Segunda, 15 de junho de 2026
A guerra e a paz, vistas de Teerã
Em meio a sinais de uma derrota estratégica dos EUA, fala um pesquisador iraniano. As raízes históricas da resistência persa. A provável sabotagem de Israel. O papel da China e da Rússia. O que muda no Oriente Médio, após o fiasco de Trump

À medida que Washington e Teerã parecem se aproximar de um acordo preliminar para pôr fim à devastadora guerra contra o Irã, questões fundamentais permanecem sem resposta: o conflito realmente terminou ou a região está entrando em uma nova e mais perigosa fase de instabilidade?
Na entrevista a seguir, o jornalista Chris Hedges conversa com o analista político iraniano Mohammad Marandi, nascido nos EUA, formado na Universidade de Barminghan e ex-conselheiro para negociações nucleares de Teerã. Debatem o estado das negociações, a situação do Irã após meses de guerra, o futuro do Líbano e de Gaza, e as consequências geopolíticas mais amplas de um conflito que já remodelou o Oriente Médio e abalou a economia global.
Marandi argumenta que, apesar da imensa destruição e das dificuldades econômicas, o Irã emergiu do conflito politicamente intacto e estrategicamente fortalecido, enquanto os Estados Unidos e Israel não conseguiram atingir seus principais objetivos. Também alerta que qualquer acordo permanece frágil, apontando para as contínuas operações militares de Israel no Líbano, a antiga desconfiança iraniana em relação aos compromissos dos EUA e o risco de que um novo conflito possa ameaçar novamente os mercados globais de energia e a estabilidade econômica.
A entrevista oferece uma rara oportunidade de ouvir diretamente de uma voz proeminente do Irã sobre como a guerra é entendida dentro do país, o que Teerã exige nas negociações e por que muitos na região acreditam que o conflito está longe de terminar.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou na sexta-feira que um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã deverá ser finalizado em 24 horas. O Ministério das Relações Exteriores iraniano, no entanto, afirma que a formalização do acordo pode levar mais alguns dias.
Apesar das perdas iranianas e da crise econômica desencadeada pela guerra — com prejuízos estimados em US$ 270 bilhões —, nenhum dos principais objetivos dos EUA e de Israel foi alcançado. O Estado iraniano não entrou em colapso. A nova liderança iraniana, centrada na Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), permanece desafiadora.
O Irã continua a controlar o Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do suprimento mundial de petróleo e gás natural. Segundo relatos, o país cobra até US$ 2 milhões — frequentemente pagos em moeda chinesa — para que petroleiros possam atravessar o estreito.
Se o Estreito de Ormuz não for reaberto em breve, a economia global poderá estar caminhando para uma grande crise. As reservas estratégicas de petróleo em países como o Japão e os Estados Unidos, que têm sido usadas para compensar a escassez de petróleo, estão se esgotando rapidamente. Os preços da gasolina nos Estados Unidos estão agora 34% mais altos do que há um ano, enquanto os preços do diesel subiram mais de 50%. Esses aumentos são agravados pela escassez de produtos essenciais, incluindo fertilizantes nitrogenados, alumínio e hélio.
Trump e seus aliados israelenses estão bem cientes de que, quer queiram quer não, o Irã detém atualmente uma influência significativa.
As principais exigências de Teerã incluem:
- Suspensão imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano.
- O compromisso dos EUA de não interferir nos assuntos internos do Irã e de respeitar a soberania iraniana.
- O levantamento do bloqueio naval dos EUA dentro de 30 dias.
- Retirada das forças americanas das áreas ao redor do Irã.
- Reabertura do Estreito de Ormuz sob acordo com o Irã.
- Suspensão das sanções ao petróleo iraniano, aos produtos petroquímicos e às indústrias relacionadas.
- A assistência para a reconstrução está estimada em 300 bilhões de dólares, provenientes dos Estados Unidos e seus aliados.
- Um período de negociação de 60 dias para abordar questões nucleares, o alívio de sanções e as resoluções relevantes do Conselho de Segurança da ONU e da AIEA.
- Um compromisso renovado do Irã, nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, de não buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
- A liberação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados antes do início das negociações, com a liberação de fundos adicionais à medida que as negociações avançarem.
