segunda-feira, 27 de abril de 2026

O MUNDO EM GUERRAS E O BRASIL EM ELEIÇÕES

Segunda, 27 de abril de 2026

O MUNDO EM GUERRAS E O BRASIL EM ELEIÇÕES


Pedro Augusto Pinho

 

Quando Francis Fukuyama, em 1992, lançou "O Fim da História e o Último Homem", comemorava o fim do comunismo, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS (1991), a governança de Deng Xiao Ping na China (1978-1992), enfim a vitória do capitalismo, da democracia liberal e do livre mercado.


Mas não observava, por outro lado, que Shimon Peres (1923-2016), que se unira ao Haganá em 1947, era novamente o Primeiro Ministro de Israel (1995-1996), disposto a avançar em territórios palestinos para “dar maior segurança ao povo de Israel”. Se uma guerra ideológica tinha sido vencida, surgia outra guerra, racial e territorialmente expansionista, junto às maiores reservas de petróleo do mundo. E o petróleo sempre foi um motivo de guerra.


Por que a russofobia europeia? Por eventos do czarismo? Absolutamente não. Porque a Rússia, depois do Oriente Médio (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait) e da Venezuela, detém a sétima maior reserva de petróleo no mundo, superior a 80 bilhões de barris, vindo a seguir a Líbia, com 48,5 bilhões de barris. Enquanto a Europa só tem petróleo na Noruega (sete bilhões de barris) todo pertencente ao Estado, e no Reino Unido (2,5 bilhões de barris). Outras acumulações, insignificantes, nem mesmo atendem às demandas nacionais (Itália, Romênia, Ucrânia).


O comunismo deixou de existir como opção ideológica para um Estado Nacional desde o fim da URSS e do amálgama de Hu Jin Tao (2003-2013) (Confúcio, Mao Tse Tung e capitalismo de Deng Xiao Ping) para ideologia da República Popular da China, o “socialismo com características chinesas”. Na realidade, a China do século XXI passou a ser um tipo novo de Estado, dirigido por um partido que, embora se denomine comunista, tem objetivos nacionais, não mais ideológicos como o de Mao. Como enunciado na Constituição (1982 e cinco emendas: 1988, 1993, 1999, 2004 e 2018): “Na República Popular da China todo poder pertence ao povo, que o exerce pelo Congresso Nacional Popular e pelos congressos populares locais de vários níveis”.


Se nos deixarmos levar pelos rótulos ao invés dos conteúdos poderemos estar nos suicidando. Ainda mais que os Estados Nacionais têm um discurso cultural, dirigem-se a seus próprios habitantes que compreendem vocábulos diferentemente de traduções, quase sempre sem o mesmo valor cognitivo.


Um caso recente e exemplar é a guerra na Ucrânia.


A Ucrânia fazia parte da URSS e passou a constituir a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), em 1992, diferentemente dos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), por exemplo, que nunca fizeram parte da CEI.


A Ucrânia é extremamente rica em recursos naturais, sendo conhecida como o "celeiro da Europa" por suas terras férteis. Seus principais recursos incluem minério de ferro, manganês, titânio, grafite, urânio e grandes reservas de lítio e terras raras, fundamentais para tecnologias modernas.


Os governantes ucranianos até 2010 procuraram equilibrar os interesses ocidentais nas riquezas ucranianas com os tradicionais laços mantidos com a Rússia, enfrentando Viktor Yushchenko (2005–2010) a "Revolução Laranja", com agenda pró-Ocidente.


Em 2010, assumiu a presidência da Ucrânia, com uma agenda pró-Rússia, Viktor Yanukovych. Os serviços secretos e de golpes no exterior dos Estados Unidos da América (EUA), do Reino Unido, certamente, talvez de mais algum país europeu e Israel, promovem os protestos do "Euromaidan" e o rompimento com a Rússia, que se dá com Petro Poroshenko (2014–2019) e sua agenda focado na integração com a União Europeia.


Para nós, brasileiros, que falamos um só idioma de norte a sul do País, talvez seja difícil entender que um país tenha dois idiomas. Mas é o que acontece com a Ucrânia, é um país bilíngue, o ucraniano e o russo são igualmente falados, embora apenas o ucraniano seja considerado oficial desde 1991, como forma de se distinguir na CEI, e malgrado a influência histórica do idioma e da cultura russos.


Para alegria dos russofóbicos a Rússia revida e inicia uma guerra que vem causando imenso prejuízo e transtornos aos povos europeus, e gastando recursos estadunidenses, pois a União Europeia já não os têm.


As ações de Shimon Peres eram a continuação do que já fizera Ben Gurion, em 1949, e praticamente todos dirigentes de Israel: seguir o sonho do alienado, o demente judeu húngaro Theodor Herzl, que divulgou, em fevereiro de 1896, com mapa e incentivos de ocupação “O Estado Judeu”, com subtítulo “Tentativa de uma solução moderna para a questão judaica”. E um ano depois, em 29/8/1897, promove na Suíça (Basileia) um Congresso para fundar a Organização Sionista Mundial.


