quinta-feira, 5 de março de 2026

‘Recursos militares dos EUA serão colocados à prova em poucos dias’, diz analista chinês

Quinta, 5 de março de 2026

‘Recursos militares dos EUA serão colocados à prova em poucos dias’, diz analista chinês

Professor da Universidade de Fudan analisa os objetivos estratégicos da agressão estadunidense e israelense ao Irã

Brasil de Fato — Pequim (China)
5.mar.2026
Mauro Ramos

“Após sete dias de conflito, ou seja, daqui a poucos dias, os recursos militares reais dos EUA serão colocados à prova: saberemos se Washington tem munição suficiente para sustentar a ofensiva contra o Irã, e se essa pressão é capaz de forçar Teerã a aceitar condições humilhantes de rendição. Se o conflito não for encerrado, será mais um desastre”.

A análise é do professor Shen Yi, da Escola de Relações Internacionais e Assuntos Públicos da Universidade de Fudan, em entrevista ao Brasil de Fato.

Enquanto o conflito escala, analistas questionam os planos e até mesmo a capacidade dos Estados Unidos de sustentar a agressão contra o Irã a longo prazo. Especialistas sul-coreanos consultados pelo portal Chosun, por exemplo, aventaram nesta semana a possibilidade de que sistemas de defesa antimísseis estadunidenses posicionados na Coreia do Sul sejam transferidos para a Ásia Ocidental (Oriente Médio), caso a operação, batizada de “Fúria Épica”, se prolongue.

Entre os equipamentos que poderiam ser realocados estão as baterias de mísseis Patriot, o sistema THAAD instalado no condado de Seongju, na província de Gyeongsang do Norte, e os drones de reconhecimento MQ-9 Reaper, estacionados na Base Aérea de Gunsan desde o ano passado. A instalação do THAAD em Seongju, em 2017, gerou protestos de moradores locais, além de uma forte oposição da China, que considerou o equipamento uma ameaça direta à sua segurança.

Nesta quarta-feira (4), a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou ter destruído justamente um segundo sistema THAAD estadunidense na região, com mísseis de precisão lançados por sua Força Aeroespacial, deixando-o inoperante. Na véspera, o radar do sistema THAAD localizado na base de Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos, também havia sido destruído. O próprio chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, general Dan Caine, havia alertado Trump, antes do início dos ataques, sobre os riscos de uma campanha prolongada e sobre o esgarçamento dos estoques estadunidenses de munição de precisão e interceptores.

O professor Shen Yi é uma das vozes mais respeitadas da China na análise de política internacional. Especialista em relações sino-estadunidenses e estratégia global, ele conversou com o Brasil de Fato sobre os desdobramentos e debates sobre a agressão estadunidense-israelense ao Irã.

A China tem defendido o direito do Irã de proteger sua soberania e integridade territorial diante dos ataques não provocados lançados pelos Estados Unidos e Israel, que resultaram na morte de, pelo menos, 1.045 pessoas segundo dados do Irã, entre elas a da principal liderança do país, o Aiatolá Khamenei, entre outros altos dirigentes. O tema esteve presente na abertura das Duas Sessões, as principais reuniões políticas anuais da China, quando o porta-voz do Congresso Nacional do Povo, Lou Qinjian, foi questionado sobre os ataques ao Irã e sobre o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo Trump.

“Nenhum país tem o direito de controlar os assuntos internacionais, de decidir o destino de outras nações, de monopolizar as vantagens do desenvolvimento, muito menos de agir de forma arbitrária e unilateral no cenário mundial”, respondeu o porta-voz.

Na entrevista, o professor ainda discute os possíveis cenários futuros resultantes da agressão, incluindo a possibilidade de que o Irã se torne um novo ‘Vietnã’ e descarta as acusações de que a China estaria fornecendo armamentos ao Irã.

Confira a entrevista na íntegra a seguir:

Brasil de Fato: Como você avalia o impacto desta agressão dos EUA e Israel ao Irã para os países envolvidos da região da Ásia Ocidental?