O presidente Trump anunciou alguma versão de um acordo de paz dezenas de vezes. Talvez não devêssemos chamar isso ainda de acordo de paz, mas sim de um acordo para iniciar negociações. Autoridades paquistanesas parecem otimistas, enquanto o ministério das Relações Exteriores iraniano afirma que um acordo final ainda pode levar vários dias. Da sua perspectiva em Teerã, qual é a situação atual?
Mohammad Marandi: Ainda não há um acordo final. Persistem diferenças significativas. Quando as autoridades iranianas diziam que uma assinatura no domingo era improvável, é porque tais diferenças não foram resolvidas. Mesmo que ambos os lados assinem um memorando de entendimento, isso não significa que a paz esteja garantida. Muitas coisas podem acontecer nos próximos dias e semanas.
Já está claro que o regime israelense está tentando impedir qualquer normalização da situação na região. O ataque ao Líbano se intensificou. Vilarejos e cidades no sul e centro do país estão sendo bombardeados diariamente. Homens, mulheres e crianças estão sendo mortos. O objetivo parece ser a destruição do sul do Líbano — para que se assemelhe a Gaza. Em muitos lugares, isso já ocorre.
Mesmo que um acordo seja assinado, as ações de Israel e a pressão do lobby israelense podem comprometer o progresso. E se ultrapassarmos um acordo inicial, entramos numa segunda fase que se torna ainda mais complicada.
Existem sanções que devem ser suspensas, muitas das quais estão inscritas na legislação dos EUA. O programa nuclear iraniano também é inegociável em certos aspectos. O Irã não abandonará o enriquecimento de urânio porque o considera um direito soberano.
Portanto, há um campo minado pela frente. O Estreito de Ormuz permanece efetivamente fechado e a economia global caminha para uma crise. Mesmo que um acordo seja assinado, qualquer perturbação poderá resultar no fechamento do estreito novamente.
Nada é certo.
Gostaria de perguntar sobre o Líbano. Desde o momento em que o cessar-fogo foi anunciado, tudo indicava que tanto os Estados Unidos quanto Israel o violariam imediatamente. Vimos ataques violentos quase que imediatamente depois. Também vimos o que aconteceu em Gaza, onde quase mil palestinos teriam sido mortos desde que o chamado cessar-fogo foi implementado.
Estaremos caminhando para uma situação em que os acordos existem no papel, mas na prática há violações e ataques periódicos e uma recusa de Israel em cumprir uma das principais exigências do Irã — ou seja, o fim das hostilidades no Líbano? O entendimento parece ser que o Irã se absterá de atacar aliados dos EUA, mas Israel e os Estados Unidos, da mesma forma, se absteriam de atacar aliados iranianos, como o Hezbollah.
Mohammad Marandi: A questão também inclui Gaza, embora Gaza não seja especificamente mencionada no acordo proposto. O Líbano é mencionado diretamente devido aos constantes ataques aéreos contra aldeias, vilas e cidades.
O que você está descrevendo é certamente uma possibilidade, e é precisamente o que as autoridades iranianas dizem que poderia levar ao fracasso do acordo.
A principal vantagem do Irã é o Estreito de Ormuz. O Irã tem a capacidade de restringir o acesso ao estreito para países alinhados aos Estados Unidos. É importante entender que o Irã nunca fechou completamente o Estreito de Ormuz. Países que permaneceram amistosos a Teerã durante a guerra — ou que não participaram da campanha — continuaram a navegar pela passagem.
Houve breves períodos em que os norte-americanos efetivamente impuseram um fechamento completo, mas, de modo geral, embarcações associadas a países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein e Catar enfrentaram restrições porque esses governos participaram do esforço de guerra dos EUA. Segundo o acordo proposto, esses países voltariam a ter permissão para usar o estreito. No entanto, se Israel violar o acordo, da perspectiva do Irã os Estados Unidos também o terão violado.
Vimos isso após a guerra de 39 dias. Havia um acordo para pôr fim às hostilidades no Líbano, e esperava-se que o Estreito de Ormuz fosse reaberto para a navegação com destino a esses países. Mas quando Netanyahu retomou os bombardeios ao Líbano, o Irã respondeu impedindo a saída desses navios. Trump, então, impôs um bloqueio aos portos iranianos.
