Sexta, 13 de março de 2026
Impacto
Estudantes da UnDF apontam risco de evasão e aumento no tempo de deslocamento com transferência de campus
Medida considerada arbitrária pela comunidade acadêmica envolve aluguel de R$ 110 milhões
Brasil de Fato — Brasília (DF)
13.mar.2026

Estudantes da UnDF denunciam falta de diálogo e risco de evasão após decisão de transferir cursos | Crédito: Agência Brasília
Estudantes da Universidade do Distrito Federal Jorge Amaury (UnDF) reivindicam ao Governo do Distrito Federal (GDF) a suspensão imediata da transferência de cursos do Campus Norte para um prédio alugado do Centro Universitário Iesb, localizado em Ceilândia. A medida, tomada sem consulta a professores e alunos, envolve um contrato de aluguel estimado em mais de R$ 110 milhões por cinco anos.
A comunidade acadêmica afirma ter sido pega de surpresa com o anúncio logo após o retorno das férias. Embora o movimento estudantil defenda a expansão da universidade para regiões como Ceilândia, eles questionam a retirada de cursos já existentes e a falta de planejamento para os alunos matriculados.
Na última quarta-feira (12), estudantes, professores e servidores também debateram o tema durante uma assembleia geral extraordinária realizada no Campus Norte da UnDF. O encontro discutiu informações gerais, votação da pauta de reivindicações, além da possibilidade de deflagração de greve. Entre os pontos da reunião estavam ainda a criação de uma comissão de greve, definição de um calendário de mobilização.
Risco de evasão
Um levantamento realizado pelo Diretório Central Acadêmico (DCA), com base em 454 respostas do corpo discente, revela que 69% dos estudantes consideram a mudança negativa. O dado mais alarmante indica que 226 dos estudantes trancariam seus cursos, caso a transferência aconteça, enquanto outros 88 preveem sérias dificuldades para continuar estudando.
Para o estudante Jhoni Alvim, morador de Planaltina (GO), a mudança torna a graduação inviável. “Levo quase duas horas para chegar no Campus Norte, em Ceilândia ficaria inviável e eu teria que abandonar o curso”, relatou o aluno, que gasta diariamente R$ 23,20 em passagens e depende de auxílios para frequentar as aulas.
Segundo a pesquisa do DCA, 62% dos estudantes que trabalham ou estagiam afirmam que será impossível ou muito difícil conciliar as atividades após a mudança devido ao aumento no tempo de deslocamento.
Críticas do sindicato
O posicionamento também compartilhado pela comunidade acadêmica. A vice-presidente do sindicato dos professores da UnDF, Kíssila Mendes, afirma que não é contra a expansão da universidade para outras regiões do DF, mas questiona a forma como a decisão foi tomada.
“Enquanto sindicato, a gente sempre defendeu a expansão da universidade. O que chamou atenção foi o tempo em que tudo ocorreu. Foi um processo muito rápido, realizado com dispensa de licitação, o que gerou grande estranhamento.” afirmou.
Mendes também alerta para o impacto financeiro que o contrato pode gerar na própria universidade. “Quase metade do fundo da universidade pode ser destinado a esse aluguel, e esse mesmo fundo é usado para bolsas, projetos e políticas de permanência estudantil. A gente não vê isso como um ganho para a instituição”, declarou.
Para o sindicato, outro ponto é a falta de instâncias democráticas de decisão na instituição. “É uma luta nossa histórica há três anos. A gente fundou o sindicato por isso, e qualquer decisão desse tipo deveria passar pelo Conselho Universitário, que a gente não tem ainda”, afirmou.
Ameaça às bolsas e auxílios
Outro ponto levantado é o impacto financeiro no orçamento da universidade. Os recursos para o pagamento do aluguel milionário devem sair do mesmo fundo que financia as políticas de permanência estudantil, como bolsas de extensão, auxílios e projetos de iniciação científica.
“A preocupação é que recursos fundamentais para a permanência estudantil estejam sendo direcionados para pagar aluguel de um prédio privado”, afirmam representantes do diretório acadêmico.
O movimento destaca que o Campus Norte não possui custos de aluguel e que o governo deveria priorizar a construção de sedes próprias em terrenos públicos já disponíveis, garantindo infraestrutura permanente para a instituição.
Falta de diálogo
A gestão democrática do ensino, assegurada pela Constituição Federal, é um dos pontos que os estudantes alegam ter sido ignorado pelo governo de Ibaneis Rocha (MDB). Para Bárbara Oliveira, representante do DCA UnDF, a resistência não é contra a região de Ceilândia, mas contra o modelo imposto.
“Os estudantes não são contra a mudança para a Ceilândia, desde que seja em um campus nosso, no terreno que nós já temos”, reforçou.
A diretora do sindicato da universidade, Suellen Gonçalves, também critica a forma como a decisão foi conduzida. “A gestão Simone-Ibaneis faz esse movimento do aluguel com uso de desvio da finalidade do recurso do fundo da universidade, desrespeitando os princípios de gestão democrática e da autonomia universitária, sem a devida instauração dos conselhos superiores e diálogo com a comunidade acadêmica”, afirmou.
Oliveira ainda comenta que a mudança imposta pela reitoria está acontecendo de forma arbitrária. “Reitoria essa que não funciona na universidade, nunca teve diálogo com qualquer entidade estudantil”, criticou.
O DCA analisa que a decisão, se mantida, poderá acarretar uma exclusão educacional indireta, onde o aluno não é expulso, mas as condições logísticas tornam sua permanência na faculdade impossível. O grupo pede a abertura imediata de debate público e a revisão do contrato para evitar o aumento das desigualdades educacionais no DF.
O que diz a universidade
Em nota ao Brasil de Fato DF, a Universidade do Distrito Federal Professor Jorge Amaury Maia Nunes (UnDF) afirmou que a ocupação do novo espaço é resultado de um planejamento técnico e de articulação institucional baseada em estudos sobre a distribuição geográfica dos estudantes, índices de evasão, matrícula e mobilidade por Região Administrativa.
Segundo a instituição, também foram considerados fatores como viabilidade docente, impactos socioeconômicos de médio e longo prazo e a adequação da infraestrutura aos princípios previstos no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI).
De acordo com a UnDF, a escolha de Ceilândia está ligada à política de expansão territorial da universidade. A região é a mais populosa do Distrito Federal, com mais de 430 mil habitantes, além de registrar o segundo maior número de matrículas no ensino médio.
A instituição também destacou que moradores de Ceilândia representaram o maior número de inscrições nos processos seletivos da universidade em 2023 e 2024.
Ainda segundo a nota, a implantação de um novo campus na região poderá ampliar o acesso à educação superior pública e contribuir para reduzir a evasão estudantil ao diminuir o tempo e os custos de deslocamento dos estudantes.
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