Segunda, 14 de setembro de 2026
O presidente que destoou do coro dos medíocres
Entrevistamos Michael Higgins. Intelectual refinado, governou a Irlanda por 14 anos. Viu de perto o genocídio em Gaza e o chamou pelo nome. Diz que segurança é garantir vida digna. E alerta: é preciso enfrentar a crise global de segurança alimentar que desponta
OutrasPalavras Crise Civilizatória
Por Thiago Gama
Publicado 14/09/2026

E se segurança não tivesse nada a ver com armas? E se uma sociedade segura fosse, antes de tudo, aquela em que ninguém passa fome, tem acesso à educação e à água, pode participar da vida coletiva e política e não precisa abandonar sua terra para sobreviver? É a partir dessa inversão que Michael D. Higgins olha para algumas das maiores crises do nosso tempo.
Ex-presidente da Irlanda, poeta, professor e histórico defensor dos direitos humanos, Higgins deixou o cargo em 2025, depois de dois mandatos presidenciais, mas não abandonou as questões que atravessaram sua vida pública: paz, justiça social, desigualdade, migração, direitos dos povos e combate à fome. Sua trajetória ajuda a entender por que, aos 85 anos, ele fala de guerras, capitalismo, o genocídio na Palestina e segurança alimentar como partes de uma mesma crise.
“Eu defino segurança como o fim da fome”, afirma. Para Higgins, o conceito de segurança foi capturado por uma lógica militar. A sua definição é outra: segurança alimentar, educação, serviços básicos, água, possibilidade de circular e direito de participar da sociedade. Na sua visão, dedicar cada vez mais recursos à guerra significa retirar recursos justamente das condições que poderiam produzir uma paz duradoura.
Sua vida política esteve ligada às questões da pobreza e da fome, e sua atuação internacional lhe deu contato direto com algumas das grandes crises humanitárias das últimas décadas. Em 2024, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lhe concedeu a Medalha Agrícola por sua contribuição à segurança alimentar global.
É também por essa lente que ele fala da Palestina. Higgins visitou Gaza e outros territórios palestinos diversas vezes, incluindo uma missão em 2005 com o ex-primeiro-ministro holandês Andreas van Agt. O que viu naquela ocasião — o cerco, a discriminação e as condições de vida da população — permaneceu como referência em sua posição sobre o conflito.
O ex-presidente não hesita em definir o que ocorre em Gaza como genocídio e que sua destruição não se limita às vidas humanas: escolas, hospitais, terras cultiváveis e outros elementos essenciais à existência de uma sociedade também estão sendo arrasados. É nesse sentido que fala de um ataque à própria memória, à cultura e à possibilidade de existência palestina.
Sua preocupação com a fome amplia ainda mais esse argumento. Higgins vê Gaza como um exemplo extremo de como a segurança alimentar pode ser transformada em instrumento de guerra, mas também alerta para uma crise alimentar global que considera iminente. A resposta, sustenta, não pode ser apenas distribuir ajuda depois que a catástrofe acontece. É preciso romper a dependência alimentar, respeitar as características de cada território, fortalecer a produção local e construir sistemas agrícolas sustentáveis, capazes de responder às mudanças climáticas e às vulnerabilidades das populações.
Essa ideia está no centro de sua proposta de uma “globalização de baixo para cima”: um modelo baseado na cooperação, na suficiência e na garantia das necessidades básicas antes da lógica do excedente e do mercado. Nesta conversa, Higgins responde a essa pergunta a partir de uma experiência política que atravessa a Irlanda, a Palestina, a África e as instituições multilaterais — e insiste que enfrentar a fome, a guerra e a desigualdade não são tarefas separadas. São partes de uma mesma escolha sobre que tipo de mundo queremos construir.
Leia a entrevista a seguir
Posso começar perguntando se o senhor já esteve no Brasil?
Sim, visitei o Brasil pela primeira vez para o Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento das Nações Unidas, ou “Cúpula da Terra”, em 1992. E depois, é claro, voltei mais tarde, quando visitei como presidente da Irlanda, e tive uma estadia maravilhosa e uma reunião muito valiosa. O presidente Lula me emprestou seu tradutor para minha visita ao Brasil quando eu era Presidente, e fiquei muito grato; ele era um tradutor maravilhoso, e fiquei tão contente de encontrar seu Presidente nas Nações Unidas antes de completar meu mandato presidencial.