Consequentemente, o estreito permanece em grande parte fechado para países aliados dos Estados Unidos. O importante é que isto não será outro acordo como o JCPOA, de 2015. Naquela ocasião, o Irã cumpriu seus compromissos no âmbito do acordo nuclear. Os norte-americanos, em muitos casos, não o fizeram. O presidente Obama deveria ter cumprido uma série de obrigações, mas falhou em implementar muitas delas. Essa experiência deixou uma profunda cicatriz no Irã e é um dos motivos pelos quais o JCPOA é visto com desaprovação por muitos iranianos atualmente.
Desta vez, o Irã insiste em uma sequência diferente. Os Estados Unidos devem primeiro libertar os ativos iranianos e ajudar a pôr fim ao massacre no Líbano. Só então o processo poderá avançar.
A sequência é fundamentalmente diferente da do JCPOA, em que o Irã agiu primeiro e depois esperou para ver se os americanos cumpririam suas obrigações. Em algumas áreas, Washington terá que agir primeiro. Em outras, a implementação ocorrerá simultaneamente.
Os Estados Unidos têm um longo histórico de descumprimento de acordos com o Irã. Isso remonta aos Acordos de Argel e a inúmeros outros entendimentos nos quais Washington prometeu não interferir nos assuntos iranianos.
Mohammad Marandi: Exatamente. E isso vai além do acordo nuclear. Ao longo dos anos, houve entendimentos envolvendo o Afeganistão, o Iraque, o Líbano e outras questões. Em todos os casos, do ponto de vista iraniano, foram os americanos que violaram o acordo. Essa história explica o ceticismo em Teerã.
Não conheço ninguém que acredite que um acordo será assinado, que Washington cumprirá voluntariamente todos os seus compromissos e que os dois lados passarão então sem problemas para uma segunda fase que conduza a um acordo abrangente. Pessoalmente, acho isso altamente improvável.
Mesmo agora, não tenho certeza absoluta de que um acordo será assinado. As chances são relativamente altas porque Trump está sob enorme pressão, mas ainda há divergências substanciais sobre questões que o Irã considera intransponíveis. Os norte-americanos não querem que Israel fique de mãos atadas no Líbano. Os iranianos afirmam que deve haver um cessar-fogo genuíno. Israel não pode simplesmente manter a capacidade de atacar o Líbano quando bem entender.
Mohammad Marandi: Perfeito. A influência do Irã provém tanto do campo de batalha quanto da economia. Os iranianos acreditam que tiveram um desempenho muito bom durante os 39 dias de combate. Eles não acreditam apenas que sobreviveram. Acreditam que venceram. Atingiram com sucesso alvos israelenses, instalações americanas e ativos aliados em resposta aos ataques contra a infraestrutura iraniana e locais civis.
Como resultado, a confiança dentro do Irã é muito alta. Quando a guerra começou, havia preocupação. Algumas pessoas acreditavam que o Irã sairia vitorioso, enquanto outras temiam o pior. Mas o notável era a calma. Mesmo depois de ficar claro que importantes líderes haviam sido assassinados, as pessoas não entraram em pânico. Não houve corrida aos supermercados, nem estocagem generalizada. Os postos de gasolina permaneceram relativamente tranquilos.
Gradualmente, a confiança pública aumentou. Após duas semanas, muitas pessoas acreditavam que o Irã estava vencendo a guerra. Quando o Irã finalmente aceitou o cessar-fogo — depois que Trump mudou de posição, passando de exigir a rendição incondicional para aceitar a proposta iraniana de dez pontos para negociações — muitos iranianos argumentaram que a guerra deveria continuar.
Ainda hoje, há muitas pessoas que acreditam que, se os norte-americanos recusarem as exigências, o Irã deverá retomar os combates. Não sei se são a maioria. Mas o que é certo é que a confiança hoje é muito maior do que era antes. Essa confiança leva muitos iranianos a acreditarem que sua posição é mais forte do que a de Washington. E se os americanos ou os israelenses violarem um acordo, não creio que o Irã simplesmente o aceitará. Vimos isso no Líbano. Quando Israel intensificou seus ataques a Beirute e ameaçou vastas populações civis, o Irã respondeu diretamente. Do ponto de vista iraniano, isso demonstrou tanto capacidade quanto determinação.
