Da Tribuna da Imprensa
Por Pedro Carrano — Via Escrevinhador
O
que leva um governo estadual com alto índice de votos e popularidade, vencedor
das eleições de outubro no primeiro turno, contra candidatos de renome,
sacrificar a própria imagem para aprovar medidas de arrocho a qualquer preço?
O que leva um político jovem, quadro promissor de um PSDB inflado de velhos
caciques – um partido sem juventude e sem braço organizativo na sociedade civil
– a orientar que policiais tomassem a iniciativa de avançar sobre os
professores, sem qualquer sentido, em um estado já marcado pela repressão
brutal dos governos de Álvaro Dias e Jaime Lerner?
O que explica esse suicídio político do governador Beto Richa,
que antes tentou matar também a democracia do estado em todas as suas esferas?
Nas entrevistas que concedeu antes do massacre dos professores, Richa aventava
que a greve dos professores e do funcionalismo estadual era uma greve política,
que contava com elementos dos Black Blocks.
O mais curioso é o fato de a greve, organizada pelo sindicato de professores,
ter conquistado inclusive a simpatia de setores médios, intelectuais, artistas,
entre outros segmentos, justamente pelo alto grau de organização, disciplina e
postura pacífica.
Mesmo com tantos confrontos desde fevereiro, os professores nunca atiraram uma
pedra, em que pese toda a provocação que sofreram nas madrugadas nos dois dias
de acampamento nesta semana.
As redes sociais agora dão conta de narrar em detalhes, nos seus vários
fragmentos, cada bala de borracha sem sentido dirigida no rosto dos
manifestantes; mordidas de cães no deputado Rasca Rodrigues e no repórter
cinematográfico da Band, Luiz Carlos de Jesus. Há pelo menos 213 feridos.
O que explica tamanha falta de lógica? O que explica um governador conseguir
ser farsa e tragédia ao mesmo tempo?
A primeira resposta certamente é o imperativo do ajuste econômico, mas usado
como argumento pelo governo para encobrir problemas de gestão e um estado
quebrado.
No entanto, a História ensina que democracia e modelo econômico não precisam
caminhar juntos. Richa resolveu aprovar alterações na Previdência dos
servidores sem o diálogo suficiente com a sociedade e com as categorias. A
conclusão imediata é que não precisava ter detonado os manifestantes.
O problema é que, na política, o governo Richa não tem comando e vive crises em
diversas frentes. Na onda conservadora que se apresenta hoje, sua gestão parece
mais com o deputado federal da bancada da bala, Francisco Francischini,
secretário de Segurança do Paraná, como lembra o jornalista Jose Maschio.
A crise política se expressa, por exemplo, pelas investigações do Gaeco de
Londrina que chegam ao primo de Richa, Luiz Abe Antoun, compadre e “mentor
político” do governador, com acusações de corrupção na Receita Estadual.
Além disso, no contexto estadual, surgiram pelo menos três casos sérios e
recentes de ameaças e intimidações contra repórteres investigativos. O mais
recente envolve a ameaça de assassinato contra o produtor que investigava o
caso de Londrina. O governo Richa e o secretário de Segurança não deram ainda
resposta satisfatória para impedir a perseguição.
Arrocho salarial, limitações à democracia em diferentes frentes, inclusive
comprovadas com denúncias. Agora, uma brutal violência contra os professores.
Está na hora de unificação dos setores populares e progressistas, com apoio
nacional, para medidas firmes e unitárias em retaliação ao governo tucano.