quarta-feira, 24 de junho de 2026

Como são os microcosmos do pós-capitalismo

Quarta, 24 de junho de 2026

Como são os microcosmos do pós-capitalismo

Um número crescente de agrupamentos humanos opta por se afastar das relações regidas pela competição, individualismo e predação da natureza. Criam o novo ou escapam do combate real? O primeiro passo, para avaliar, é conhecê-los

OUTRASPALAVRAS                                  Pós-Capitalismo
Publicado 24/06/2026

                       Imagem: Hugo McCloud

Título original:
Como vivem as comunidades do novo mundo?

MAIS:
Débora Nunes e Emerson Salles viajam, há duas décadas, para conhecer comunidades alternativas ao que chamam de “sociedade do colapso”. Visitaram ecovilas contemporâneas, mas também tribos indígenas, acampamentos do MST, fazendas regenerativas. Agora, resolveram contar o que viram, e compartilhar reflexões. Este é seu terceiro relato. Outras Palavras publica a série, intitulada Viagens ao Novo Mundo. Os dois primeiros textos podem ser encontrados aqui [1 2].

Visitamos dezenas de ecovilas e comunidades ancestrais nos cinco continentes registradas em pequenos vídeos de cada lugar que você pode acompanhar aqui. Como já foi evidenciado em outros textos desta série, seus modos de vida se diferenciam profundamente do velho mundo individualista, competitivo e destruidor da Natureza. O papel destas comunidades na construção do que chamo de “novo mundo” me parece evidente, pois elas materializam uma alternativa pós-capitalista por meio de infraestruturas compartilhadas, economia solidária, cultura comunitária e tecnologias sociais de convivência. Este texto destaca exemplos que evidenciam esta tese, mostrando as vantagens e perrengues de viver em comunidade, seus processos de formação e técnicas para manter vivo o coletivo. Falar de novo mundo aqui não é uma afirmação de princípio: é uma constatação experimental.

Depois do passeio descritivo geral dos ecolugares feito no texto 1 e da discussão sobre os fundamentos da regeneração da Natureza que praticam no texto 2, este terceiro texto trata da materialização do sentido de comunidade. Esta se dá nos espaços de vida e infraestruturas coletivas, que serão descritos a seguir, e nos espaços de governança, que será objeto do próximo artigo. Vamos começar pelo básico e convido vocês a imaginarem a vida em um lugar no qual suas refeições fossem deliciosas, orgânicas e com insumos locais recém-colhidos. E se, além disto, elas custassem pouco pelas compras coletivas e produção local? E se você dividisse o trabalho de prepará-las com muitas outras pessoas? E se lavar os pratos e organizar a cozinha fosse feito com a ajuda da comunidade? Assim acontece nas ecovilas, onde as cozinhas e os refeitórios coletivos são parte do cotidiano.
Alimentação

Os espaços onde as pessoas fazem suas refeições são também alegres lugares de convívio com aquelas e aqueles que têm visão de mundo, interesses e afetos similares. Ali se vivenciam as escolhas feitas pela comunidade: comida sem veneno, vegetarianismo ou veganismo, economia solidária, trabalho compartilhado. São espaços amplos, simples, alegres e confortáveis, onde a gente se sente em casa. Muitas vezes nem há pagamento no acesso ao refeitório: são empregados modos criativos de compartilhamento do custo das refeições — pagamentos mensais, tíquetes comprados com antecedência, deduções feitas na renda devida pela comunidade aos moradores. Nas ecovilas menores, pode acontecer que apenas se juntem as panelas de cada família para compartilhar a refeição.

Os equipamentos comunitários de alimentação geralmente são opcionais. A experiência das ecovilas mostra que ter a opção de estar só quando se quer estar só, comer coisas específicas quando se tem vontade ou se está em dieta restritiva, é também muito importante. Aqui aparece uma diferença entre as comunidades contemporâneas e as comunidades ancestrais: a força da ideia do indivíduo com necessidades próprias. Nas comunidades originárias que conheci, essa separação entre necessidades individuais e vida coletiva é menos marcada, pois o coletivo tende a ocupar um lugar central na organização da existência. Assim, nas ecovilas, além das refeições em comunidade, preserva-se a opção de comer em casa, sozinho ou com a família. As residências, portanto, também têm suas cozinhas, para que estar em coletivo possa sempre ser uma escolha, já que às vezes até seu humor não lhe permite partilhar o alimento com outras pessoas. E tudo bem.

O preparo das refeições, geralmente feito com insumos comprados coletivamente e itens autoproduzidos, costuma se organizar por rodízios de trabalho e escalas preestabelecidas. Assim, cada pessoa contribui em determinados dias e fica livre nos demais. Em ecovilas maiores e mais estruturadas são contratadas profissionais para a elaboração das refeições, mas a lavagem dos pratos e organização e limpeza dos espaços geralmente conta com o apoio do coletivo. O resultado deste arranjo é uma espécie de socialismo local autogerido que produz refeições frescas e orgânicas com preços baixos para todo mundo. Isto é uma grande vantagem cotidiana. Acordos podem ser feitos com pessoas que não têm como participar da escala de trabalho por terem filhos pequenos ou por trabalharem fora da ecovila e chegarem cansadas. Elas podem pagar em dinheiro, como compensação, ou prestar outros tipos de serviço.

Habitação

Há três tipos clássicos de residência nas ecovilas. O primeiro são as casas unifamiliares ou individuais, sonho padrão do velho mundo que pode permanecer neste novo — por que não? O segundo são as residências coletivas, onde pessoas escolhem viver juntas e partilhar salas, cozinhas, jardins e quintais, mantendo geralmente a privacidade do quarto individual. O terceiro são os imóveis compartilhados, seja quando o coletivo compra um imóvel de grande porte e o subdivide, seja quando constrói um edifício com muitas unidades unifamiliares.

As ecovilas visitadas mostram, de modo geral, esta variedade de tipos de moradia. Observa-se, como nas comunidades ancestrais, pouca diferença de padrão construtivo nos espaços pessoais, revelando uma maior igualdade nas condições de renda entre os participantes. É preciso destacar, entretanto, que existem desigualdades socioeconômicas que podem se evidenciar nos padrões habitacionais, particularmente nas comunidades mais antigas, onde fenômenos de concentração de renda vão se manifestando com os processos de herança, por exemplo, ou com a diferença de poder aquisitivo entre gerações mais velhas, que acumularam mais, e gerações mais jovens. Mas nada que se compare às desigualdades flagrantes do velho mundo, mesmo quando se trata, como vi na Europa, de velhos castelos comprados coletivamente, reformados e subdivididos, numa criativa subversão dos privilégios aristocráticos.

As habitações, de modo geral, optam por soluções de bioconstrução e por tecnologias ecológicas, refletindo o compromisso com a regeneração. Pela existência de espaços coletivos, como as cozinhas comunitárias ou espaços de trabalho e lazer compartilhados, as residências podem ser menores. A presença de quintais e jardins, sejam unifamiliares ou coletivos, é onipresente, refletindo a escolha de viver próximo à Natureza. A planta da residência e a decoração, muitíssimo variadas, têm em comum a evidenciação da alma de quem ali mora, já que neste tipo de comunidade não é comum haver modas arquitetônicas a serem seguidas ou padrões decorativos em voga. A autenticidade é parte da cultura deste novo mundo. Tendo origem profissional na arquitetura, deliciei-me muitas vezes ao entrar nas casas dos habitantes das ecovilas, por encontrar ali o sentimento de estar em um “ninho”, original, simples, tendo como grande luxo o luxo de ser autêntico.

Em poucos casos a comunidade provê o espaço das residências, servindo mais como instância articuladora de esforços individuais para baratear custos e prover manutenção compartilhada. Construir residências é muito caro e individualizar esta responsabilidade é uma forma de não sobrecarregar a comunidade com esta demanda, mas conheci fundos coletivos para apoiar a construção. Devido à existência de rotatividade nas ecovilas, antigos moradores costumam alugar espaços para novos integrantes ou voluntários dos projetos quando se ausentam ou deixam a ecovila. Não é incomum também que haja espaços comunitários exclusivos para moradia destes voluntários e voluntárias, que trabalham geralmente quatro horas e contribuem financeiramente para a ecovila em troca do aprendizado, alimentação e hospedagem.

Infraestruturas coletivas

Estas infraestruturas são outro ponto de destaque no sentido de comunidade que se constrói nos ecolugares. Geralmente combinam instalações alternativas e ecológicas, co-construídas, com o uso de infraestruturas oferecidas pelos municípios onde estão localizadas. Como a maioria das ecovilas é rural, o mais comum é que provejam sua própria água, vias, energias e muitos equipamentos comunitários. Deste modo, podem contar, para consumo residencial ou dos equipamentos coletivos, com água de nascentes sem química, água pura de chuva coletada nas residências e reservatórios comunitários que permitem enfrentar os períodos de seca. Em muitos casos, porém, existe apenas a conexão à rede normal de abastecimento da região.