Tivemos reuniões técnicas, sobre tornar mais fácil para estudantes brasileiros estudar na Irlanda. E agora, é claro, há a comunidade brasileira na Irlanda, com cerca de 60 mil brasileiros.
O presidente Lula é um grande político em nosso país, e ele enfrenta eleições este ano.
Sim, considero o presidente Lula muito importante para o meio ambiente. Se me permite dizer, acho bastante perigoso o que está acontecendo internacionalmente, e há a necessidade, por exemplo, de combinar questões de ecologia — afinal, nosso planeta está queimando — com uma economia política e socialmente justa. Precisamos de uma forma de economia que não tenha apenas um sentido comercial. E, além disso, penso que as questões de paz também importam aqui.

Encontro entre Lula e Michael Higgins, durante a Assembleia Geral da ONU, em 2024. Foto: Reprodução/Uachtarán na hÉireann
O motivo pelo qual considero as declarações do presidente muito importantes é que elas buscam lembrar uma população mundial de que não podemos ignorar o que está acontecendo em relação às mudanças climáticas. Não podemos ignorar o que está acontecendo, e o que vai acontecer ainda mais, como consequência disso, é a migração. E não podemos simplesmente nos envolver em uma guerra comercial que tornará impossível para as pessoas viverem, é uma forma de capitalismo destrutivo; e há, além disso, a concentração brutal de riqueza. Agora sou um daqueles que compartilham a visão de que, quando se tomam essas três dimensões juntas, de ecologia, justiça e a necessidade de segurança, estamos realmente lidando com as consequências de um capitalismo catastrófico.
Isso pode ser visto com muita clareza em relação ao que está acontecendo na Europa, porque a direita está, de fato, avançando, mas ela não pode ser enfrentada por aqueles do centro e da esquerda que simplesmente ajustam suas posições aos argumentos apresentados pela direita. Acho que ela precisa ser confrontada, e precisa ser confrontada em seus fundamentos.
Para aqueles de nós que têm opiniões como as minhas, acredito que temos a responsabilidade de defender a ética, o direito internacional e também o apoio às instituições. O que está acontecendo agora, neste momento, é realmente um ataque à própria democracia, e isso se reflete claramente nas enormes fortunas pessoais que as pessoas estão acumulando sem qualquer responsabilidade ou regulamentação. Ao mesmo tempo em que isso acontece, passei a maior parte da minha vida na política pública, e ela teria começado com questões relacionadas à pobreza global. Discuti internacionalmente questões de fome, e então surgem novas questões em relação ao que considero que será o maior desastre nos próximos seis a 12 meses, que é uma nova escassez global de alimentos. Tenho uma opinião sobre isso. Não se trata apenas de precisarmos responder ao sofrimento humanitário, que já existe, mas também de romper a dependência alimentar. Ou seja, nos países da África — e eu estava falando sobre essas questões no Senegal —, o que é preciso fazer é tentar respeitar a terra, respeitar a natureza e ter uma forma de produção de alimentos que seja o mais próxima possível daquilo que as pessoas conhecem e compreendem territorialmente.
A Argentina decidiu julgar uma ditadura; o Brasil decidiu um perdão. É possível uma memória moral quando falta justiça?
Vou tentar ser breve sobre isso. A ideia de que podemos deixar de lado tanto a realidade quanto o legado do imperialismo e da ditadura é simplesmente muito perigosa. Temos de encarar o que aconteceu no passado, e temos de enfrentar os abusos e as violações dos direitos humanos que ocorreram, onde quer que tenham acontecido.
No meu próprio caso, não preciso me deter nisso, mas apenas dizer que minha família esteve envolvida na guerra de independência da Irlanda. Quando veio a guerra civil, isto é, quando se discutia se deveríamos ou não aceitar um acordo com a Grã-Bretanha, meu pai considerava que não deveríamos aceitá-lo, enquanto meus tios consideravam que deveríamos. Preciso dizer que, em nossa família e em outros lugares, pagamos um preço muito alto por uma guerra civil que poderia ter sido evitada se, de fato, nossos vizinhos, o Império Britânico, tivessem aceitado nossa reivindicação pela independência e reconhecido que o povo irlandês buscava a independência e queria seguir por esse caminho.
