Domingo, 1º de março de 2026
Caso master
Vice-governadora do DF processa estudantes por críticas a rombo no BRB
Jovens do coletivo Kizomba enfrentam ação judicial de R$ 30 mil após manifestação
Brasil de Fato — Brasília (DF)
A vice-governadora Celina Leão move ação judicial contra três estudantes, pedindo R$ 30 mil após protesto. | Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Do Brasil de Fato
A vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (Progressistas), entrou com ação judicial contra três estudantes do movimento de juventude Kizomba. O processo no valor de R$ 30 mil alega danos morais em razão de uma manifestação realizada por jovens que questionaram a gestão do BRB e a tentativa de compra do Banco Master pelo governo.
A ação ocorre em meio a críticas sobre o rombo financeiro de R$ 12 bilhões que afetaria serviços públicos essenciais, como saúde e educação, e gerou ampla repercussão entre movimentos estudantis e partidos políticos.
Os estudantes participaram de um ato público com cartazes contendo frases como “Crime Master”, “Quem vai pagar a conta?”, “Fora Ibaneis” e “Fora Celina Leão”. A manifestação foi organizada para chamar atenção sobre o escândalo do Banco Master e suas consequências para o patrimônio público do Distrito Federal. Integrantes do movimento afirmam que se tratou de uma manifestação política legítima, protegida pela liberdade de expressão, um direito constitucional garantido a todos os cidadãos brasileiros.
Gabriel Barros, Secretário de Juventude do PT-DF, destacou que o processo judicial tem efeito contrário ao pretendido pela vice-governadora. “A nossa opinião e o nosso sentimento é de total indignação com o processo, uma tentativa de silenciamento do movimento estudantil que, na verdade, tem um efeito contrário”, afirmou.
Ele reforçou que o rombo financeiro do BRB agravará ainda mais a precarização de serviços públicos no DF, incluindo escolas e hospitais.
O escândalo do Banco Master envolve a compra de um banco com ações e títulos considerados problemáticos pelo Banco Central. A operação foi realizada pelo BRB mesmo diante de alertas regulatórios, levantando questionamentos sobre a responsabilidade do governo e a forma como recursos públicos foram alocados. O caso levanta preocupações sobre o futuro das políticas sociais na capital federal.
Tentativa de intimidação
A Comissão Executiva Regional do Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal (PT-DF) emitiu nota de repúdio à ação judicial. “Processar jovens estudantes por uma charge e por um questionamento político é uma medida desproporcional e preocupante”, afirmou a nota. O partido destacou ainda que os governantes deveriam concentrar esforços na solução de problemas urgentes, em vez de mobilizar o aparato judicial contra estudantes que exercem seu direito de expressão.
A nota do PT-DF acrescenta que a judicialização de manifestações políticas representa uma tentativa de intimidação. “A democracia se fortalece com mais debate, mais transparência e mais participação popular, nunca com intimidação ou tentativa de silenciamento”, reforçam os dirigentes do partido.
A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) também se posicionou contra a ação. A organização afirmou que “a judicialização de uma charge e de questionamentos políticos feitos por estudantes configura medida desproporcional e preocupante”. Para a Ubes, a liberdade de expressão e o direito de crítica política são pilares do Estado Democrático de Direito, fundamentais para garantir que a juventude possa se manifestar sobre decisões públicas que afetam a sociedade.
O movimento Kizomba, em nota, declarou que a ação judicial tem efeito intimidatório sobre jovens moradores das periferias do DF, estudantes e trabalhadores. “Como tentativa de silenciar a voz da juventude e criminalizar a luta popular, a vice-governadora ingressou com ação judicial pedindo R$ 30 mil de indenização por danos morais contra integrantes do coletivo”, afirmaram. A nota reforça que as críticas se referem à gestão do DF e à compra de um banco com problemas financeiros, não a ataques pessoais.
Repercussão
O caso tem repercussão ampla entre entidades estudantis e políticas. Movimentos e partidos destacam que manifestações políticas fazem parte da liberdade democrática e que o direito de criticar gestores públicos deve ser garantido, sobretudo em contextos que envolvem interesse público e transparência na gestão de recursos financeiros do estado.
O Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNU-DF) enfatizou que o caso reflete um padrão histórico de criminalização de jovens periféricos e negros. “A judicialização da crítica política, quando utilizada como instrumento de intimidação, produz efeitos persecutórios, incidindo de forma ainda mais dura sobre juventudes historicamente alvo de criminalização e vigilância estatal”, afirmou a entidade. O MNU reiterou que a manifestação pública é um direito fundamental e questionar autoridades é exercício democrático.
Gabriel Barros reforçou que a intenção do movimento não foi atacar pessoalmente a vice-governadora. “Nós atacamos o governo do Distrito Federal, logo o Ibaneis e a Celina, por reforçarem e tentarem empurrar goela abaixo a compra de um banco falido”, explicou. Ele ressaltou que a população ainda não tem plena consciência da gravidade do rombo, e que as ações do governo podem comprometer ainda mais políticas públicas essenciais à população do DF.
Barros acrescentou que os projetos de lei apresentados pelo governo para tentar contornar o rombo não são suficientes. “Já avaliamos que é um caos em Brasília, e essas medidas não resolvem a situação das políticas públicas, apenas propõem a venda de patrimônio público da população para tentar solucionar parcialmente o problema”, disse. Para ele, a ação judicial reforça a necessidade de mobilização e atenção da sociedade para a gravidade da situação.
Editado por: Flavia Quirino
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