Para onde você acha que a situação econômica está caminhando? Trump está flertando com o que poderia se tornar uma depressão global, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado. Ao mesmo tempo, o Irã sofreu danos significativos devido à guerra. A inflação está alta, especialmente para produtos de primeira necessidade. É evidente que o Irã pagou um preço alto por esse conflito.
Mohammad Marandi: Sem dúvida. Os 39 dias de guerra causaram danos significativos. Os ataques tiveram como alvo fábricas farmacêuticas, instalações de produção de aço, plantas petroquímicas e o principal campo de gás do Irã. Escolas, hospitais e prédios residenciais foram atingidos. A destruição foi substancial. Se você vier a Teerã hoje, não verá necessariamente devastação em todos os lugares, pois é uma cidade muito grande. Mas, se souber onde procurar, os danos são evidentes.
O bloqueio imposto aos portos iranianos criou problemas adicionais. Os Estados Unidos restringiram a capacidade do Irã de exportar e importar mercadorias. As exportações de petróleo caíram significativamente e a capacidade de importar alimentos, medicamentos e suprimentos médicos por meio de seus portos no sul do país foi severamente afetada. O Irã está tentando substituir essas rotas comerciais pela Ásia Central, Mar Cáspio, Cáucaso, Paquistão e, em menor escala, Afeganistão. Mas essas alternativas não são suficientes.
Não há como negar que a situação é difícil. Apesar dessas pressões, os iranianos demonstraram uma resiliência extraordinária. Muitas pessoas encaram isso como uma guerra pela sobrevivência nacional. Elas acreditam que venceram a guerra, e essa crença fortaleceu a confiança pública. Os iranianos também são resilientes por natureza. De forma mais ampla, as comunidades xiitas em toda a região têm uma tradição de resistência profundamente enraizada.
A história do Imam Hussein e da Batalha de Karbala — a disposição de se opor à opressão independentemente das adversidades — está profundamente enraizada na visão de mundo em toda a região. Essa tradição ajuda a explicar a resiliência que vemos no Irã, no Líbano e em grupos como o Hezbollah. É uma das razões pelas quais muitos se referem ao que existe como o “Eixo da Resistência”.
Na minha opinião, o Irã sobreviverá aos Estados Unidos nesse confronto econômico. O cerco imposto por Washington é uma faca de dois gumes. Os Estados Unidos estão tentando destruir a economia iraniana. Ao mesmo tempo, estão causando sérios danos à economia global e empurrando sua própria economia para a crise. A diferença é tanto psicológica quanto econômica. Os iranianos veem-se como vítimas de agressão. Acreditam que estão defendendo seu país e, portanto, devem suportar dificuldades.
Em contrapartida, a maioria dos norte-americanos não se vê em uma guerra de sobrevivência. Encaram o conflito como uma guerra de escolha. E muitas pessoas ao redor do mundo veem cada vez mais essa guerra como uma luta travada em nome de Netanyahu e do governo israelense, em vez de uma guerra motivada por seus próprios interesses nacionais.
Quem quiser entender a resiliência iraniana deve estudar a guerra de oito anos contra o Iraque. Pelo que sei, você mesmo lutou nessa guerra.
Eu me ofereci como voluntária quando tinha dezesseis anos. Durante a guerra, fui exposto a armas químicas duas vezes. Sobrevivi a ataques com gás mostarda e com agentes nervosos. Um amigo em comum nosso, Alastair Crooke, escreveu um livro há muitos anos chamado “Resistência e a Essência da Revolução Islâmica” . É um livro antigo, mas ainda acho que oferece informações úteis. Não existe muito material de alta qualidade disponível em inglês sobre o Irã, mas esse é um livro que costumo recomendar. Outro é ” Going to Tehran”. Para quem busca compreender o conceito de resistência e como ele molda o pensamento iraniano, essas obras oferecem um contexto valioso.ma Guerra Terrestre
Recentemente, ouvimos Trump ameaçar tomar a Ilha de Kharg. Com o presidente, muitas vezes é difícil saber se essas declarações representam uma política real ou simplesmente improvisações de madrugada. Mas, se as negociações fracassarem, o que significaria uma medida dessas?
Mohammad Marandi: Seria difícil, mas não impossível. Os Estados Unidos deslocaram um número substancial de tropas e grandes quantidades de equipamentos para o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e outros locais ao redor do Golfo Pérsico. Manter esses destacamentos é um desafio. É verão no Golfo, e as condições são extremamente quentes e úmidas.