Shen Yi: Se tentarmos analisar essa operação pela teoria clássica do equilíbrio de poder, simplesmente não conseguimos explicá-la. Segundo essa teoria, uma potência como os Estados Unidos, atuando como árbitro ou equilibrador externo, deveria preservar a estabilidade regional, mantendo uma relação equilibrada entre os diferentes atores. O próprio Nixon, em entrevista após deixar a Casa Branca nos anos 1970, afirmou que o verdadeiro interesse estadunidense no Oriente Médio era garantir que Israel mantivesse relações diplomáticas estáveis com os países árabes, gerando paz e estabilidade na região.

Esta operação, no entanto, vai na direção oposta. Israel justifica os ataques como uma ação preventiva contra uma suposta ameaça iraniana. Mas não há evidências de que o Irã estivesse preparando ataques contra forças militares estadunidenses na região.

O que testemunhamos é, possivelmente, o maior conjunto de assassinatos políticos contra líderes de um Estado soberano legal na história moderna. Pela minha leitura, esta operação não se parece com as intervenções militares estadunidenses do pós-Guerra Fria.

O objetivo real, do lado de Israel, é desmembrar o Irã e provocar seu colapso, nos moldes do que ocorreu na Síria, empurrando o país para um modelo de guerra civil em que diferentes grupos étnicos se voltem uns contra os outros, paralisando o país. Isso abriria caminho para a implementação do chamado plano do “Grande Israel”. E os EUA acabariam presos nessa armadilha: quanto mais a situação se aprofundar, mais tropas Washington terá de comprometer, inclusive forças terrestres, repetindo o caminho do Vietnã nos anos 1960, quando o que começou como operações especiais escalou para uma guerra de grandes proporções.

É importante destacar que os ataques aconteceram justamente quando os EUA e o Irã estavam em negociações, e o próprio lado iraniano sinalizava que havia progresso nas conversas. Israel e os EUA traíram essa abertura diplomática. A consequência mais grave dessa traição não é para a reputação de Washington, mas para todos os iranianos que defendiam o diálogo como caminho. Eles perderam credibilidade e espaço político dentro do próprio país.

Vários analistas têm apontado que uma invasão terrestre seria um enorme erro estratégico, dadas as condições geográficas e o tamanho do Irã. Mas quero explorar o lado militar mais concreto: há discussões, inclusive nos EUA, sobre se eles teriam armamento suficiente para continuar com a agressão ao Irã, e que Washington cogitaria transferir armamentos posicionados na Coreia do Sul para o Oriente Médio/Ásia Ociental. Ao mesmo tempo, o Irã demonstra uma capacidade de resposta considerável. Qual é sua avaliação militar da situação?

O Irã não é o primeiro desafio em que os EUA enfrentam limitações na cadeia de suprimento de munição. Já vimos isso na Ucrânia: nem os EUA nem seus principais aliados da Otan conseguiram manter o ritmo de fornecimento de projéteis exigido por uma guerra convencional de longa duração. É paradoxal, mas foram os projéteis sul-coreanos que se tornaram a fonte mais importante de suprimento à Ucrânia durante o conflito.

O mesmo cenário se repetirá no Irã. O próprio Estado-Maior dos EUA enviou uma nota ao presidente Trump antes do início da operação, alertando que os estoques de munição estadunidenses são limitados. Para entender o que isso significa, é preciso recuar no tempo. Na era Kennedy, a estratégia de defesa dos EUA previa capacidade para travar duas guerras e meia simultaneamente. Com Nixon, essa capacidade foi reduzida para uma guerra e meia. Hoje, os EUA mal conseguem sustentar uma guerra completa. Antes de outubro de 2023, os EUA chegaram a transferir 300 mil projéteis de artilharia dos estoques de Israel para a Ucrânia, porque simplesmente não conseguiam produzir o suficiente.

A atual capacidade dos Estados Unidos, especialmente em termos de produção de munição, não é a dos EUA que conhecíamos nos anos 1980, 1990 ou durante a Guerra Fria. No conflito do Kosovo, os EUA bombardearam a antiga Iugoslávia por 78 dias. Depois de duas ou três semanas, já haviam lançado mais de 2.500 mísseis de cruzeiro Tomahawk. Quando os estoques se esgotaram, pediram ao fabricante que abrisse duas linhas de produção adicionais e compravam os mísseis assim que saíam da fábrica. Não creio que os EUA de hoje tenham essa capacidade.

Isso significa que, após sete dias de conflito, ou seja, daqui a três ou quatro dias, os recursos militares reais dos EUA serão colocados à prova: saberemos se Washington tem munição suficiente para sustentar a ofensiva contra o Irã, e se essa pressão é capaz de forçar Teerã a aceitar condições humilhantes de rendição. Se o conflito não for encerrado, será mais um desastre.

O Irã dispõe de uma tática assimétrica muito eficaz contra Israel: lançar drones e mísseis em pequenas quantidades, de forma aleatória, dia após dia. Não é necessário causar grandes danos em cada ataque. Basta obrigar Israel a suspender sistematicamente suas atividades econômicas e sociais. Se essa pressão durar mais de um ou dois meses, o impacto sobre a economia e a sociedade israelense será devastador. Foi exatamente o que começou a acontecer durante os doze dias de confronto de mísseis entre Israel e Irã em junho de 2025.

É cedo para projeções, mas o Irã parece estar atacando com eficácia as bases militares da região pela primeira vez, e há relatos de que os EUA já reposicionaram aeronaves em Chipre e movimentaram um porta-aviões para fora da zona de conflito. O que podemos esperar?

Israel e os EUA provavelmente apostavam em dois cenários. O primeiro: após a eliminação de Khamenei e dos principais comandantes militares, a oposição iraniana tomaria as ruas e assumiria o poder, consumando uma revolução colorida por via aérea em questão de dias. Esse cenário claramente não se materializou.

O segundo cenário é mais complexo. Os ataques produziram dois efeitos concretos: o Irã ficou sem um líder supremo, atualmente governado por um conselho enquanto aguarda a eleição de um novo aiatolá, mas o sistema institucional não entrou em colapso. O Irã não repetiu o que aconteceu com o Hezbollah libanês, cuja estrutura de comando foi desmantelada pelos ataques israelenses em 2024, paralisando toda a cadeia de controle.

Mas o Irã é diferente. Seu desenho institucional prevê exatamente esse cenário: a descentralização antecipada do poder. O ministro das Relações Exteriores iraniano declarou recentemente algo muito revelador: o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica está, de fato, num estado sem controle efetivo. O que isso significa na prática? Que os funcionários do governo iraniano atualmente visíveis, mesmo aqueles considerados pró-EUA ou dispostos a dialogar com Washington, não conseguem controlar a situação interna do país e, especialmente, não conseguem controlar a Guarda Revolucionária. Isso transforma o Irã no adversário que mais dá dor de cabeça aos EUA: um Estado com capacidade para fazer guerra de guerrilha.

A situação fica ainda mais delicada quando se observa que os EUA e Israel esperavam que o Irã se fragmentasse como a Síria. Mas no Irã nunca existiram, como na guerra civil síria, forças armadas antigovernamentais maduras e capazes de controlar territórios específicos. O que houve foram situações parecidas com revoluções coloridas: cidadãos comuns mobilizados, somados a grupos de destruição e infiltração enviados por Israel ou outras forças políticas. Esses grupos, nos distúrbios que ocorreram no Irã do final do ano passado ao começo deste ano, foram expostos e basicamente eliminados antes mesmo do início dos ataques. E, pelo que observo, até agora não se repetiu nenhum episódio como o do final do ano passado, com cidadãos nas ruas de províncias periféricas tentando tomar o poder. Ou seja, pela lógica dos próprios EUA e Israel, a máquina que mantém a ordem interna no Irã não entrou em colapso e não caiu num estado de paralisia só porque o topo foi decapitado.