O “Estado” de Herzl previa o local aprovado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o Estado de Israel, em 1948, o destinado aos palestinos, inclusive a Faixa de Gaza, o Líbano, a Síria, a Jordânia, a parte do Egito e do Sudão a leste do rio Nilo, Eritréia, a metade da Arábia Saudita ao norte do Trópico de Câncer, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e o Iraque, ou seja, os 20.770 km² transformar-se-iam em cerca de três milhões de km².


Acelerar este Estado Judeu vem sendo o projeto de Benjamin Netanyahu para o que tem contado com o poderoso lobby judeu no Congresso estadunidense e na errática administração de Donald Trump. O Irã, terceira maior reserva de petróleo do mundo, vem sendo colocado como o principal inimigo do Estado Judeu, levando às derrotas dos EUA no Oriente Médio, como já ocorria na Ucrânia com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, ou NATO, na sigla em inglês).


E são estas derrotas e as vitórias políticas, econômicas, tecnológicas e comerciais da China que levarão à nova guerra a ser empreendida pelos EUA.


Portanto, ao Brasil não bastam discursos pacifistas, seu governo deve se prevenir para uma guerra certamente muito mais mortal e destrutiva do que a de 1939-1945. Não haverá vencedores, todos países serão de alguma maneira derrotados pelas tecnologias atômica e informática.  


ELEIÇÕES NO BRASIL


A última guerra mundial encontrou na direção brasileira o estadista Getúlio Vargas. Isso permitiu que o País minimizasse os prejuízos e prosseguisse na construção institucional do Brasil.


E agora?


O Brasil passa pela pior crise política de sua história. Ela começa com a invasão neoliberal financeira na década de 1980 e prossegue com o estilhaçar, a fragmentação do Estado Nacional em domínios privados estrangeiros. E não houve força política para se antepor a esta alienação, a esta tragédia.


Recentemente, o dirigente chinês afirmou que não podia permitir escolas privadas na China, pois a instrução era formadora da nacionalidade, o que só poderia ser conseguido na escola pública.


No Brasil, em 1932, diversos intelectuais de diferentes ideologias e posturas políticas se uniram em favor do ensino. Denominou-se o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Visavam democratizar o ensino, combater o caráter oligárquico da educação e promover a "escola única" para todos, independentemente da origem social. Tiveram na Igreja Católica o mais insidioso inimigo.


E a escola para todos, pública, pois grátis, senão não seria para todos, laica, pois não lhe cabia doutrinar, mas ensinar, e universal pois estaria em todos rincões do Brasil, “aprender fazendo” para não formar apenas pela memorização, nunca se estabeleceu.


O grande construtor de escola no Brasil foi o governador Leonel Brizola. Quando governador do Rio Grande do Sul (1959-1963) construiu 6.302 novas escolas e reformou nove. O projeto conhecido como “brizoletas” incluiu 5.902 escolas primárias, 278 escolas técnicas, 131 escolas de ensino médio e normal. Foram criadas 688.209 novas matrículas e admitidos 42.153 professores para a população de 5.488.823 habitantes, um crescimento demográfico de 2,7% no decênio 1950-1960.


Posteriormente, governador do Estado do Rio de Janeiro por duas vezes (1983-1987 e 1991-1994) foram construídos 520 Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e educacional de Darcy Ribeiro. Escolas de horário integral (8 às 17 horas), com três refeições diárias, atividades culturais e esportivas e serviços de saúde para os alunos. No retorno ao governo, muito do tempo e recursos foram despendidos para recuperar o desleixo, para dizer o mínimo, com que o governo Moreira Franco tratou o ensino. Em 2025, a Prefeitura do Rio de Janeiro tombou 14 CIEPs pela relevância histórica e arquitetônica.


E o que os candidatos à presidência da república e ao governo dos Estados propõem para o ensino? Um silêncio assustador. E é por isso que a ignorância cresce, como se vê nas manifestações populares desde 1990. A marginalidade, a corrupção, o descaso toma conta da administração de inúmeros setores da vida dos brasileiros. A educação, embora fundamental, é apenas um setor, ainda que fundamental como se vê na China de Xi Jin Ping, que é também de Confúcio.


A privatização desinstitucionaliza o Brasil.


O cuidado da moeda foi privatizado e está hoje nas mãos dos que deveriam ser auditados. Os cuidados da saúde estão com os que faturam com a doença. A industrialização cedeu lugar à especulação financeira. E nenhum dos candidatos trata com seriedade e projetos de reerguer o Brasil. Até um deles vai ao exterior para propor entregar aos cidadãos de outro país a direção nacional brasileira.


Como sobreviveremos ao mundo em guerra sem governos nacionais brasileiros?


Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.