As vias são de modo geral ecológicas, de terra ou solo-cimento, ou de blocos intertravados, com a presença de asfalto apenas em ecovilas maiores e de forma rara. Combinadas com as trilhas a pé entre as residências, a imagem de uma ecovila é geralmente mais próxima a de uma comunidade rural autônoma, embora existam ecovilas urbanas, que não são comuns. A mobilidade é feita a pé ou de bicicleta (individual ou coletiva), e existem também carros e motos comprados coletivamente, além de veículos individuais. Nas ecovilas maiores podem existir pequenas vans comunitárias que percorrem vias internas ou fazem deslocamentos às cidades no entorno para compras, estudo ou trabalho. Para o abastecimento de energia vê-se frequentemente instalações coletivas de base solar, eólica, miniusinas hidráulicas, uso da geotermia, combinados com os sistemas oferecidos localmente ou completamente “off grid”, fora da rede elétrica.

Os sistemas de tratamento de resíduos se destacam, já que a compostagem, a coleta seletiva, o tratamento alternativo de águas usadas e a reciclagem de resíduos são muito presentes. Há grande experimentação nesta área e um compromisso particular das e dos moradores com o tema, caro à proposta regenerativa das ecovilas e à sua opção pela responsabilização individual e coletiva com os temas do cotidiano. Os círculos de bananeiras e as bacias de evapotranspiração (BET) são duas das técnicas amplamente usadas para tratamento do esgoto doméstico. Ambas se baseiam no princípio da biodigestão dos resíduos usando plantas de folhas largas, que consomem a água do esgoto e transpiram fartamente, funcionando como uma máquina biológica de reuso e purificação da água. A diferença entre as duas técnicas, que geralmente usam bananeiras, é que o círculo de bananeiras é aberto e a BET é fechada, como um tanque isolado do solo. O sistema é o mesmo: alinhar, de baixo para cima, camadas de pedras — e pneus usados, nas BETs —, britas e areia para filtragem progressiva dos resíduos. Ao final, tudo é coberto com solo, no qual se colocam as plantas biodigestoras.
Serviços e equipamentos comunitários

Essas estruturas estão muito presentes nas ecovilas. Creches e pré-escolas, por exemplo, costumam estar entre os primeiros espaços organizados, pois permitem a permanência de famílias com crianças. Costumam ser extremamente criativas, oferecendo uma formação que acompanha a ética da comunidade, estimulando a curiosidade das crianças, apoiando suas expressões artísticas, promovendo a não violência, a cooperação, o aprendizado por projeto… Em muitas ecovilas, tive nestes espaços, às vezes modestos, mas sempre bonitos, o sentimento de ver um jardim do futuro. As crianças das ecovilas são particularmente seguras de si, espontâneas, cooperativas, expressando esta cultura que seus pais e suas comunidades querem construir e que é transmitida em casa e na escola.

Os serviços de saúde são também organizados bem no início da ecovila. Não uma saúde que resolva todos os problemas, mas sobretudo espaços de prevenção e curas alternativas, que se combinam com serviços oferecidos nas proximidades, da saúde pública ou privada do local. A visão integrativa, holística, da saúde, e a auto responsabilização, abordada no texto 2, se refletem nas práticas de autocuidado, que, juntamente com a alimentação, fomentam a saúde das populações locais. Há uma grande variedade de propostas terapêuticas e um real engajamento da maioria dos moradores em cuidar da própria saúde. As terapias e os espaços de cura oferecidas nas comunidades podem ser também fonte expressiva de renda para as ecovilas, quando oferecidas ao público externo.

Espaços de trabalho compartilhado

A dinâmica de trabalho cooperativo é outra particularidade dos ecolugares e os espaços em que é exercida variam seguindo a vocação econômica da comunidade. Uma das atividades mais comuns é a oferta de cursos nas áreas de sua especialidade: permacultura, bioconstrução, governança participativa, agroecologia, retiros e eventos afins com as temáticas da ecovila, terapias diversas, como yoga, meditação, tai chi, reiki e tantas outras. Para a realização destes cursos e de eventos ocasionais, é necessário oferecer hospedagem e alimentação, que geram estruturas próprias ou ampliam as existentes, como os restaurantes comunitários. As pessoas que circulam nas ecovilas acabam comprando itens de lembrança, e assim uma economia se faz em torno disto: há artesanato diverso, pequena agroindústria, produção de medicamentos e cosméticos, camisetas, sacolas retornáveis, roupas. Esta diversidade produtiva leva o símbolo da experiência, a logomarca da comunidade que as pessoas gostam de carregar na mala, mas que também é consumida pelos moradores e moradoras, que têm orgulho de usá-la no dia a dia.

