sexta-feira, 1 de maio de 2026

BRASIL DO SÉCULO XXI PERMANECE NO SÉCULO XIX MAS NÃO É BRASILEIRO

 Sexta, 1º de maio de 2026

BRASIL DO SÉCULO XXI PERMANECE NO SÉCULO XIX MAS NÃO É BRASILEIRO


Pedro Augusto Pinho*

 

Os cinquenta anos da Era Vargas, com o suicídio do único Estadista brasileiro, Getúlio Dornelles Vargas, não deixaram o Brasil soberano, nem mesmo no século XX.


Mantiveram-nos, as forças do atraso, o país na escuridão da ignorância, da escravidão, do analfabetismo e da absoluta ausência de algo tão fora de moda que muitos desconhecem totalmente o significado dos vocábulos “civismo”, “ética”, “nacionalismo”, “moral”.


Quem demonstra este incrível retrocesso do Brasil de Vargas, em 2026, é o denominado Poder Legislativo, principalmente pelas ações dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, as atuações de alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e quase todos presidentes de partidos políticos, legalmente registrados na Justiça Eleitoral.

Antes de analisarmos a situação presente, façamos breve recordação histórica.


O Brasil neste artigo será sempre dos 8.510.417,771 km², calculados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e universalmente aceitos. Acrescidos, conforme definido pela Organização das Nações Unidas (ONU), de mais de dois milhões de km², com destaque para a recente aprovação na Margem Equatorial de cerca de 360 mil km², o que fortalece o controle brasileiro sobre o leito marinho da costa brasileira.


O Brasil vivia os anos 1800 em permanentes crises: renúncia do proclamador da independência, D. Pedro I, sua abdicação em favor do filho de cinco anos e quatro meses, o medo da revolta dos escravos como ocorrera no Haiti, liderada por Toussaint Louverture, iniciada em 22/8/1791 e vitoriosa em 7/4/1803 e a violência latente pela imensa desigualdade existente entre os habitantes do Brasil.


Com retorno de D. Pedro I para Portugal – os Braganças governaram aquele País de 1640 a 1910 – criou-se nesta Terra de Santa Cruz o “Clube da Maioridade”, oficialmente “Sociedade Promotora da Maioridade” (1840), liderada por Antonio Carlos de Andrada e Silva. Havia uma combinação de pressão popular, fruto da propaganda, de notícias enganosas e de alianças estratégicas.


Os principais argumentos eram a Unidade Nacional, a pacificação do País, para o que concorriam artigos, slogans e publicidade dos liberais. Estes eram dirigidos pelos paulistas Andradas (Antônio Carlos e Martins Francisco), pelos Cavalcanti (Holanda Cavalcanti) e os Albuquerques (Francisco Caeiro de Albuquerque), que dominavam Pernambuco, Pedro de Araújo Lima, também nordestino, Diogo Antônio Feijó, padre paulista, e o mineiro Teófilo Benedito Otoni, alcunhados “Luzias”.


Na disputa pelo Poder, opunham-se aos “Luzias” os “Saquaremas”, elite agrária do Vale do Paraíba, representados por Bernardo Pereira de Vasconcelos, Honório Hermeto Carneiro Leão e José Costa Carvalho.


Da abdicação de D. Pedro I até o Golpe da Maioridade, ocorreram, dentre outros, os seguintes principais movimentos insurgentes:


(1) no Grão-Pará, Cabanagem (1835-1849), das mais sangrentas revoltas populares do Brasil, liderada por Félix Malcher, Antonio Vinagre, Francisco Vinagre e Eduardo Angelim. “Os habitantes da província do Pará queriam aderir ao governo do Rio de Janeiro ou desejavam se manter unidos a Portugal? – é incabível, pois no contexto da crise do Antigo Regime a sociedade paraense dividiu-se em múltiplos partidos, cada qual defendendo diferentes projetos políticos que não estavam reduzidos à escolha entre o Império do Brasil ou o português (...) não havia uma posição hegemônica na província. Ao contrário: a característica marcante daquela sociedade é a profunda cisão entre os homens, traduzida pelo embate entre diversos projetos de futuro que pretendiam ser a resposta a problemas que transcendiam à escolha entre o alinhamento ao Rio de Janeiro ou Lisboa”, analisa André Roberto de Arruda Machado (“A quebra da mola real das sociedades: a crise política do Antigo Regime português na província do Grão-Pará (1821-25)”, tese de doutorado, Universidade de São Paulo (USP), 2006);