O Irã declarou um período de luto de 40 dias. Acho que o ponto de virada na situação interna vai ser a eleição do novo líder supremo pelo conselho de especialistas. Quem vai ser eleito? Esse novo líder vai conseguir integrar de forma eficaz as forças militares e políticas internas e fornecer uma ordem estável? Isso vai se tornar um fator chave. O próprio Conselho de Relações Exteriores dos EUA, em relatório publicado em 1º de março, considerou improvável um colapso do regime iraniano, exatamente porque ele não depende de um líder ou de poucos linha-dura para se manter. É uma estrutura completa: tem forças armadas, tem religião, tem sociedade, tem sua própria economia e indústria. Tentar destruir esse tipo de estrutura com bombardeio ou invasão militar só gera um efeito de união, produzindo o resultado oposto ao pretendido.

O Ocidente certamente espera ver o governo civil iraniano, as forças de defesa e uma classe média urbana mais secularizada e pró-estadunidense ocupando uma posição mais dominante nesse processo. Mas o assassinato de Khamenei num ataque aéreo dos EUA e de Israel torna essa aposta muito difícil. Qualquer facção moderada, qualquer líder político iraniano disposto a negociar, vai ter enorme dificuldade em se manifestar publicamente enquanto a comoção e a necessidade psicológica de vingança dos cidadãos iranianos ainda não estiverem resolvidas.

E tem ainda outro ponto: se os dois lados sentarem para negociar, os EUA certamente vão apresentar um novo conjunto de condições ao novo Irã. Essas condições vão ser mais moderadas ou mais severas do que as da época de Khamenei? Do lado estadunidense, se querem construir uma narrativa de vitória, certamente vão apresentar condições ainda mais duras. E do lado iraniano, qualquer líder que aceite condições mais humilhantes do que as vigentes quando Khamenei foi morto vai ser visto como fantoche dos EUA. A história moderna prova que cidadãos com convicções nacionalistas geralmente não aceitam líderes abertamente apoiados por forças políticas externas.

Há bastante especulação sobre o papel da China neste conflito. Esta semana, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, desmentiu rumores de que o Irã estaria prestes a fechar um acordo de compra de mísseis supersônicos chineses. O Irã integra a Organização de Cooperação de Xangai e migrou do GPS para o sistema de navegação chinês Beidou. O que você tem a dizer sobre os rumores e como avalia o impacto da aproximação entre China e Irã nesta situação?

O representante da China no Conselho de Segurança da ONU, Geng Shuang, disse uma vez, ao negar que a China fornecia ajuda militar à Rússia: “Se a China realmente tivesse feito o que vocês acusam, a linha de frente do conflito Rússia-Ucrânia não estaria como está hoje”. Esse argumento se aplica igualmente ao Irã.

A cooperação entre China e Irã não tem nenhuma dimensão conspiratória. A política externa chinesa é clara: não escolhemos lados, não temos interesse em disputas por procuração, e não somos a União Soviética da Guerra Fria nem os EUA do pós-Guerra Fria. Guerras por procuração simplesmente não fazem parte da nossa política.

Do ponto de vista concreto: todos os mísseis que o Irã lançou até agora foram desenvolvidos com tecnologia própria. Os EUA impõem controles de exportação e sanções ao Irã há décadas, monitorando rigorosamente qualquer transação global com o país. Washington tem tentado encontrar evidências comprometedoras contra a China há muito tempo, e nunca as encontrou, porque não existem.

A posição da China está claramente expressa na ligação do chanceler Wang Yi com [Sergei] Lavrov [chanceler russo]: queremos a aplicação do direito internacional, o retorno à ordem internacional e o fim das hostilidades por meios pacíficos. A China joga limpo. Nossa posição é que o ataque dos EUA e de Israel ao Irã, incluindo o assassinato de seu líder supremo, viola todas as regras e todo o direito internacional. É inaceitável. O mais urgente é restaurar a paz e garantir que os países do Golfo mantenham a serenidade e a soberania sobre seus próprios destinos.

A Organização de Cooperação de Xangai é, em essência, uma plataforma de cooperação antiterrorista, não uma aliança militar. O Brics também não é uma aliança militar: é um foro de governança global, baseado em parcerias estratégicas sem obrigações políticas ou militares vinculantes. A China não tem interesse em disputar com os EUA uma guerra de influência no Oriente Médio. Esse jogo não tem vencedores. Nunca teve.


Editado por: Nathallia Fonseca



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