São muito comuns os espaços coletivos de produção com ferramentas, equipamentos e insumos de propriedade comunitária. A produção de alimentos in natura e naturalmente processados existe em praticamente todas as ecovilas, mesmo em pequena escala. Há muita produção de bens para autoconsumo muitas vezes a partir da reciclagem, assim como a recuperação e a troca de objetos usados, revelando a opção pelo baixo consumo. Com esta produção coletiva local as comunidades buscam ser o mais autônomas possível, baratear custos e manter a sobriedade feliz, ou seja, o baixo consumo com conforto. Há marcenarias para fabricação e conserto de móveis, carpintarias, oficinas de veículos (sobretudo bicicletas), pequena metalurgia etc. A opção de gerar renda, seja ela individual, em cooperativas ou em organizações econômicas que envolvem toda a comunidade é um imperativo para que as ecovilas se sustentem e há muita criatividade e inovação neste tema.

As ecovilas também podem reunir outros espaços coletivos, com tamanhos e formas de funcionamento variados, que facilitam a vida cotidiana: lavanderias, armazéns de compras coletivas, bicicletários, bibliotecas, áreas de troca e doação de objetos usados, ateliês artísticos, quadras esportivas, palcos para eventos, salas para terapias, salões de festa e de aula, saunas, entre outros. Esses equipamentos tornam a vida mais barata, prática e prazerosa. Seu custeio pode ocorrer de diferentes maneiras, e muitos serviços são oferecidos gratuitamente ou a preços reduzidos. Manter essas infraestruturas coletivas exige senso de comunidade, divisão de responsabilidades e gestão compartilhada dos recursos. No cotidiano, a autogestão ajuda a consolidar uma cultura comunitária: aprende-se a lidar com conflitos, a cuidar do convívio e a cultivar a alegria de estar juntes. Ao final deste texto, apresentarei algumas das técnicas usadas nas ecovilas para sustentar essa convivência, como o Dragon Dreaming, a Comunicação Não Violenta (CNV), o Fórum e o Trabalho que Reconecta.

Como se constituem as comunidades?

Na origem de uma comunidade há sempre o desejo de uma vida diferente, onde cada pessoa possa deixar de ser problema e passe a ser parte da solução de questões ambientais e humanas. Esta aspiração se materializa em maior ou menor grau, como visto no primeiro texto da série, na regeneração da Natureza por modos de vida de baixo consumo e impacto; na convivência comunitária com todas as dimensões descritas acima; na riqueza cultural do cotidiano marcada pela presença de beleza, arte e processos formativos; em uma atmosfera mais feminina de vida, em que diálogo, cuidado e o desenvolvimento de uma espiritualidade laica e autogestão superam aos poucos a cultura patriarcal, com poder compartilhado e decisões tomadas por todas as pessoas envolvidas.

A intenção comum é a parte visível do iceberg, mas, por trás dela estão os sonhos de realização que cada pessoa traz, de modo consciente ou inconsciente, para o grupo. Esta é a parte imersa do iceberg, um vasto cruzamento de aspirações, necessidades e desejos pessoais que representam um enorme reservatório de energia, criatividade, imaginário e esperança. Quanto mais o coletivo se autoriza a realizar colaborativamente o que intenciona, mais energia retira destas intenções trazidas e partilhadas por cada pessoa. As frustrações destes sonhos, às vezes muito ambiciosos, são também fontes de conflitos futuros.

As histórias que ouvi e vivi sobre a formação das ecovilas revelam a dimensão concreta do sonho coletivo: a busca por um terreno, a elaboração dos orçamentos, as obras, os mutirões, as reuniões e assembleias… Também presenciei momentos em que outras formas de inteligência, além da racional, eram mobilizadas — a inteligência do corpo, do coração e da alma — em situações de canto, dança, partilha de aspirações e enfrentamento criativo de conflitos. Busca-se, assim, equilibrar as energias do ser e do fazer. Observei o quanto construir outras formas de vida exige coerência, em cada pessoa, entre suas diferentes inteligências; e o quanto o coletivo precisa estar à altura de seus horizontes comuns, perseverando no estar juntes. Esta é uma das bases da inovação das ecovilas: acessar dimensões inconscientes, tornar-se consciente de suas próprias incoerências e aspirações visando fortalecer o espírito comunitário. Ter objetivos realistas e integrar sonhos individuais, expressos em um projeto comum, são essenciais para que uma comunidade nasça e se consolide.

Para que a comunidade exista de fato, cada pessoa precisa sentir seu papel nesta construção, mas não de forma egóica. A fundação de uma comunidade se alimenta de uma busca individual – e espiritual – de certa dissolução do ego em nome de algo maior. Subjetivar-se coletivamente passa por isso e só novas formas de convivência permitem que uma comunidade de iguais se estabeleça. A título de ilustração da consciência deste papel, pode-se contar a história dos três entalhadores de pedra encontrados em um caminho, aos quais se pergunta: “O que você faz?”: o primeiro responde: “Eu ganho a minha vida”, o segundo: “Eu entalho pedras” e o terceiro “Eu construo uma catedral”.

Os sonhos se objetivam nas ações práticas de obter o terreno e planejar sua ocupação, de construir residências e equipamentos coletivos, de cuidar coletivamente da regeneração da Natureza, do provimento de serviços básicos como água, luz, ruas… E também nos processos de escrita coletiva dos documentos como Regimentos e Estatutos que representam, no mundo jurídico e administrativo, os pactos realizados sobre o que significa viver juntos. Neste ponto as comunidades ancestrais e as ecovilas se distanciam, pois as comunidades originárias já são proprietárias coletivamente de um vasto conjunto de códigos, de patrimônios materiais, subjetivos e vibracionais que as sustentam. Mas a energia subjacente à manutenção de uma comunidade, mesmo em um caso sendo pré-existente, e no outro, construída, tem muito em comum.

A essência coletiva, poderosa e mobilizadora se origina, muitas vezes, no papel de um grupo, de um casal, ou de uma pessoa que propôs o projeto. Mas só na medida em que essa energia fundadora se converte em uma criação coletiva é que a comunidade começa a formar-se de fato. Nesta etapa, coloca-se inevitavelmente a questão do poder. Para que a comunidade se sustente, ele precisa diferir radicalmente do poder hierárquico que caracteriza o velho mundo. Só uma liderança concebida como um serviço altruísta e uma responsabilidade pode fundar comunidades sãs. É necessária assim uma concepção comum de poder que seja aglutinadora, que mobilize talentos, que coordene processos, que liberte e capacite, assim ultrapassando completamente a ideia de poder do velho mundo que domina, controla, tira proveito do seu lugar para fins próprios. O tema da gestão será tratado no próximo texto.

Como se gerem os conflitos nas ecovilas?

Claro que cada caso é um caso, mas toda ecovila que perdurou no tempo construiu metodologias que ajudam a vida em comunidade, técnicas de estar bem juntos. Como não possuem um passado ancestral comum, vínculos familiares extensos, regras e rituais milenares, lideranças tradicionais e subsistência compartilhada, que favorecem a unidade e continuidade nas tribos indígenas, as ecovilas precisam criar suas “colas”. Uma delas é o conjunto de mediações que ajudam a harmonizar o convívio e viabilizam elaborar projetos coletivos, gerir as estruturas comunitárias, superar conflitos. As comunidades criam suas próprias metodologias ou se inspiram em técnicas amplamente conhecidas e para que o público possa ter uma ideia dos valores e princípios básicos que as norteiam, descrevo algumas delas a seguir.

Dragon Dreaming

Essa metodologia criada por John Croft e Vivienne Elanta na Austrália, nos anos 1990, inspira-se em práticas tribais aborígenes para incluir o sonho e a celebração nas dinâmicas comunitárias. Nela, os projetos coletivos começam com o sonho compartilhado, passam pelo planejamento do que se vai fazer concretamente; seguem para a realização e se concluem com a celebração. Um dos diferenciais da prática é dedicar o mesmo tempo para cada etapa. Celebrar é tão importante quanto fazer, sonhar tão importante quanto o planejar. Esta concepção ancestral de valorizar outras inteligências que não as operacionais – tão incensadas no mundo ocidental – permite às ecovilas o tempo de conviver em situações menos tensas, usufruindo da alegria da vida em comunidade.

A inclusão da imaginação, da festa e dos rituais coletivos estabelece uma vibração mais serena no grupo, mais leve e risonha, que favorece a cooperação e o seguir juntos adiante. No processo de sonhar juntos, estimula-se a criatividade, coletam-se informações, fortalece-se a motivação pessoal de cada pessoa no projeto coletivo e evidenciam-se previamente as diferenças de interpretação do sonho, para que se possa definir, em grupo, um sonho comum. No planejar, identificam-se os talentos disponíveis, estabelecem-se alternativas, estratégias e ferramentas para a realização do sonho, podendo-se testá-lo em pequena escala para melhor formular as etapas necessárias à sua concretização. Assim, o fazer acontece quando o grupo está mais maduro, tem mais clareza e está mais unido, o que torna mais simples a gestão do processo, com o monitoramento passo a passo da realização. O celebrar realimenta todo o percurso: festejar pequenas e grandes conquistas, agradecer a participação de cada pessoa, pausar o fazer e apreciar os avanços _cantando, dançando, comendo juntos, passeando, fazendo arte _ contribui para a construção de vínculos mais saudáveis entre as pessoas.
Fórum