(2) no Rio Grande do Sul, Revolta dos Farrapos ou Revolução Farroupilha (1835-1845), que resultou na declaração de independência da província como estado republicano, e teve como líderes: general Bento Gonçalves da Silva, general Davi Canabarro, general Antônio de Sousa Netto, general José Mariano de Mattos, general Gomes Jardim, coronel Onofre Pires, coronel Lucas de Oliveira, coronel Corte Real, coronel Teixeira Nunes, coronel Domingos de Almeida, coronel Domingos Crescêncio de Carvalho, deputado Vicente da Fontoura, além de receber inspiração ideológica de italianos da “Carbonária”, aqui refugiados, como o cientista e tenente Tito Lívio Zambeccari e o jornalista Luigi Rossetti, além do capitão Giuseppe Garibaldi;


(3) na Bahia, Revolta dos Malês (1835), rebelião de escravizados africanos, principalmente muçulmanos (nagôs e hauçás). Na busca da liberdade, do fim dos castigos físicos e contra a intolerância religiosa, cerca de 600 rebeldes lutaram por uma república islâmica, sendo a maior revolta escrava urbana (Salvador) do Brasil. Os principais líderes, como Pacífico Licutã e Manuel Calafat, buscavam não apenas a liberdade, mas combater a imposição do catolicismo e a brutalidade da escravidão. A repressão foi violenta; dezenas de mortes, prisões, açoites e deportações. O medo de novos levantes, conhecido como "haitianismo", aumentou a fúria da elite baiana, gerando leis mais rigorosas contra a população;


(4) também na Bahia, Sabinada (6 de novembro de 1837 a 16 de março de 1838), de caráter republicano e separatista transitório, enquanto D. Pedro II não assumisse o poder imperial. Seus líderes foram o médico e jornalista Francisco Sabino e o advogado João Carneiro da Silva Rego. Pode parecer algo sem sentido, mas é importante, e nem sempre nos é ensinado, como viveu o Brasil desde a Independência (1822) até D. Pedro II ocupar o trono em julho de 1840. E, em especial, em Salvador, que teve protagonismo relevante em nossa história, desde 1549 até 1808; e


(5) no Maranhão, Balaiada (de 1838 a 1841), também chamada Guerra dos Bem-te-vis, revolta popular e social que objetivava melhores condições de vida, contou com a participação de vaqueiros, escravos e outros desfavorecidos e se opunha à má gestão do governo local, incapaz de evitar que a maioria da população falisse durante a crise do comércio de algodão, e contra a promulgação da Lei dos Prefeitos que autorizava os presidentes das províncias a nomearem prefeitos municipais, levando assim os seus “nomes de confiança” ou eles próprios ao poder.


No entanto, fiquemos por aqui, para que nos dediquemos ao Brasil após 1980.


O BRASIL DA REDEMOCRATIZAÇÃO, QUANDO DEIXA DE SER BRASILEIRO


Nada foi mais enganoso para a população brasileira do que o movimento neoliberal financeiro desenvolvido com o governo do general João Batista Figueiredo (15/3/1979-1985) e por todos governantes seguintes.


Como na ficção de Arthur Conan Doyle, o mundo da década de 1980 pareceu ser tomado pelo “Veneno Cósmico”, a nuvem tóxica que extinguiu o nacionalismo em prol do globalismo liberal. Nem a República Popular da China (China) escapou.


A Baronesa Thatcher de Kesteven (1925-2013), representante dos capitais financeiros do Reino Unido, convenceu o intelectualmente pouco provido Ronald Reagan (1911-2004) a impor a lei universal para o controle do poder planetário pelas finanças, o “Consenso de Washington” (1989).


Deixou-se, assim, de haver limites para o enriquecimento, o que fez campear a corrupção, o suborno e aumentar celeremente a concentração de renda e uma ganância desmedida.


Paralelamente, crescem as igrejas neopentecostais por todo Brasil. Estas surgiram na segunda metade do século XX, nos Estados Unidos da América (EUA) propagando a “Teologia da Prosperidade”, a fé vinculada ao sucesso financeiro.


Rapidamente se expandem pelas periferias das grandes cidades e utilizando os mais eficazes meios de comunicação – televisão e redes sociais. Realizam sessões de exorcismo, difundem a crença no diabo, e aproveitam a pouca instrução dos adeptos, que reforçam, para sua expansão pelas Américas e na África.