Caso ocorresse um ataque, entendo que o Irã provavelmente permitiria que as forças americanas tomassem algum território inicialmente e, em seguida, começaria a atacá-las com drones, foguetes e mísseis. Na verdade, durante a guerra, oficiais militares iranianos me disseram que quase desejavam que os Estados Unidos lançassem uma invasão terrestre. A visão deles era de que os pontos fortes do Irã se tornariam muito mais significativos quando as forças americanas estivessem fisicamente presentes em território iraniano ou ocupando ilhas e posições fixas. Nesse ponto, essas forças se tornam vulneráveis.
A estratégia militar do Irã sempre se concentrou em tornar o custo de uma invasão insuportável. O objetivo não é necessariamente derrotar os Estados Unidos no sentido convencional. O objetivo é infligir sofrimento suficiente para que os futuros líderes americanos decidam que tal guerra jamais valerá a pena ser tentada novamente.
As pessoas frequentemente subestimam a dimensão dos preparativos do Irã. Durante décadas, o país construiu extensas instalações subterrâneas. Cidades subterrâneas abrigam sistemas de mísseis, infraestrutura para drones, fábricas, redes de defesa aérea e até mesmo componentes da força aérea iraniana. Essas instalações não foram construídas da noite para o dia.
Esses preparativos deram certo. O Irã também passou décadas se preparando para a possibilidade de uma guerra terrestre. Os resultados surpreenderam muitos observadores. Com base em conversas que tive com pessoas na China, na Rússia e em outros lugares, há um espanto genuíno com a eficácia com que o Irã lidou com o conflito. Se os Estados Unidos lançassem uma grande invasão terrestre, acredito que muitas pessoas ficariam igualmente surpresas com o resultado. Pessoalmente, não acredito que Trump queira uma guerra desse tipo. Mas, dada a influência do lobby israelense e a imprevisibilidade dos acontecimentos políticos, jamais diria que algo é impossível.
De que forma a guerra alterou o equilíbrio de poder regional?
A posição do Irã foi significativamente fortalecida. Isso é especialmente verdade em relação à Rússia e à China. Autoridades de ambos os países expressaram admiração pela forma como o Irã lidou com a guerra. Talvez não usem a palavra “surpresos”, mas creio que a surpresa faça parte do que sentiram. Muitas pessoas previam o colapso do Irã. Achavam que o país cederia durante a fase inicial de doze dias do conflito. Depois, após a intervenção americana, acreditaram que o Irã entraria em colapso em poucos dias. Em vez disso, o Irã manteve-se firme. Houve destruição. perda de vidas e sofrimento. Mas nunca houve a sensação de que o país estivesse se desintegrando.
Sempre acreditei que o Irã sobreviveria, mas até eu fiquei surpreso com a resiliência demonstrada pelas pessoas comuns. Encia Pública, Gaza e o Futuro da Região
Uma das coisas notáveis durante a guerra foi a resposta do público. Quando havia ameaças de bombardeio a pontes e infraestrutura crítica, víamos iranianos comuns se reunindo em torno desses locais, quase espontaneamente, para protegê-los.
Mohammad Marandi: Sim. Meus próprios alunos me contatavam constantemente naqueles primeiros dias. Eles perguntavam: “O que podemos fazer? Para onde devemos ir? Como podemos ajudar?” Muitas vezes eu não sabia o que dizer a eles. Passava tanto tempo dando entrevistas para a mídia que, ironicamente, às vezes eu sabia menos sobre o que estava acontecendo no terreno do que as pessoas comuns. Mas tinha alunos — de dezoito e dezenove anos — que me ligavam constantemente.
O que mais me impressionou foi que alguns daqueles alunos haviam participado de protestos e tumultos apenas alguns meses antes. Vários entraram em contato comigo em particular e disseram: “Cometemos um erro. Como podemos compensá-lo?” Algumas dessas conversas foram emocionantes. Eu sugeriria fazer trabalho voluntário com a Cruz Vermelha, ajudar em mesquitas locais ou encontrar maneiras de auxiliar suas comunidades. As pessoas queriam contribuir. Ao longo dos 39 dias de guerra, houve um espírito extraordinário entre os iranianos comuns. Mas, para mim, aquelas primeiras semanas foram diferentes de tudo que eu já havia experimentado.