O Fórum é uma técnica de gestão do convívio humano muito conhecida no mundo das ecovilas. Ele foi criado e se desenvolveu a partir de 1978 na cultura comum das primeiras pessoas que vieram a fundar tanto a ecovila Zegg, na Alemanha, quanto a ecovila Tamera, em Portugal. O desenvolvimento desta poderosa tecnologia social, que busca construir transparência e confiança no seio das comunidades, vai tendo diferentes interpretações, mas conta com um núcleo comum. A técnica funciona a partir do encontro de toda a comunidade em um espaço onde as pessoas se dispõem em um círculo com centro vazio; este centro funcionará como o espaço principal onde a dinâmica vai se desenrolar da forma mais teatral possível.

No funcionamento do Fórum, alguns personagens se apresentam: a pessoa da comunidade que se apresenta voluntariamente como Protagonista ao centro para colocar uma questão pessoal, um sentimento reprimido, uma disputa, um medo ou algo que lhe impede de viver em paz a vida comunitária. A Facilitadora ou facilitador é a pessoa que guia a protagonista, ajudando-o, com sua experiência, a focar na emoção que aquele relato lhe provoca. O uso do corpo para expressar-se, a encenação daquilo que se vive e se sente de forma teatral, até mesmo exagerada, ajuda a pessoa protagonista a se “desidentificar”, a ver de fora aquilo que vive e a apresentar isto ao grupo.

Após a apresentação do protagonista, outros membros do círculo podem entrar no centro para trazer opiniões, sem julgamento, sobre o que viram ou sentiram em relação à performance assistida. Este retorno da comunidade à encenação feita é o Espelho, que significa o retorno do grupo, o feedback, ao protagonista. Entende-se que os conflitos têm origem não apenas nas questões objetivas que cada lado em conflito argumenta, mas em situações mais profundas, em sentimentos reprimidos, segredos, histórias não contadas. Ao trazer estas histórias e sentimentos para o centro do círculo, para o palco coletivo, cria-se confiança e constrói-se empatia.

Esta técnica nasceu da observação das dificuldades de convívio nas ecovilas, onde pessoas muito diferentes se encontram para viver em comum, tendo saído de uma sociedade individualista que não prepara para o convívio comunitário. Para a gestão da vida cotidiana, dos projetos coletivos, das finanças compartilhadas e dos conflitos interpessoais, o Fórum busca evitar que as comunidades se autodestruam por dificuldades de comunicação, fofocas, ciúmes e todo tipo de desafio humano à convivência harmoniosa. Seu objetivo é a transparência e a possibilidade de olhar um conflito de fora, pelos seus próprios integrantes e pela comunidade, e encontrar soluções que satisfaçam aos envolvidos, permitindo que o sentido comunitário vá se construindo e se perpetuando.

Comunicação não violenta (CNV)

A CNV é uma técnica mundialmente conhecida de diálogo para resolução de conflitos, criada nos anos 1960 pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg. É amplamente utilizada nas ecovilas para expressar insatisfações de forma não violenta e encaminhar divergências de maneira mais pacífica e eficaz, favorecendo o ambiente coletivo. Pode ser aplicada tanto na gestão da vida comunitária quanto em questões pessoais que atravessam o convívio — e, como veremos, faz bastante diferença no cotidiano.

A técnica se baseia em quatro passos — Observação, Sentimento, Necessidade e Pedido — que ajudam a organizar a comunicação, evitando misturar fatos com julgamentos e conduzindo a um pedido concreto. O primeiro passo é a observação sem julgamento: descrever o que aconteceu como se fosse um filme. Em seguida vem a expressão do sentimento, nomeando a emoção que a situação gerou. O terceiro passo é identificar a necessidade não atendida que está na base desse sentimento (desejo de suporte, de organização, de respeito, de descanso etc.) É importante que a necessidade seja expressa de forma impessoal, ou seja, que outra pessoa naquela mesma situação se sentiria de forma parecida. Por fim, formula-se um pedidoclaro e possível, apresentado como solicitação — e não como imposição. Este pedido precisa ser possível no momento e no contexto dado e precisa ser uma demanda positiva, o que se quer que a pessoa faça e não o que se quer que ela pare de fazer. É importante que se dê ao outro a possibilidade de negar ou aceitar, construindo pontes para a solução objetiva do conflito, com a expressão clara das possibilidades.

