A Bahia foi o único movimento de peso que levantou a bandeira da escravidão
Ocorridas na mesma década, sob a influência iluminista da Revolução Francesa, a Inconfidência Mineira (1792) e a Revolta dos Búzios (1798), mais conhecida como Conjuração Baiana, compartilhavam os objetivos da independência do Brasil em relação à Portugal. Porém, os dois atos revolucionários se diferenciam em questões fundamentais, como o fim da escravidão, exigido pelos baianos e desconsiderado pelos mineiros.
"Revolta dos Búzios, eu afirmo com muita tranquilidade e muita convicção, foi um movimento mais importante que a Inconfidência Mineira", afirma o diretor de Revolta dos Búzios, documentário em cartaz em cinemas pelo país.
"A Inconfidência Mineira, assim como a Insurreição Pernambucana, a Conferência do Equador e a Inconfidência Carioca, defenderam a República e a Independência, mas não tocaram no fim da escravidão. A Bahia foi o único movimento expressivo, significativo e de peso que levantou a bandeira da escravidão", defende o diretor em entrevista ao programa Bem Viver desta terça-feira (2).
O movimento que tem Tiradentes como mártir e é até homenageado com um feriado nacional - o dia 21 de abril -, foi articulado por uma elite socioeconômica do período. Enquanto isso, a Conjuração Baiana teve como protagonistas trabalhadores distantes do controle de meios de produção.
As quatro lideranças que se destacaram foram dois soldados e dois alfaiates, motivo pelo qual o movimento também é conhecido como Revolta dos Alfaiates. Foram eles João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens.
Antes mesmo da revolta entrar em curso, o movimento foi interceptado pelo Império e os quatro, que eram homens negros, tiveram como destino a forca. Entre as lideranças brancas que se envolveram, nenhuma teve pena máxima, e muitas não cumpriram nenhum tipo de detenção, como por exemplo, Cipriano Barata.
"A historiografia tradicional invisibilizou isso, marginalizou, fez com que nós, mesmos baianos, não conhecêssemos isso. Então é um sonho de construir no cinema uma ponte para se comunicar com a sociedade", diz Olavo.
"Eu me descobri, me encontrei, enquanto um homem negro, quando eu encontrei essa história do meu povo, do passado, e eu passei a ter orgulho. Porque até então, eu imaginava que eu era descendente de um povo escravizado."
Outro destaque desse movimento foi a participação de mulheres negras, como as forras Ana Romana e Domingas Maria do Nascimento, Luiza Francisca de Araújo, Lucrécia Maria Gercent e Vicência.
Antonio Olavo é autor do livro Memórias Fotográficas de Canudos (1989) e gestor da Portfolium Laboratório de Imagens, produtora pela qual dirigiu 19 filmes documentários, entre os quais sete longas-metragens, como Quilombos da Bahia (2004) e Abdias Nascimento Memória Negra (2008).
Confira a entrevista na íntegra
Por que a escolha de Revolta dos Búzios e não os nomes que são mais conhecidos, como Conjuração Baiana?
Esse movimento, que ocorreu em 1798, no final do século 18, tem uma importância muito grande porque defendeu as bandeiras da Independência, que só viria em 1822 na Bahia.
Ele defendeu também uma república democrática, república essa que só foi proclamada, de forma nada democrática, em 1889, pelo Marechal Deodoro.
E um diferencial em todos os movimentos anteriores e posteriores: os conspiradores de Búzios, aqui na Bahia, defenderam o fim da escravidão. Isso é um marco em relação aos outros movimentos, inclusive à Inconfidência Mineira.
E ele teve várias denominações ao longo da história. Desde a edição de 1798, Movimento Democrático Baiano, Conjuração Baiana e Revolução dos Alfaiates são os nomes mais conhecidos.