Vamos supor que o memorando de entendimento seja eventualmente assinado. Você mencionou anteriormente que ainda existem grandes obstáculos, especialmente a determinação de Israel em sabotar qualquer acordo. O que você acha que acontece a seguir? Estaremos caminhando para um futuro de ataques periódicos, escaladas intermitentes e um conflito interminável de baixa intensidade, semelhante ao que vimos em Gaza e no Líbano?
Mohammad Marandi: Graças a Deus, não sou um apostador. Mas acredito que os iranianos não permitirão que o que consideram um genocídio continue indefinidamente. No Líbano, acredito que o Irã será extremamente firme tanto na mesa de negociações quanto na aplicação de qualquer acordo que venha a ser firmado.
Gaza apresenta um desafio diferente. Na minha opinião, muitos governos da região abandonaram os palestinos. Turquia, Egito, Arábia Saudita, Jordânia e outros aceitaram o que o Irã considera um acordo de cessar-fogo fundamentalmente injusto. Na prática, eles o endossaram. Desde então, Israel continuou suas operações militares além dos limites acordados, e um grande número de palestinos foi morto.
O problema para o Irã é que Washington pode simplesmente responder dizendo que já existe um acordo em vigor. Isso limita a influência do Irã em relação a Gaza. O Líbano é diferente. Nesse contexto, o Irã possui influência direta por meio do Estreito de Ormuz e de sua capacidade de impor sanções caso os acordos sejam violados. Por isso, não acredito que o Irã permitirá que os Estados Unidos se comportem da mesma maneira que se comportaram após a assinatura do JCPOA em 2015.
Que efeito teve esta guerra no projeto mais amplo do que muitos chamam de Grande Israel? Um dos desenvolvimentos preocupantes foi a recente discussão entre Tucker Carlson e o embaixador dos EUA em Israel, na qual o embaixador sugeriu que, se Israel dominasse a região, isso seria aceitável. Muitas pessoas veem isso como um reflexo de um elemento não oficial, mas real, da política americana.
Mohammad Marandi: O extraordinário é que o Irã e o Iêmen estão entre os países menos diretamente ameaçados por um projeto do Grande Israel. Países como Síria, Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque, Arábia Saudita e Egito enfrentariam consequências muito mais imediatas. No Líbano, por exemplo, acredito que o governo atual foi instalado com forte apoio americano e tem trabalhado ativamente contra a resistência. As autoridades restringiram a ajuda humanitária, limitaram a circulação e tornaram a vida mais difícil para as comunidades deslocadas. A ajuda iraniana tem sido frequentemente bloqueada. A ajuda do Iraque tem sido obstruída. As fronteiras foram fechadas.
Apesar dessas pressões, o Hezbollah continuou a funcionar. Se o Grande Israel algum dia se tornar realidade, serão os estados árabes vizinhos que enfrentarão as maiores consequências. Mas não acho que esse projeto vá dar certo. Acredito que Netanyahu fracassou e esta guerra contrao Irã representa um ponto de virada importante.
O conflito entre os Estados Unidos e o Irã será lembrado como um dos eventos definidores desta era. Muitas pessoas presumiam que o Irã entraria em colapso. Em vez disso, ele sobreviveu. Mais do que isso, o Irã forçou negociações sob condições que muitos consideravam impossíveis a enas alguns meses antes. Quando estrategistas norte-americanos proeminentes e defensores de longa data da intervenção descrevem isso como uma das maiores derrotas da política externa moderna dos EUA, isso demonstra a dimensão do que aconteceu.
Não acredito que Netanyahu consiga atingir seus objetivos de longo prazo depois disso, nem que o Estado de Israel possa continuar indefinidamente em seu caminho atual. Desde 7 de outubro, as ações de Israel transformaram a opinião global. A guerra contra o Irã, combinada com a destruição em Gaza e no Líbano, intensificou a oposição internacional. Ao mesmo tempo, o conflito afetou a economia global e gerou consequências que vão muito além do Oriente Médio. Militarmente, Israel pode infligir enorme sofrimento. Pode matar um grande número de palestinos e civis libaneses. Mas, em última análise, não acredito que a força militar por si só garantirá o seu futuro. Acho que isso vai acabar mal para o regime israelense.
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