Houve várias oportunidades de fazer isso por meio da paz; afinal, a grande maioria das pessoas havia votado a favor da independência. Mas o Império Britânico, naquele momento específico, estava sob pressão, e a ideia de ceder à demanda irlandesa era vista como uma concessão muito próxima do coração do império. Então foi uma tragédia e, é claro, acredito que tivemos de nos reconstruir depois disso, e também houve uma enorme emigração da Irlanda.
O que eu tinha em mente é que essa é uma das dificuldades de que me lembro do período em que fui presidente da Irlanda por dois mandatos. Eu lidava com pessoas que tinham diferentes tipos de experiência, e comecei dizendo que, enquanto fosse presidente, daria a diferentes acadêmicos, com diferentes interpretações sobre o que havia acontecido cem anos antes, a oportunidade de apresentar opiniões diferentes. Ao longo de seis sessões, registramos isso, e disponibilizei todas as contribuições ao sistema escolar.
No Trinity College, o senhor disse que tinha apenas um arrependimento: não ter sido crítico ao capitalismo.
O que tenho em mente, e o que quis dizer com aquela frase que usei, é que existe uma tendência de presumir que há apenas uma única versão da economia. O que acontece então é que certas coisas são tomadas como dadas, embora não estejam necessariamente atendendo a questões de justiça, suficiência ou mesmo à própria paz.
Nesse caso, o que tenho testemunhado, especialmente quando pensamos, por exemplo, nas pessoas que exercem um controle não regulamentado sobre as novas tecnologias, é que isso é apresentado como uma espécie de efeito natural: teríamos bilionários e trilionários capazes de adquirir o máximo de influência possível sem a menor concessão à regulamentação. Era isso que eu tinha em mente. Eu disse que via uma espécie de aquisição insaciável, baseada na ganância, em vez da cooperação que está sendo proposta.
Grande parte da minha vida mais recente tem sido dedicada à segurança alimentar. Foi por isso que recebi um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a Medalha Agricola. Basicamente, para mim — e é um ponto interessante que, de fato, compartilho com vários porta-vozes do Vaticano —, certamente deveríamos começar definindo “segurança” como segurança alimentar, segurança em relação à educação e aos serviços básicos universais. Podemos divergir quanto às táticas precisas para implementar isso, mas ou você está do lado da cooperação, ou está do lado da ganância individualista e sem prestação de contas. É aí que estávamos, e foi isso que eu disse: aos 85 anos, acho que todos deveríamos ter falado de maneira mais direta.
Acho que há um grande mérito no que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse — que questões como a fome e a pobreza globais precisam ser enfrentadas. Acho isso muito valioso, assim como considero muito importante o enfrentamento que ele faz a Casa Branca neste momento, e apoio muito o presidente Lula nisso. É uma das razões pelas quais disse a outras pessoas que precisamos de sua presença por tantas razões, e desejo-lhe muito sucesso.
No Trinity College, o senhor disse que um genocídio elimina um povo, uma cultura, uma memória. Se uma civilização é memória, ela seria um alvo militar?
O que eu tinha em mente era o seguinte. Estive no Oriente Médio várias vezes, inclusive com Andreas van Agt, ex-primeiro-ministro dos Países Baixos. Em 2005, visitei Gaza com Andreas, que faleceu desde então, e produzimos um relatório sobre a experiência do povo palestino vivendo sob condições de cerco, sendo tratados de maneira diferente, de forma discriminatória.
O que estamos enfrentando agora envolve pessoas, incluindo crianças e mulheres, e mais de 74 mil pessoas mortas. Acredito que as ações originais do Hamas em 7 de outubro foram condenadas por todos nós, mas a resposta está completamente fora de proporção, e está fora também no sentido de que opera segundo um princípio de culpa coletiva contra os palestinos.
O que estamos lidando agora é, de fato, um governo israelense reconhecidamente extremista que acusa qualquer pessoa que critique suas ações de antissemitismo, inclusive aqueles de nós que há muito tempo somos defensores dos direitos dos judeus. Portanto, é importante reconhecer que alimentos e a fome estão sendo usados como armas de destruição.