A técnica pode ser usada em uma ou mais direções, entre duas ou mais pessoas, ou mesmo como diálogo interior. Para entender melhor, vamos a uma situação bastante comum nas ecovilas: a partilha das tarefas da cozinha. Imagine duas pessoas responsáveis pela alimentação do dia. Uma delas não aparece ou participa menos do que o esperado. O modo mais explosivo de reagir seria dizer algo como: “você é preguiçosa e está me explorando”. Aqui, observa-se como fatos, interpretações e julgamentos se misturam, criando rótulos que tendem a se fixar no tempo e dificultar qualquer resolução do conflito.

Pela CNV, o caminho é outro. Primeiro, volta-se ao fato: “hoje você não participou das tarefas da cozinha como combinamos” (observação). Em seguida, nomeia-se o que isso gerou: “senti-me sobrecarregado e cansado” (sentimento). Depois, explicita-se a base desse sentimento: “porque preciso de cooperação nas tarefas que assumimos juntos” (necessidade). Por fim, formula-se um pedido concreto: “você poderia amanhã chegar mais cedo ou assumir uma parte maior da tarefa para equilibrarmos o trabalho?” (pedido).

Parece simples — e, de fato, é —, mas esse pequeno deslocamento muda profundamente a qualidade da interação. Em vez de acusação, abre-se espaço para escuta; em vez de defesa, para explicação; em vez de escalada do conflito, para sua elaboração. Muitas vezes, a outra pessoa pode ter tido um motivo concreto, pode pedir desculpas ou pode simplesmente não ter percebido o impacto de sua ausência. A CNV não elimina os conflitos — mas oferece uma forma de atravessá-los sem destruir os vínculos, o que é essencial em qualquer experiência comunitária.
Trabalho que Reconecta

Criado nos anos 1970 pela eco-filósofa Joanna Macy, budista e PhD em sistemas, o movimento WTR – The Work That Reconnects – vem se espalhando pelo mundo e é muito conhecido nas ecovilas. Ao tratar da relação com a Terra e com a crise planetária, temas caros às ecovilas, ele busca transformar ansiedade diante do estado do mundo em ação regenerativa. Um exemplo: Quem se dispõe a viver um “novo mundo”, seja em comunidades intencionais ou ancestrais, seja por um modo de vida ecológico, não deixa de ter contato com o velho mundo. As relações familiares e de amizades, de trabalho, ou os contatos diversos com as infraestruturas, comércio e serviços do “mundo como ele é” podem trazer tristeza e estranhamentos. A opção, por vezes, é até se distanciar de pessoas por quem se tem afeto para não presenciar a insanidade do hiperconsumo, da vida hiper acelerada e sem direito à introspecção, da busca irrefreável por dinheiro e sucesso e consequente insensibilidade em face do sofrimento da Natureza e de seus filhos e filhas. Esta opção de afastamento traz cobranças e culpas dolorosamente sentidas.

Percebendo vários tipos de personalização de problemas que são estruturais, Joanna Macy criou sua metodologia baseada em uma espiral de quatro etapas que busca liberar as pessoas de sentimentos negativos, aprofundar as relações dentro do coletivo com o qual se identifica, reforçar seu engajamento e estimular sua ação. A espiral funciona como um mapa de navegação psicológica e coletiva, projetado para que o grupo entre em contato com dores profundas sem se desesperar ou paralisar. O movimento espiralado garante que ninguém seja jogado diretamente no sofrimento sem antes criar uma base de apoio, e garante que ninguém saia do processo sem um plano de ação prático.

O movimento da espiral é conduzido a partir de um convite ao grupo a iniciar a jornada pela Gratidão, que é a base que ancora o coletivo para as etapas seguintes. Assim, as pessoas são chamadas a expressar o que amam e apreciam no mundo. Os participantes compartilham histórias de conexão com a Natureza, momentos de alegria simples ou fazem agradecimentos mútuos. Ao perceber a abundância da vida, o e a participante constroem a resiliência emocional necessária para o passo seguinte no qual acessará a dor. Para pessoas que não estão ainda em projetos regenerativos, quando se reconhece e honra a dor pelo que acontece no mundo, desmantela-se a apatia, e abre-se espaço para a ação engajada.

