sábado, 25 de julho de 2026

Ligia Bahia: “A estratégia deve ser a desprivatização”

Sábado, 25 de julho de 2026

Ligia Bahia: “A estratégia deve ser a desprivatização”


Em evento organizado por Outras Palavras e FESPSP, dois sanitaristas debatem como fortalecer o SUS. Para a professora da UFRJ, urge dar marcha ré na relação público-privada. Gonzalo Vecina propõe multiplicar a bem-sucedida experiência dos consórcios regionais

OutraSaúde
Publicado originariamente no OUTRASAÚDE em 24/07/2026

Nesta quarta-feira (22), os sanitaristas Ligia Bahia e Gonzalo Vecina se encontraram no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), na capital paulista, para debater os caminhos para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), à luz dos desafios que as eleições de 2026 impõem. O diálogo foi mediado por Aparecida Pimenta, atual coordenadora do Instituto Walter Leser (IWL/FESPSP)

A mesa (assista aqui) é parte do ciclo de seminários Desafios para outro Brasil, promovido pela FESPSP e pelo portal Outras Palavras, casa do boletim Outra Saúde. Os seis encontros anteriores debateram outros temas estratégicos para as transformações estruturais do país, como orçamento público, Previdência Social, trabalho, segurança pública, soberania energética e industrialização. Os episódios estão todos disponíveis para visualização no canal da instituição de ensino superior.

Professora da UFRJ e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento de Saúde (GPEDS), Ligia Bahia dedicou sua fala a um chamado para uma avaliação sóbria do atual estado do SUS, cada vez mais profundamente atravessado por relações público-privadas. Nesse cenário, em sua visão, é momento de adotar uma estratégia de “desprivatização” do sistema de saúde. “Se a gente não caminhar para isso, não tem mais SUS”, reforça.

Por sua vez, o professor emérito da FSP-USP e fundador da Anvisa, Gonzalo Vecina, usou seu tempo para indicar cinco pontos centrais em que é preciso concentrar esforços para a recuperação do SUS – entre eles, o Complexo Econômico Industrial da Saúde, o financiamento e a construção de novos arranjos regionais de gestão.


Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil


“Não se pode confundir mudanças incrementais com reformas”

Ligia Bahia iniciou sua fala apontando que as quatro décadas passadas desde o surgimento do SUS, criado pela Constituição Federal de 1988, exigem uma reavaliação profunda. A pesquisadora opina que, apesar da valentia do movimento sanitário e da importância de um sistema público de saúde, os ganhos foram modestos: “Nós temos um sistema de proteção social no Brasil que é incompleto, muito frágil, todo vazado. Totalmente privatizado, mais na Saúde do que na Educação”.

Ela reflete: “A desigualdade deve ser o ponto de partida para falarmos sobre saúde. Isso inclusive nos aproxima de outros setores. Hoje, estamos isolados, pouco falamos com a Ciência e Tecnologia, com os Transportes, com a Habitação. Assim, a ideia de determinação social da saúde fica abandonada – e é através dela que sabemos que o que mata é a desigualdade. Devemos perguntar: o SUS e as políticas públicas de saúde reduziram a desigualdade? É possível que a resposta seja não, assim como elas se acentuaram na economia. Isso contrasta um pouco com a ideia apologética do SUS, que ele é o maior e o melhor, mas nós, que somos estudiosos, precisamos apontar com clareza que as políticas públicas devem ser orientadas para reduzir as desigualdades”.

Sua avaliação também passa pela constatação de que o SUS acabou se constituindo como um sistema público-privado. “Ele é privado no financiamento, privado na força de trabalho, privado na oferta de procedimentos. Em um país com essa desigualdade, temos um sistema de saúde totalmente privatizado, inadequado, de costas para as necessidades de saúde da população”, enumera.

Em sua visão, o financiamento é um dos ângulos mais determinantes desse processo. “Nós temos que financiar o SUS, mas como? O que está acontecendo, na prática, é que o financiamento privado está aumentando e o público diminuindo. A boca do jacaré está totalmente aberta”. Para Bahia, até o problema das emendas parlamentares é de menor monta, se comparado aos subsídios fiscais à saúde privada.

Se a crescente hegemonia dos interesses privados sobre o SUS está no âmago de suas dificuldades para atender adequadamente a população, a professora da UFRJ indica que esta contradição deve ser o centro da luta política em defesa do direito à saúde. É onde entra a bandeira da desprivatização do sistema de saúde. O Observatório da Desprivatização da Saúde, coordenado pelo grupo de pesquisa de Ligia Bahia, explica que o conceito designa “processos e movimentos de ampliação ou retomada do controle público e democrático de serviços essenciais e bens comuns visando atender demandas sociais e necessidades coletivas”.

“Nas eleições, precisaremos ter uma agenda de políticas de saúde que seja muito consistente”, completa.

Cinco pontos para retomar o SUS

Em fala concisa, o sanitarista Gonzalo Vecina enumerou cinco questões que considera serem as mais importantes a serem tratadas no SUS durante o próximo ciclo político.

Ecoando as preocupações da professora da UFRJ, a primeira delas é o financiamento do sistema de saúde. Além de não aceitar a redução dos recursos, o sanitarista defende o fim das isenções fiscais para a saúde privada e a revisão da política monetária em vigor. “Nós temos que rediscutir essa equação econômica que só faz tributar para pagar juros aos capitalistas. Fazer parar essa voragem de dinheiro que gera uma enorme ineficiência”, critica.

Depois, vem o tema da gestão do sistema de saúde. Vecina crê que os consórcios regionais — entre municípios ou entre o Estado e os municípios – são um arranjo que pode ajudar a enfrentar os atuais gargalos do sistema, especialmente em questões como a compra de insumos, contratação de pessoal e organização de filas.

Bastante ligado ao tema anterior, o terceiro ponto indicado pelo professor da USP é a assistência à saúde. O sanitarista é crítico do programa Agora Tem Especialistas, escolhido como “carro-chefe” da gestão do atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

“Esse programa não vai conseguir resolver nenhum tipo de problema, não vai aumentar a oferta a longo prazo. Vai dar uns refrescos aqui e acolá, mas não é a saída. A atenção básica pode até não tratar câncer, mas ela consegue diagnosticar, se for adequadamente capacitada. Só que as pessoas têm que ser mandadas para algum lugar – e ele ainda não existe. Nós precisamos criar redes de atenção especializada que sejam acessíveis a partir da atenção primária, é assim que nós vamos conseguir resolver esse problema que o Agora Tem Especialistas busca enfrentar”, defende. Em sua visão, os consórcios regionais são o instrumento que pode viabilizar essa expansão do SUS.

Um quarto tópico indicado pelo sanitarista é o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, em que avalia que é preciso escolher produtos “imprescindíveis” para concentrar a fabricação. “Nós precisamos fazer vacina, porque somos um país que consome 200 milhões de doses quando precisa. Creio que a experiência com as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) foram positivas e estão dando resultado. Com os saltos que a Fiocruz, o Instituto Butantan e o Lafepe estão dando, poderão dar ainda mais resultados. Os demais laboratórios oficiais ainda precisam avançar mais”, opina.

Por fim, Gonzalo Vecina acredita que é preciso fortalecer o controle social no SUS. “É difícil, muito difícil, mas é um instrumento que mudou a qualidade do que nós tivemos condição de fazer no governo. Nós temos que fortalecê-lo”, concluiu.



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