O Estado Nacional, ausente pelo neoliberalismo privatista, facilita a penetração das igrejas neopentecostais assumindo um assistencialismo como forma de catequese. E pastores e bispos começam a aparecer nas Assembleias Municipais, Estaduais e no Congresso Nacional.


A percepção da corrupção variou ao longo do século XX. No início, durante a República Velha ou Primeira República, se concentrava na fraude eleitoral, mas era herdeira do patriarcado que vinha desde os governos-gerais.


O Brasil, até Floriano Peixoto, estava dividido entre os senhores de terra e os sem terra, escravos ou homens supostamente livres, pois quase sempre lhes faltavam recursos para manter a independência e a liberdade.


Getúlio Vargas, que promove a educação e dá dignidade ao trabalho, acolhe os sindicatos, aprova a Carteira do Trabalho, a assistência e a previdência social, é um novo Brasil desponta. E é, também, a razão de ser tão agredido até hoje, 144 anos de seu nascimento e 72 de sua morte. Ainda mais neste mundo neoliberal financeiro, da corrupção e da ignorância.


Na Era Vargas — 1930 a 1979 — tivemos políticos, homens públicos que fizeram fama e fortuna com a corrupção. Talvez por ser o Estado mais rico da federação, São Paulo os coleciona em maior número: Adhemar de Barros, Delfim Neto, Jânio Quadros, Paulo Maluf e Sérgio Motta. Bahia e Maranhão empatam com Antonio Carlos Magalhães e João Alves de Almeida e com Edson Lobão e José Sarney. Alagoas contribui com Paulo César (PC) Farias e o Rio de Janeiro com o empréstimo de Fernando Collor de Mello, que carrega no nome Alagoas e o Rio Grande do Sul.


O Caso do Banco Master universaliza a corrupção pelos poderes no Brasil e coloca em risco a frágil “democracia” e o futuro econômico e social do País.


Num país desigual como poucos, com tão grande população, 212 milhões, a 7ª maior do mundo, só o domínio ideologicamente concentrado na desinformação e na doutrinação política da comunicação de massa pode explicar a inexistência de movimentos populares como os que apontamos na primeira metade do século XIX.


O Caso do Banco Master coloca até em questão a eleição de outubro de 2026.


Analisemos sobre o vetor do Caso do Banco Master as duas derrotas do presidente Lula neste final de abril de 2026: a rejeição de Jorge Messias para a vaga aberta no STF e a derrubada do veto à “lei da dosimetria”, que escancara as portas das prisões a condenados por todos os crimes.


Os grandes beneficiários com ambas derrotas foram os corruptos que ocupam lugar no Supremo Tribunal Federal e outros Superiores Tribunais de Justiça, no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, os presidentes dos maiores partidos políticos, os entreguistas do grupo político ligado ao presidiário Jair Bolsonaro, e a todos empresários, governadores, políticos estaduais, municipais e profissionais que prestaram e/ou prestam apoio às trambicagens do economista mineiro Daniel Vorcaro (1983), excluído(s) seu(s) advogado(s) que atua(m) por ofício profissional. A expectativa agora é da asfixia, do apagamento, do esquecimento do Caso do Banco Master. Já em maio corrente ele provavelmente sairá das mídias.


Enumerar todas as falcatruas, neste instante das investigações, seria temerário, mas ficam dúvidas sobre a lisura dos presidentes de ambas as casas legislativas federais, sobretudo pelos contatos mantidos antes das votações no plenário e pela entrada no Brasil de viagem internacional sem o devido controle alfandegário.


Especialmente porque os chefes das principais quadrilhas e seus representantes que atuam no Brasil, com ramificações no exterior — Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, e Comando Vermelho (CV), no Rio de Janeiro — transitam pelos legislativos e tribunais de justiça com a desenvoltura de quem está no comando.


E as guerras cujas iniciativas couberam aos EUA e ao Estado de Israel estão fragilizando as já limitadas democracias, que carecem de instituições sólidas e respeitáveis, por todos os continentes.


Os eventos de 29 e 30 de abril próximo passado fazem-nos temer que este Congresso não mais manterá o desonroso título do pior da História Brasileira, após as apurações das eleições de outubro de 2026. Pobre de nossos filhos, pobre de nossos netos, pobre do povo simples e miscigenado do Brasil.


E Brasil não será o nome de um País, mas um rótulo de fantasia para onde se abrigam os marginais de toda sorte, das drogas, das finanças, dos assassinatos e dos pequenos crimes, os punguistas, que vão formando seus habitantes.


Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.