Quinta, 24 de setembro de 2026
Esquerda: As lições da vitória em Berlim
Com programa baseado no Comum – em especial no direito à Moradia – e presença constante nos bairros populares, Die Linke tem chances reais de liderar governo da capital alemã. Há apenas dois anos, partido parecia moribundo. O que mudou?
OutrasPalavras Movimentos e Rebeldias
Por Antonio Martins

Elif Eralp, filha de imigrantes turcos e possível futura prefeita de Berlim: programa radical, baseado no Comum (Sebastian Gollnow/dpa)
Por Antonio Martins
Nem tudo o que é novo, na política das Américas e da Europa, é desanimador ou deprimente. No último domingo, (19/9), o partido Die Linke — A Esquerda foi o vencedor, por ampla margem, das eleições para o governo da cidade-estado de Berlim. Obteve 25,7% dos votos, muito à frente da direita tradicional (CDU, 18,8%), da ultradireita (AfD, 16,3%), dos Verdes (14,3%) e dos sociais-liberais (SPD, 12,1%). Poderá dirigir o Executivo da capital alemã, embora isso ainda dependa, como se verá de acordos e compromissos. Revelou-se especialmente forte entre as mulheres e os mais jovens.
Alcançou este resultado após uma reorientação política que produziu efeitos muito rápidos — apenas dois anos depois de passar por uma crise profunda, que por pouco não o colocou abaixo da “cláusula de barreira” e o marginalizou da vida institucional alemã. Examinar a virada e suas causas pode dizer muito, em especial a países como o Brasil, onde qualquer resistência ao ascenso da ultradireita parece penosa e repleta de contradições.
Formado há vinte anos, tendo como tronco principal os remanescentes do Partido Socialista da Alemanha Oriental (SED), que se filiava à tradição soviética e governou o país de 1946 até a queda do Muro de Berlim, o Linke viveu fases muito distintas. Expressou, em seu início, o saudosismo oriental pós-unificação alemã — um sentimento hoje capturado pela AfD. Mais tarde, em reviravolta, adotou uma postura woke, concentrando-se em guerras culturais cujo impacto limitava-se a setores intelectualizados da classe média. A postura reduziu-o à quase insignificância. Em 2021, seu percentual de votos para o Bundestag, o parlamento alemão, reduziu-se a 4,9% (ante 11,9%, doze anos antes). Em 2023, seu número de membros havia caído para pouco mais de 50 mil (30% menos que na fundação). À época, sofreu uma dissidência. A deputada Sarah Wagenknecht, co-líder no Bundestag, afastou-se e fundou seu próprio partido, o BSW, alegando divergência com o wokismo. Num primeiro momento, o gesto alcançou popularidade notável, enquanto o Linke parecia prestes a naufragar.
A virada política pós-2024
O partido foi capaz, porém, de uma virada surpreendente – e parece ter percebido que era preciso mudar para manter relevância política. O movimento começou nas eleições de 2025. O Linke manteve-se no parlamento graças a uma arrancada de última hora, quando impulsionou uma grande frente contra a ultradireita, que se expressou em poderosas manifestações de rua. O giro aprofunda-se na sequência. O Linke não abandona bandeiras como a defesa dos imigrantes e da diversidade. A líder de sua lista de candidatos ao governo de Berlim, este ano, é Elif Eralp, uma filha de refugiados políticos turcos. Mas a agremiação denuncia, com intensidade crescente, as consequências do rentismo e da desigualdade. E propõe, como alternativa, um programa pós-capitalista de novo tipo. Claramente voltado a redistribuir a riqueza social, nas novas condições da economia do século XXI, ele enxerga um caminho para isso na defesa do Comum.
Garantia do direito à moradia, inclusive quando em confronto com a reivindicação de propriedade privada. Congelamento dos aluguéis. Elevação do salário mínimo. Rebaixamento das tarifas do transporte público. Defesa da Saúde pública, diante das medidas de “ajuste fiscal”. Redução dos gastos militares, que consomem o Estado de Bem-Estar Social. Num texto recente, o site da Fundação Rosa Luxemburgo, ligada ao partido, descreve o projeto que, aos poucos, o Linke passou a defender. Num tempo em que o capital busca mercantilizar todos os aspectos da vida, o caráter antissistêmico deste elenco de propostas torna-se claríssimo.
Por três grandes motivos, Berlim ofereceu, em setembro, uma oportunidade inédita para testar este programa. Como em outras grandes cidades europeias, o eleitorado tende claramente à esquerda, se comparado ao do conjunto do país. Anos de supremacia das lógicas de mercado degradaram as condições materiais de vida — em especial o acesso a moradia digna e acessível. Das cerca de 2 milhões de famílias, 83,5% (1,67 milhão) vive em imóveis alugados. Os preços dispararam: o metro quadrado saltou, em média, de 8,80 euros em 2015 para €15,78, em 2025. E há um grande déficit democrático a resolver. Num referendo realizado em 2021, a população aprovou por vasta maioria (59,1%) o congelamento dos alugueis e a estatização das gigantescas empresas de propriedade imobiliária da cidade. Deutsch Wohnen e Vonovia, duas corporações transnacionais, possuem, sozinhas, 220 mil apartamentos, um sinal eloquente da submissão da vida aos desígnios dos parasitas. A mídia pró-capital execrou a vontade popular e o governo berlinês, uma coalizão entre direita e centro-esquerda (CDU + SPD) não a cumpriu, alegando que a consulta não era juridicamente vinculante.
