Quinta, 13 de agosto de 2026
As prisões secretas da Doutrina Donroe
Sob Trump, EUA estabelecem rede de cárceres em países remotos, para onde enviam parte dos imigrantes detidos pelo ICE. Perseguições a estrangeiros crescem em ritmo e terror. E já atingem, com penas pesadas, ativistas políticos de esquerda
Publicado 13/08/2026
Supostos membros de um cartel venezuelano, deportados pelos Estados Unidos, chegam a uma prisão de segurança máxima em El Salvador. A prática de encarcerar estrangeiros no exterior estende-se agora a 35 países
O domínio dos Estados Unidos sobre as Américas “jamais será questionado”,
voltou a ameaçar o Departamento de Estado de Washington, nesta terça-feira (11/8), num vídeo de 5 minutos postado em meio aos
fracassos de sua guerra contra o Irã. A frase, pronunciada pela primeira vez por Donald Trump horas após o
sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro, confirma um risco geopolítico crescente. Enfraquecidos em quase todo o mundo, os EUA podem estar preparando um recuo para o que veem como seu “quintal”. Aqui, passariam a exercer controle máximo – objetivo explícito da
Doutrina Donroe, que retoma, recrudescida, a ideia de “América para os americanos”. Além do ataque a Caracas, a tendência aparece em sua
aliança com Javier Milei na Argentina; suas interferências explícitas nas
eleições recentes na Colômbia, Peru, Chile, Equador; suas pressões contra o Brasil.
Mas o que significa esta “volta ao reduto”, em termos de ataque à leis internacionais e aos direitos humanos?
Ampla reportagem do jornalista
Nicholas Casey, publicada nesta quarta-feira (12/8) no New York Times, traz uma das respostas. Ela conta a história quase surreal de Raul Mosquera, um imigrante cubano de 59 anos que, após mais de quatro décadas nos EUA, foi preso e deportado para o desconhecido reino de
Eswatini — um enclave no território da África do Sul, governado por uma monarquia absoluta. Seu caso está longe de ser o único. Centenas, talvez milhares de imigrantes detidos nos EUA estão sendo enviados pelo governo Trump para prisões em 35 países. Nelas, assim como ocorria antes em Guantánamo, enfrentam, além do cárcere, um limbo jurídico. Enquanto isso, no EUA, o ICE, polícia de imigração, intensifica a caçada aos estrangeiros. E um de seus braços volta-se em especial contra ativistas de esquerda.