Essa foi a minha expressão, aquela que usei no Trinity. Eu estava muito consciente do impacto sobre as pessoas que continuam enterradas sob os escombros de Gaza, e sobre a terra, e sobre a grande proporção dela que jamais poderá ser utilizada novamente para a produção de alimentos ou para a vida. Estive na região muitas vezes, mas uma das coisas que sempre me impressionou foi a importância das pequenas padarias. As pessoas estavam sempre fazendo pão.
E é interessante observar o que foi destruído. Por que disse o que disse no Trinity? Porque tudo isso — padarias, escolas, hospitais — e então isso se estendeu ao sul do Líbano, onde antes havia quatro hospitais, três dos quais foram bombardeados, e o quarto está tentando receber pessoas em condições de desespero. Não tive a menor hesitação em dizer que o que está acontecendo em Gaza é, de fato, um genocídio.
Passei minha vida falando sobre direitos, defendendo o apoio ao direito internacional e também apoiando os esforços, muitas vezes em momentos muito difíceis, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e das agências das Nações Unidas. Mas o que está acontecendo é uma ameaça às Nações Unidas. A organização está sendo enfraquecida de todas as maneiras possíveis.
E penso no chamado Conselho da Paz, que inclui membros como Tony Blair, que tem um histórico escandaloso em relação ao Oriente Médio e é lembrado pela guerra do Iraque, desonesta, vergonhosa e ilegal. Está claro que o ministro da Defesa e o atual governo de Israel, o ministro responsável, estão realmente usando todo o poder que têm para eliminar o próprio conceito de Palestina e de palestinos. É por isso que agora estão sugerindo toda uma série de novos assentamentos nos territórios ocupados e novos centros ao redor de vilarejos e casas, intimidando os palestinos que estão ali. E, ao mesmo tempo, o exército israelense observa e não intervém para proteger esses agricultores e pastores dos colonos sionistas.
Acho que essa é uma das minhas maiores decepções. Sei que o governo irlandês, o governo espanhol e alguns outros governos classificam o que está acontecendo como ilegal, uma violação do direito internacional. Mas há tantos membros da União Europeia que podem ouvir e sabem de todas as coisas que estão acontecendo no local, de como crianças estão sendo mortas. E é horrível pensar que eles podem saber de tudo isso e, ao mesmo tempo, deixar de exercer qualquer pressão sobre o governo israelense para mudar suas táticas para, ao menos, estabelecer um cessar-fogo e realizar negociações. A posição desse governo extremista que está no poder em Israel é que não deve haver, em nenhum momento, um Estado palestino separado.
Eu poderia resumir o que minha vida lidando com essa questão me ensinou. Desde o início, a palavra Palestina não é utilizada. E a Palestina não era um espaço vazio. Era ocupada por palestinos. E isso faz parte do terrível legado, desde o princípio, de que não seria possível ter um Estado conjunto que incluísse pessoas de diferentes religiões e crenças, fosse a fé judaica, fosse o islamismo, ou qualquer outra.
O objetivo agora do atual governo israelense extremista é eliminar tudo o que carregue a imagem, a história, o patrimônio e os direitos dos palestinos. E acredito que isso inclui a memória. É por isso que todo a memória está sendo apagada.
E a ligação com a Irlanda, de certa maneira, baseia-se no fato de que o público irlandês está entre os mais bem informados do mundo sobre essas questões, porque, desde 1958, enviamos forças de paz, que consideraram muito fácil lidar com as pessoas com quem conviviam nas aldeias. Eu mesmo visitei essas aldeias. Sua própria existência no sul do Líbano, onde não foram reduzidas a escombros, é agora uma forma de aprisionamento.
Portanto, vejo isso como um dos grandes fracassos, um fracasso da espécie, de estarmos permitindo que essas coisas aconteçam sem nenhuma reação.
Penso no momento em que estamos vivendo. Eu estava na Somália durante a época da fome. Disse que continuo meu trabalho na tentativa de encontrar um modelo de segurança alimentar que seja, de fato, adequado às circunstâncias locais. O que estamos vendo agora é um enorme corte na ajuda humanitária, uma perigosa hegemonia do militarismo no discurso global.