Uma campanha “ao estilo Mamdani”
Em face do cenário, o Linke optou por disputar as eleições com uma “campanha ao estilo de Zohran Mamdani”, segundo a expressão usada pelo texto da Fundação Rosa Luxemburgo. Seu programa tinha três pontos essenciais: volta dos bilhetes de transporte de 9 euros, válidos por um mês, introduzidos “promocionalmente”, por tempo limitado, em 2022; criação de cantinas populares; e — muito destacadamente – respeito ao referendo de 2021, que pode restituir o direito a moradia digna e acessível. A busca de inspiração em Mamdani ampliou-se algumas semanas antes da campanha, quando o Linke enviou uma delegação a Nova York para encontrar-se com conselheiros do prefeito. “O sucesso de um socialista democrático em Nova York, o coração do capitalismo, é uma grande conquista — e trocamos muitas ideias”, disse então a agora vitoriosa candidata Elif Eralp.
Efeito notável deste intercâmbio: o Linke recusou-se, durante toda a campanha, a entrar nas provocações da direita e ultradireita, que tentaram atrair o partido para os terrenos prediletos do conservadorismo moral. Em matéria no site espanhol Publico, Néstor Prieto Amadorrelata: CDU e AfD agiram para associar imigração a criminalidade, e para condenar o uso de linguagem inclusiva. Mantendo o que chama de “estrita disciplina comunicacional”, Prieto Amador conta que o Partido de Esquerda manteve-se concentrado nas “narrativas que unem” – em especial o direito à Moradia. Ao fazê-lo em Berlim, foi capaz de dialogar efetivamente tanto com os trabalhadores quanto com a classe média e juventude cosmopolita, também atingidas pela especulação imobiliária.
A aproximação com Mamdani e com a cultura política que ele expressa contribuiu para um segundo movimento vitorioso na campanha do Linke. Num gesto que em outros tempos talvez fosse chamado de “assistencialista” por uma velha esquerda, o partido transformou suas sedes em escritórios de apoio gratuito à população. Lá, os militantes realizavam tarefas práticas, como identificar irregularidades nos contratos de aluguel e cobranças abusivas em contas de serviços públicos privatizados. Apresentada com o mote de “Nunca sós, sempre juntos”, a iniciativa ajudou a enfrentar o desamparo — material e psíquico — a que o neoliberalismo submete as maiorias. Permitiu ao Linke expressar de modo prático sua concepção de política, que vai muito além do jogo parlamentar e das eleições.
A renovação programática e prática do partido, a partir de 2025, já havia produzido um enorme salto na militância — passando dos 50 mil, no ponto mais baixo, para 123 mil, no final do ano passado. Mas em Berlim, o foco no direito à Habitação e a busca de diálogo com a sociedade resultaram na mobilização em massa de gente (especialmente jovens) interessada em fugir da pasmaceira e dar sentido de luta à sua vida. Mais de 2 mil voluntários somaram-se a uma campanha que conversou com a população de porta em porta, ao invés de ficar relegada a atividades de baixíssima densidade, como os “bandeiraços” brasileiros. Segundo os cálculos do partido, mais de 140 mil residências foram visitadas. O resultado apareceu no dia de eleição: a vitória do Linke deveu-se, também, a um avanço sensível do comparecimento às urnas, que passou de 62,9% a 74,2%.
E o chamado à participação política resultou não apenas em vitória eleitoral, mas numa presença destacada entre os públicos com que o Linke mais conta, para mobilizações futuras. Segundo enquetes, o partido teve 43% de apoio, na faixa entre 16 e 24 anos; 49%, entre os 25 e 34; e espantosos 54%, entre as mulheres com menos de 30. Também reuniu 29% entre a população com formação educacional superior e foi o mais votado em distritos com forte presença de assalariados e imigrantes, como Neukölln (33%) ou Friedrichshain-Kreuzberg (até 47%).
A formação do governo e os novos desafios
A liderança nas urnas não garante, por si só, que o Linke governará a capital alemã, nem que conseguirá implantar seu programa de defesa radical do Comum. Sua bancada no parlamento da cidade-estado terá 43, de um total de 159 deputados. Para alcançar maioria, será preciso coligar com os Verdes (24 parlamentares) e o SPD (20). Haverá, previsivelmente, reticências. A conhecida postura belicista e alinhada à OTAN, por parte dos Verdes, é um deles. O SPD tem se incomodado por a postura clara que o Linke assumiu, nos últimos meses, de denúncia clara do genocídio praticado por Israel em Gaza. Além disso, em atitude abertamente antidemocrática, o chanceler Friedrich Merz (CDU) começou a se movimentar para aprovar, num Bundestag em que direita e ultradireita são majoritárias, medidas para evitar a expropriação (indenizada, segundo propõe o Linke) das corporações que detêm a maior parte dos imóveis da capital.
As negociações para formar os governos alemães, após as eleições, pode durar semanas ou meses. Pesam em favor do Linke, certamente, a vitória eleitoral notável, os resultados do plebiscito e a capacidade de mobilização demonstrada agora. As próximas semanas serão decisivas em Berlim. A resultado na capital alemã não significa que a onda de ultradireita no país e em toda a Europa (e também nas Américas) seja facilmente reversível. Mas sugere que há espaço real para uma esquerda disposta ao mesmo tempo a manter o enfrentamento ao capitalismo e colocá-lo em sintonia com as novas dinâmicas do século XXI.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras
Leia Também: