Sábado, 28 de março de 2026
O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI
Por Roberto Amaral*
A guerra está aí, se espalhando pelo mundo. O que ninguém ignora foi proclamado como novidade há uns poucos dias pelo Secretário-Geral da ONU, instituição que mais e mais vê ausentes as razões justificadoras de sua criação, em 1945 (manutenção da paz e da segurança internacionais), quando mal saíamos da Segunda Guerra Mundial e os tambores já rufavam no vestíbulo da Guerra Fria — que, aparentemente finda com a autodissolução da URSS, volta à cena, por outros meios e com novos atores.
Aquele pós-guerra nos deu um mundo em guerra, e a guerra que os EUA promovem, mais acentuadamente hoje, é, nada obstante a tragédia humana que implica, um só episódio em processo guerreiro que não começou agora, nem se limita ao Golfo Pérsico, não só como teatro das ações, mas igualmente em suas repercussões tanto políticas quanto econômicas. Essas pervadem o mundo e já chegaram ao nosso continente e ao Brasil.
Trata-se de uma guerra diferenciada, mais sofisticada do que os modelos conhecidos e vividos, e mais complexa, em face das experiências passadas. Ela não se restringe ao teatro das operações bélicas no sentido estrito — por exemplo, as agressões dos EUA e do Estado sionista de Israel, que, repetindo o assalto às Colinas de Golan (em 1967), anuncia a ocupação e posse, ou seja, a rapina de algo como 10% do território do Líbano, que não cessa de atacar, matando civis, destruindo o país, sob o pretexto (a prepotência nem sempre se empenha em construir pretextos, como a humanidade aprendeu com as lições da Alemanha hitlerista) de estar combatendo o Hezbolah.
A guerra que neste momento tem seu epicentro no Golfo começou, do ponto de vista bélico, em Gaza; mas pode ser definida como uma guerra continuada, porquanto o mundo não conheceu a paz nesses 81 anos que nos separam do Armistício, e desde então os EUA não deixaram de guerrear. É uma guerra imperialista — como tantas iniciadas por Washington (jamais esquecer a invasão do Vietnã) —, mas que não se trava entre potências capitalistas avançadas, nem visa a disputa de mercado.
Embora a Casa Branca tenha seus canhões e seus marines momentaneamente voltados para o petróleo do Oriente e já se tenha apossado das reservas da Venezuela, o eixo central é a disputa da hegemonia internacional que os EUA, a unipotência de hoje, veem, com justificadas razões, ameaçada pela China, até aqui silente, enquanto, caminhando para além da Rota da Seda, expande sua presença em todos os continentes.
O conflito está entre nós, na América do Sul e no Brasil. Sofrem nossas exportações para o Oriente; a economia padece com a alta dos fertilizantes e dos combustíveis, cujos efeitos são ainda mais sentidos em vista da privatização de refinarias e venda da BR Distribuidora, parte do projeto de desmonte do governo anterior. Se já não se conta com a queda da Selic (sem o que o país não se desenvolve), o tal mercado estima a queda do PIB este ano. A Argentina, como o Paraguai, assegurou aos EUA o ingresso de tropas para exercícios militares (há sempre um começo) e participação na base naval que está sendo construída em Ushuaia (a cidade mais austral do país), porta de entrada para a Antártica. Tudo isso nos diz respeito.
Esta guerra, porém, contém um componente anacrônico, que lembra o neocolonialismo, quando logra submeter aos seus interesses países periféricos no sistema capitalista; antes independentes, são reduzidos à condição de protetorado-colônia, espécie à espera de definição pela ciência política.
Caso que não é, tão só, o da Venezuela, pois já é o de quase todo o Caribe, para além dos condicionamentos que secularmente amaldiçoam o México. Ali, naquela região nevrálgica, a fronteira norte do grande “quintal”, os EUA promovem — criminosamente, por óbvio — a sufocação de Cuba, pela fome de sua gente, como preâmbulo para a incorporação ao império, já aventada por Trump. Se lograrem êxito, Cuba voltará a ser o que era antes da revolução: uma cloaca, um cassino para a classe média do sul dos EUA, balneário para o repouso de gangsters aposentados.
A história comum de nossos países reproduz a preeminência dos interesses dos EUA, sustentada por uma sucessão de golpes de Estado que conheceu quase todo o continente e esteve presente entre nós em variados momentos. Convém não esquecer.
Sobre os escombros de Gaza e os milhares e milhares de cadáveres palestinos abre-se o espaço para a Riviera da família Trump, sua Lagoa ao mar oriental, levantada sobre a falência do direito internacional, a afronta à Carta das Nações Unidas e o auxílio prestimoso do sionismo, anunciando um portfólio de negócios a ser explorado mundo afora pela partilha entre o grande capital e o complexo industrial-militar, que carece da guerra para sobreviver.
Não é o começo, nem sugere um fim.
A guerra que nos toca hoje, está, pela diversidade de meios, expandida em face do conceito canônico e compreende um número sem conta de intervenções da mais variada forma, que completam um rol que vai muito além da guerra convencional, substituída por guerras irregulares, apoio a insurgências, sabotagens de um modo geral, ciberataques, desinformação, pressão econômica e sanções, operações psicológicas e o lawfare, ou seja, o uso do sistema jurídico como arma política, expediente bem conhecido entre nós, pois não podemos esquecer o que foi a Lava Jato, cujos efeitos ainda não foram de todo superados.
Neste caleidoscópio, o tarifaço de Trump é apenas uma dessas artes, ao lado das pressões e das sanções econômicas, como as que se abatem notadamente sobre a Rússia e o Irã. Estas são armas claras, como a guerra militar convencional, expostas à luz do dia; mas há as que passam despercebidas do grande público: as guerras irregulares, que se fazem mediante a mobilização, por exemplo, de milícias ou contingentes mercenários (como vimos na guerra civil da Síria e da Líbia pós-2011) e, notadamente, a espionagem e a sabotagem de que permanentemente se valem as grandes potências, e no que se destacam os serviços secretos de EUA e Israel, de uma forma ou de outra herdeiros da experiência do serviço secreto inglês em seus momentos mais ignominiosos.
Cuidemos de apenas dois crimes. Aquele que mais diz respeito à tragédia iraniana é a deposição, em 1953, do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, liderada pelo serviço secreto britânico (MI6), de mãos dadas com a CIA. Ficou conhecida como Operation Ajax. Era a resposta das grandes potências à nacionalização do petróleo iraniano (sempre ele) até então, controlado pela Anglo-Iranian Oil Company.
De igual relevância é a deposição e assassinato, em 1961, do líder congolês Patrice Lumumba, acusado de simpatias pela URSS, numa operação que reuniu o serviço secreto da Bélgica (ex-potência colonial) e a CIA. No fundo, havia a disputa por recursos estratégicos, como urânio e cobre. Israel, como se vê, não inova com os seguidos assassinatos de líderes e cientistas iranianos.
A isto tudo chama-se guerra híbrida, definida por Frank Hoffman (Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, 2007) como o uso combinado e coordenado de instrumentos militares e não militares, tecnológicos, jurídicos, informacionais e psicológicos para enfraquecer o adversário sem necessariamente recorrer a uma guerra convencional declarada. Aqui não há tanques nem drones, mas há impacto direto na soberania política e na manipulação da consciência coletiva. A invasão se opera por outros meios e, mais do que nunca, “a guerra é a continuação da política por outros meios” (Clausewitz).
A guerra híbrida é ainda mais contundente quando as novas tecnologias abrem espaço livre para a manipulação ideológica. Refiro-me aos bots, às fake news e à manipulação algorítmica; mas a espécie mais insidiosa, ao lado das pressões psicológicas, certamente são os ciberataques (exemplar, a este respeito, é o caso Stuxnet, descoberto em 2010, quando os EUA e Israel, mediante a introdução de vírus tipo worms, sabotaram centrífugas nucleares do Irã) e a desinformação, mediante o controle dos meios de comunicação e da manifestação cultural como um todo, no que têm reinado os EUA, universalizando sua visão de mundo (embalagem de seus interesses), a partir do autoconceito de império destinado a reinar, material e espiritualmente, sobre os povos.
É a doutrina do destino manifesto, que se resume na crença falaciosa de que sua gente foi ungida por Deus para comandar o mundo. Esta maluquice foi tomada ao pé da letra por Donald Trump e sua curruela.
Nesse cenário inquietante, para dizer o mínimo, o Brasil segue à míngua de defesa, seja para a guerra convencional, seja para a híbrida, na qual atuam, além dos conhecidos atores internos (políticos, econômicos, religiosos, midiáticos), as chamadas big techs, sobre as quais não tem qualquer controle.
Deve ser nossa prioridade o desenvolvimento de mecanismos tecnológicos de defesa, mas o ponto fulcral é a coesão social, sem a qual nenhuma estratégia de dissuasão híbrida funciona. Dela sempre nos descuramos, mas jamais no nível em que nos encontramos, no limiar de um processo político — as eleições de outubro —, certamente o mais agônico desde a redemocratização, em face da ascensão da extrema-direita brasileira, na qual investe a internacional neofascista que se espalha pelo mundo a partir da Casa Branca.
Resta esperar que governo e partidos do campo progressista encontrem engenho e arte para avançar na organização e mobilização popular. Ponto de partida incontornável, nesta quadra histórica, é a denúncia do imperialismo, que jamais se expôs como agora, sem disfarces.
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O alerta e a esfinge – As pesquisas eleitorais dando conta de um crescimento da rejeição ao presidente Lula, e de uma possível dianteira do pré-candidato fascista em projeções de segundo turno, não devem instalar o derrotismo na esquerda e no campo democrático como um todo, mas precisam servir de alerta. Não há dúvida de que, para assegurar a necessária vitória, a candidatura governista precisará dialogar com o eleitorado conservador, e com as pautas que ele tende a priorizar. É questionável, no entanto, que o “populismo penal” festejado pelos quadros mais rebaixados da centro-esquerda seja um caminho a seguir. E há uma esfinge a ser decifrada sem demora: por que o eleitorado jovem, da faixa entre 16 e 24 anos (cerca de 13% do total de votantes), rejeita massivamente o presidente Lula, preferindo um adversário desqualificado e de extensa ficha corrida?
Ainda Cuba – A população de Cuba gira em torno de 9 milhões, o que corresponde, ensina-me o bravo frei Beto, a um bairro de Pekin. E a China não se abala em seu socorro!
*Com a colaboração de Pedro Amaral