E, ao mesmo tempo, os acionistas e os proprietários daqueles que são responsáveis pela produção de armamentos estão obtendo ganhos. Eles estão registrando em seus relatórios anuais um nível extraordinário de lucros. E, para aqueles de nós que também acreditavam que a União Europeia surgiu como uma estrutura que eliminaria a guerra e estabeleceria uma cooperação pacífica entre os países que a integram e todos aqueles que estão fora dela, tudo mudou agora, de muitas maneiras. Por exemplo, a economia alemã está sendo reativada por meio da produção de armamentos.
Lembro de ter feito campanha em relação às munições cluster, fazendo campanha contra todos esses diferentes armamentos. Desde o primeiro dia da Irlanda nas Nações Unidas, a posição foi pela redução, por assim dizer, de um mundo armado.
Estamos agora em uma situação em que, efetivamente, os recursos do mundo estão sendo usados quase exclusivamente para aquilo que é chamado de segurança, definida como a posse de armas cada vez mais letais. Eu defino segurança como o fim da fome; o direito de participar de sua sociedade; o direito de se locomover; o direito de inclusão na educação.
E acho o que é necessário agora é uma espécie de globalização de baixo para cima, construída sobre um conjunto de políticas que possa reconhecer o valor da cooperação e reconhecer o valor, por exemplo, de proporcionar segurança em relação à subsistência básica necessária em termos de alimentos e água. Tudo isso está ameaçado se a maioria dos saberes, da capacidade e do investimento humanos for destinada à criação de uma guerra interminável e permanente.
Em uma cerimônia nacional de comemoração, o senhor comparou a fome em Gaza à fome na Irlanda. Uma memória nacional pode se tornar um instrumento universal?
Acho que, antes de tudo, é importante usar a história de maneira ética, explicando o contexto e os antecedentes da fome e da inanição. Penso no trabalho de Alex de Waal, e há tantos outros que escrevem sobre isso. Acredito que seja possível antecipar grandes crises alimentares, estar preparado e reduzir a perda de vidas e meios de subsistência.
É por isso que digo que sinto que, neste momento, estamos enfrentando, nos próximos seis meses a um ano, o que pode ser o maior desafio em relação à disponibilidade de alimentos. Isso já está refletido nestes meses e ilustrado pelo que está acontecendo com a transformação dos alimentos em commodities, nos índices internacionais. As pessoas estão comprando volumes enormes em preparação. Mas, dentro de um ano, você perceberá isso no local e nas prateleiras das lojas.
Acho que, no que diz respeito à Irlanda, entre 1845 e 1847 tivemos uma fome que poderia ter sido evitada. Ao mesmo tempo em que havia excedentes de alimentos na Irlanda, eles eram exportados, enquanto as pessoas eram deixadas para morrer. Perdemos cerca de dois milhões de pessoas. Perdemos um número enorme. Em 1901, acredito, a maioria das pessoas que haviam nascido na Irlanda estava vivendo no exterior.
Foi algo que poderia ter sido evitado e que constitui uma lição para todos nós que observamos o presente. O que aconteceu foi que as pessoas se tornaram objetos de uma política econômica que dizia que não se deveria interferir nos mecanismos do mercado. Não acho que alguém discorde disso agora.
Também estou muito consciente de que a fome irlandesa foi seguida, no século que veio depois, por exemplo, pela fome na Índia, e hoje ela atinge tantos lugares diferentes. Acho que o que o Sudão e o Sudão do Sul estão vivenciando neste momento é horrível.
De certa maneira, acho que o que aconteceu foi que a concepção de desenvolvimento baseada no capitalismo não abriu espaço para a conexão entre economia e justiça social. É muito difícil oferecer novas ideias. Quando eu era jovem, estava na casa dos vinte anos, fui aos Estados Unidos para fazer pós-graduação. Foi por volta da época em que Orlando Fals Borda também estava lá. Lembro-me muito claramente de que havia seis estudos publicados pela Universidade de Princeton, em volumes separados. O interessante é que esses seis livros foram os que definiram o desenvolvimento. Eles o definiram de uma maneira evolucionista, contrapondo umas concepção vista como moderna a estruturas camponesas vistas como atrasadas.
Era uma maneira muito, muito baseada em uma visão semievolucionista de que havia países atrasados e países se modernizando; e países plenamente desenvolvidos como os Estados Unidos. Pessoas como eu eram convidadas a estudar o atraso de nosso próprio povo e o que estava impedindo sua chegada à modernidade, ao desenvolvimento. Começou com um contraste entre países industriais e agrícolas e, depois, continuou com a posição dos diferentes países ao longo do espectro que os levava do atraso ao pleno desenvolvimento. E estamos pagando um preço pelo modelo colonizador etnocêntrico.
No século XVII, um famoso filósofo, Francis Bacon, poderia dizer: “Conduzo você à natureza e seus filhos em servidão, para seu uso, para arrancar seus segredos”. A ideia era que essa industrialização da estrutura capitalista era inevitável, era o único modelo para o mundo. E, quando surgiram desafios posteriores, foi um dos grandes fracassos da humanidade não ter criticado adequadamente esse desenvolvimento; e também ter fracassado diplomaticamente em chegar a um entendimento entre aquilo que poderia ser alcançado coletivamente pelos sistemas estatais e aquilo que pode ser alcançado pelo que pode ser transacionado. Acho que existem certas necessidades básicas da vida que, é claro, jamais deveriam ser deixadas ao mercado.
Acho que, se quisermos avançar na eliminação dos conflitos, na prevenção das guerras, isso pode ser feito. E acho que isso não é simplesmente um pensamento utópico. Pode ser feito aprofundando a democracia e um senso ético compartilhado e diverso.
E o maior desafio que enfrentamos agora é não ter tecnologias desenvolvidas para a guerra e, depois da guerra, também para a sociedade civil, de uma maneira que não leve em conta a diversidade dos povos. E, na realidade, esse foi um dos grandes debates de mais de 150 anos, que é o seguinte: quem deve controlar a tecnologia, quem deve fazer com que ela responda às necessidades e vulnerabilidades compartilhadas. Isso não significa reduzi-la ao controle total por um sistema estatal. Significa dizer que a inovação tecnológica deve vir acompanhada de um compromisso ético com as consequências de sua implementação em condições de diversidade.
Muitos de nossos leitores no Brasil são uma nova geração: os primeiros de suas famílias a chegar a uma universidade, e muitos deles estarão em situação precária.
Qual é sua mensagem para esses jovens?
Bem, acho que, antes de tudo, é defender o direito de desenvolver sua consciência crítica. Acho que a economia não deveria ser — e dei um exemplo de uma economia apresentada dentro de um único modelo —, e é muito, muito importante considerar as diferentes abordagens para fundir, para reunir questões econômicas, culturais e de justiça. Há excelentes economistas sociais disponíveis para estudo e orientação. Sei que vocês já entrevistaram Thomas Piketty e pessoas assim. Mas há muitas novas maneiras. É preciso ter, de fato, uma diversidade de fontes para suas ideias e seu ensino, e é preciso exigir isso.
Acho que o outro lado disso, quando penso nos jovens, é que, em última instância, o individualismo extremo tem produzido formas de violência, não apenas no sentido físico, mas também no sentido moral, em tantas áreas de nossa vida. Bem, venho falando sobre como é necessário agora defender uma vida ética. E isso significa, penso eu, voltar às bases. Acho que realmente significa o que quis dizer com globalização de baixo para cima. Devemos desenvolver um modelo que comece pela suficiência, de modo que, por exemplo, depois de atendidas as necessidades básicas, quaisquer transações relativas ao que é externo sejam feitas com o excedente.
E deveríamos ser capazes de fazer isso: enfrentar a pobreza global, enfrentar a fome global, enfrentar as incríveis dificuldades associadas à migração. Acho que também devemos lembrar os seis estudos de Princeton que mencionei, que falavam de um modelo único e inevitável de desenvolvimento. Devo dizer também que, à sua maneira, esse modelo ainda prevalece em grande parte, e isso torna tudo muito mais difícil. É preciso encontrar um espaço no discurso para as alternativas.
E os jovens deveriam simplesmente perguntar, de muitas maneiras: como vocês querem empregar sua energia, sua inteligência, sua vida, sua paixão? Acho que isso pode ser feito da melhor maneira dentro de um modelo cooperativo, que seja sensível e respeitoso à natureza e que também seja continuamente curioso.