Na segunda etapa, que funciona como uma descida na espiral, a facilitação abre espaço para as emoções sombrias (luto, raiva, medo, impotência) relacionadas à crise climática e social. Usam-se rituais como o Círculo da Verdade, onde objetos (uma pedra para o luto, um bastão para a raiva, uma folha seca para o medo, e uma bacia vazia para a impotência) são colocados no centro, e as pessoas vão até eles para expressar o que sentem. Neste momento, quebra-se o isolamento. O participante percebe que seu desespero não é uma fraqueza pessoal, mas sim um sinal de que sua empatia sistêmica está funcionando, assim como a das demais pessoas ali presentes. A dor é processada e liberada, podendo virar combustível para as etapas seguintes.

A curva da espiral começa a subir quando a dor é acolhida, expressa e validada: torna-se possível ver a realidade com novos olhos. Na etapa da mudança de perspectiva, a crise é recontextualizada pela ciência dos sistemas, holística, pelo tempo profundo e pela percepção de interdependência entre todos os seres. Práticas como o Conselho de Todos os Seres (onde humanos dão voz a animais, rios ou florestas) ou caminhadas na linha do tempo dos ancestrais e descendentes, fazem com que o ego individual diminua e o “eu ecológico” se expanda. O participante deixa de se ver como uma vítima impotente e passa a se enxergar como parte de um ecossistema vivo de bilhões de anos que está se autodefendendo.

A saída é a ação engajada, passando pela identificação dos dons únicos que cada pessoa pode oferecer para a “Grande Virada”, como Joanna Macy chama a transição planetária para uma vida mais ecológica e justa. A energia que antes era gasta para reprimir a ansiedade ecológica agora está livre para ser usada em projetos regenerativos concretos. Produz-se, assim, um sentido concreto de potência individual e coletiva. A espiral não fecha em círculo; ela termina aberta, projetando o participante de volta para o mundo, mas transformado. Nesta fase final, foca-se na estratégia e no compromisso prático, que pode ser o aprofundamento de projetos já em curso na ecovila e/ou a abertura de novas perspectivas, tanto individuais quanto coletivas.

Concluindo

Anos depois da publicação de nosso livro ‘Os Novos Coletivos Cidadãos’, que servirá de base ao texto seguinte desta série, Ivan Maltcheff e eu conversávamos sobre as atitudes e dinâmicas necessárias à saúde de uma comunidade. O que fazer para que suas boas condições de vida se perpetuem, tendo as pessoas investido tanto tempo, esforço e dinheiro em moradia, infraestruturas, equipamentos, governança participativa e no cultivo da cultura do cuidado? Pensávamos juntos e lhe fiz essa pergunta, aproveitando sua longa experiência neste campo, já que nosso livro foi publicado originalmente por ele em francês e o revemos em parceria para a versão brasileira. Ivan respondeu, e concordo inteiramente com ele:

“O mais importante, mais do que todas as técnicas, resume-se a cultivar a presença e a alegria e estar sempre conectado com o todo. A presença decorre de uma observação constante, individual e coletiva, do que está acontecendo. Presença a si mesmo por meio de uma capacidade de introspecção sem julgamentos, presença ao outro, especialmente se ele nos incomoda, presença ao coletivo como um organismo vivo. Acredito que o que mais importa é a noção de um ser coletivo vivo, do qual devemos cuidar, e que manter a alegria é um dos remédios mais poderosos para evitar a doença desse ser. É preciso cuidar do corpo, das emoções e do espírito desse ser coletivo. A alegria não é a negação da dor, da tristeza ou dos problemas; ela é a fonte do Ser interior da qual podemos nos abastecer. Ela permite preservar o campo vibratório mais do que qualquer outra técnica, pois nos conecta à rede cristalina da Terra e do Universo. Um coletivo pode experimentar todas as técnicas que desejar, desde que mantenha os pés no chão (seja prático), não se limite a nenhuma delas e coloque sempre em primeiro plano a presença e a alegria. E uma última observação: para poder fazer essa jornada, é preciso estabelecer ritos, rituais, processos e reuniões dedicadas. Caso contrário, esse tema acaba sempre sendo engolido pela atividade operacional do coletivo”

Talvez seja esta, afinal, uma das principais respostas à pergunta que abre este texto. As comunidades do novo mundo vivem em infraestruturas compartilhadas, trabalho comum, ritos de cuidado, técnicas de convivência e decisões coletivas. Mas vivem, sobretudo, da disposição cotidiana de perseverar, de superar as dificuldades do estar juntos, de preservar o que foi conquistado para que possa servir de exemplo, ser semente do futuro. Ter a vida em comunidade como uma prática consciente de construir um mundo melhor passa por cuidar juntos da Terra, tecer vínculos sólidos e gerir conflitos mantendo a alegria como bússola.


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