globalizada; Demonetisation Decoded, em que disseca a “desmonetização” tocada por Modi; Women Informal Workers in the Global South; e o Handbook of Alternative Theories of Economic Development, no qual reuniu aquilo que a ortodoxia se recusa a ensinar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sul Global: o desafio da reindustrialização

Quarta, 23 de setembro de 2026


Sul Global: o desafio da reindustrialização

Há caminhos para resgatar economias reprimarizadas, trabalho precário e atraso. Requerem ecossistema de empresas públicas, planejamento, quebra de patentes e integração Sul-Sul. Com o Estado à frente – ao contrário do que quer a ultradireita

OutrasPalavras                       Descolonizações
Publicado no OutrasPalavras em 22/09/2026 

Por Vijay Prashd, no Tricontinental | Tradução: Lucas Scatolini

Durante 40 anos, os países do Sul Global ouviram que o planejamento econômico era desnecessário. O Estado deveria recuar, as tarifas deveriam cair, as empresas públicas deveriam ser privatizadas e os investimentos deveriam ser confiados àqueles que movimentam dinheiro através das fronteiras à velocidade de um toque no teclado.

O desenvolvimento viria por meio da vantagem comparativa: cada país deveria vender aquilo que já possuía e comprar aquilo que os outros haviam aprendido a produzir.

O resultado é visível de Harare a Jacarta. Países ricos em minerais, terras férteis e trabalhadores jovens continuam presos à extremidade menos rentável das cadeias globais de valor, exportando matérias-primas enquanto importam os produtos de maior valor agregado fabricados a partir delas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

IA: Onde está a ameaça à humanidade?

Segunda, 14 de setembro de 2026

IA: Onde está a ameaça à humanidade?

Cresce o medo de superinteligências que se voltam contra quem as criou. Este risco hipotético esconde outro, real. Corporações estão se apoderando de conhecimentos suficientes para reorganizar as relações humanas. As sociedades precisam pará-las


OUTRASPALAVRAS                                 Tecnologia em Disputa
Publicado 14/09/2026

Quando quem constrói começa a temer

Em 8 de setembro de 2026, Jacob Coxon deixou a Anthropic depois de quase três anos trabalhando na fronteira do desenvolvimento de inteligência artificial, primeiro na OpenAI e depois em uma das empresas que mais investem em alinhamento de sistemas avançados. Sua saída não foi motivada por salário, cargo ou disputa interna. Coxon afirmou que os principais laboratórios estavam correndo em direção a sistemas capazes de participar do próprio aperfeiçoamento e que, ao fazê-lo, estavam apostando com a vida de todos. A advertência poderia ser descartada como mais um episódio da cultura apocalíptica que há anos cerca o Vale do Silício, não fosse o fato de que pesquisadores que permaneceram dentro da própria Anthropic reconheceram publicamente que o problema é real.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

IA: o que propõe o Papa

IA: o que propõe o Papa


Leão XIV intervém, com peso político e simbólico, numa disputa crucial e ainda indefinida. Seus pontos: domínio das big techs é ilegítimo; dados, algoritmos, programas e infra-estruturas, são parte do Comum; Estados precisam intervir

                         Tecnologia em Disputa

Publicado 27/05/2026 às 18:33 - Atualizado 27/05/2026 às 19:00

Foto: Igreja Católica da Inglaterra e País de Gales / Flickr
Título original:
Neemias digital

Do OUTRASPALAVRAS

Em 25 de maio, o Papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica social, Magnifica Humanitas. Não se trata de mais um documento religioso sobre os “perigos da tecnologia”. Estamos diante do mais consequente tratado de geopolítica e economia política da IA publicado por um Estado nacional em pelo menos uma década. Os governos e empresas farão bem em lê-lo como tal.

A escolha da data não é decorativa. Ao lançar a encíclica no aniversário da Rerum Novarum (1891), de Leão XIII, o atual pontífice inscreve-se numa linhagem precisa. Onde o predecessor enfrentou a questão operária da Revolução Industrial, Leão XIV propõe-se a enfrentar as res novae da revolução digital. A operação é simbólica e doutrinária ao mesmo tempo.

O Papa enquadra a encruzilhada em duas imagens bíblicas. De um lado, a Torre de Babel, empreendimento centralizado e homogeneizador que dispensa o transcendente. De outro, a “via de Neemias”, reconstrução partilhada das muralhas de Jerusalém, em que cada comunidade edificou seu trecho coletivamente. A escolha desta segunda imagem para o título deste artigo é deliberada, pois Neemias é a metáfora exata do que precisamos construir contra as Babéis digitais erguidas hoje no Vale do Silício, em Shenzhen e nos data centers que se espalham pelo mundo.