Eu disse que estudei e lecionei nos Estados Unidos. Como é diferente agora, quando tantas universidades nos Estados Unidos estão tendo de dar uma garantia de que não promoverão noções de diversidade, inclusão ou justiça e de que, se não removerem essas noções de seus estatutos, perderão o financiamento federal. Acho isso uma colonização ultrajante e preconceituosa. E precisamos garantir que essa deferência à tecnologia, se não for implementada em um modelo que respeite a democracia, seja simplesmente ultrajante e uma ferramenta extremamente perversa de colonização.
O que o Papa Francisco representou para a América Latina e para o nosso tempo?
Encontrei-me cinco vezes com o papa Francisco e também me encontrei com seu sucessor, o papa Leão. Mas uma das coisas em que Francisco foi tão bom foi em relação ao Mediterrâneo, que havia sido transformado em uma grande sepultura; e em relação à importância do que vimos nos migrantes que chegam correndo grandes riscos, muitas vezes para escapar de danos ou da fome. São muitos, muitos deles. Precisamos ser capazes de reconhecer sua vulnerabilidade, assim como sua capacidade.
Veja, por exemplo, o modelo da Europa em relação à migração. Não é que você deva simplesmente ter de justificar-se como alguém que será útil no futuro, que tem dinheiro, que não será um peso. Isso está muito, muito distante daquilo que Francisco defendia, que era que devemos enxergar a luz e ver a humanidade em cada outro ser humano como nós mesmos.
E, além disso, fazendo justiça ao que ele e seu sucessor disseram, existe nossa responsabilidade para com as futuras gerações no sentido de não tornarmos o planeta inabitável.
Eu diria que Francisco também foi algo mais. Ele havia vivido a experiência do abuso militar na América do Sul e, penso eu, havia se tornado uma pessoa diferente depois dos dois anos que passou longe da capital, Buenos Aires.
Também acho muito importante reconhecermos como as coisas podem mudar. Vou dar um exemplo. Nos anos 1980, eu estava em El Salvador lidando, por exemplo, com pessoas que estavam preocupadas que os fatos sobre o massacre de El Mozote fossem revelados e discutidos. E fiz isso, mas depois me pediram para deixar o país. E, posteriormente, voltei como presidente. Fiquei encantado ao ver que o governo daquela época havia reconhecido o massacre de El Mozote, que havia sido considerado um crime contra a humanidade pela Corte Interamericana. E eu estava recebendo uma série de homenagens e coisas assim.
Mas não posso dizer como me sinto agora. Se você julgasse povos e países pela maneira como tratam as pessoas na prisão, o que está acontecendo nas prisões de El Salvador é uma vergonha para o mundo: a humilhação das pessoas, além de submetê-las a condições inacreditáveis. E a ideia de que isso esteja sendo considerado um modelo, especialmente pelo presidente da Argentina, é absolutamente perigosa.
Mas isso mostra que você pode vencer por algum tempo, quando pensa que a mudança está seguindo na direção certa. Você também pode ver como tudo pode desmoronar rapidamente. E é por isso que as pessoas precisam realmente resistir a toda manifestação de autoritarismo e a todo ataque à democracia.
E é por isso que é tão importante para todos nós, no mundo, que, quando pessoas, pessoas corajosas, têm a coragem de falar sobre igualdade, uma economia justa, inclusão e mudança, elas sejam apoiadas. E essa é uma das razões pelas quais vejo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como tendo sido extremamente importante, por exemplo, até mesmo para salvar, penso eu, a própria humanidade em sua causa fundamental. No fim, tudo o que temos é o que está em nosso coração, o que está em nossa mente e aquilo sobre o que podemos falar.
E acredito muito que aqueles que estão falando pela extensão e pelo aprofundamento da democracia, onde quer que estejam, em qualquer parte da América do Sul, merecem nosso apoio.
E, de fato, permitam-me desejar a todo o seu povo um bom governo, e desejar-lhes suficiência e paz acima de tudo: paz em suas vidas e paz em suas relações com os outros. Há alegria e realização ilimitadas na cooperação. Vamos alcançar isso para todo o nosso povo e para o nosso planeta.
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