Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Gaza: Há luz no fim do túnel para o Ocidente?

Quinta, 26 de março de 2026

Gaza: Há luz no fim do túnel para o Ocidente?

Não haverá mais vida na Faixa – casas reconstruídas, escolas, hospitais –, porque Israel não pode tolerar a memória do que praticou. Igualmente brutais são a censura e o silêncio frente ao terror. Há redenção enquanto o sionismo existir?


OUTRASPALAVRAS                        Crise Civilizatória

Foto: Jehad Alshrafi/AP

Livros utilizados pelo autor: Didier Fassin, Moral Abdication: How the World Failed to Stop the Destruction of Gaza, Londres, Verso, 2024, 128 pp. | Pankaj Mishra, The World After Gaza, Londres, Fern Press, 2025, 292 pp.

A destruição de Gaza, o extermínio da sua sociedade, terminará antes de ambos se completarem absolutamente? Não, se o governo de Israel, a maioria dos seus cidadãos e os Estados Unidos conseguirem o que querem. Israel nunca fará as pazes com o povo palestino, nem em Gaza, nem em Jerusalém, nem na Cisjordânia. Enquanto houver palestinos entre o rio e o mar, eles serão um obstáculo para Israel e a missão não estará cumprida. Na verdade, agora, após dois anos de massacres e extermínio, a paz, sejam quais forem os seus termos, não seria mais do que uma catástrofe nacional para Israel, uma derrota devastadora. A paz teria que pôr fim ao bloqueio de Gaza, que já dura quase duas décadas, subsidiado por quatro presidentes estadunidenses: Bush, Obama, Biden e Trump. Os habitantes da Faixa de Gaza teriam que ser libertados da sua prisão ao ar livre e deveria ser permitida a entrada de visitantes. Muitas mais imagens viriam a público do que as que têm surgido até agora de uma paisagem devastada, cujas casas, escolas, hospitais, igrejas e universidades foram irremediavelmente danificadas. Seriam contadas histórias de crianças sem pais, de pais sem filhos, de famílias sem mães ou pais, de seres definhados, famintos, aleijados no corpo e na alma. Seriam iniciadas investigações, e não apenas por parte da corrupta Autoridade Palestiniana paga por Israel: testemunhas seriam ouvidas, memórias registradas, acontecimentos reconstituídos, os comandantes israelenses responsáveis pelos piores crimes seriam identificados e o genocídio deixaria de ser uma abstração jurídica. O Estado de Israel acabaria finalmente por se tornar um Estado pária, como a Alemanha teria sido depois de 1945, não fosse porque os seus amigos estadunidenses precisavam de um aliado vassalo contra a União Soviética e que fosse também funcional para lançar a Guerra da Coreia. “Desfruta da guerra, a paz será terrível”, costumavam sussurrar os alemães entre si, quando a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim.

quarta-feira, 25 de março de 2026

AXIOMAS: Uma proposição que é aceita como verdadeira na Venezuela sem necessidade de provas

Quarta, 25 de março de 2026

AXIOMAS: Uma proposição que é aceita como verdadeira na Venezuela sem necessidade de provas

24 de março de 2026

TEMA: OS AXIOMAS REVELADOS

Nestor Azuaje

Ao longo desses anos, nós, membros do PSUV, fomos motivados emocionalmente, organizacionalmente e politicamente por três axiomas fundamentais, que internalizamos profundamente como verdades inabaláveis. Esses três axiomas são:

"A unidade cívico-militar-policial “indestrutível e inequívoca”.

"Quem vier atacar a Venezuela poderá entrar, mas não poderá sair".

“Sempre leais, jamais traidores”.

Bem, acredito que nenhum desses três axiomas resistiu ao teste da madrugada de 3 de janeiro. Os três se provaram falsos. Vejamos:

– O axioma da unidade cívico-militar-policial:

Uma semana após aqueles eventos ignominiosos, encontrei dois camaradas do partido (cujos nomes não me recordo) no Parque Sanz. Em meio à raiva reprimida que todos sentíamos, perguntei o que havia acontecido com todos os nossos preparativos. Para onde tinham ido os quatro milhões de milicianos que se alistaram nas praças públicas deste país, supostamente para defender a pátria? Para onde tinha ido o nosso glorioso exército, herdeiro dos nossos libertadores? Quanto à polícia… bem. A resposta que recebi de um dos camaradas foi permeada de fria frustração: estávamos dormindo.

STF aprova tese que unifica teto salarial e extingue pagamentos extras para magistratura e MP

Quarta, 25 de março de 2026

STF aprova tese que unifica teto salarial e extingue pagamentos extras para magistratura e MP 

Decisão estabelece limites para verbas extras, extingue auxílios criados por decisões administrativas e impõe transparência total na folha de pagamento

STF —25/03/2026 

Foto: Gustavo Moreno/STF

Do STF

Em um julgamento concluído nesta quarta-feira (25), o Supremo Tribunal Federal (STF) fixou as balizas para o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público até que seja editada a lei nacional prevista no artigo 37, parágrafo 11, da Constituição Federal. A tese de repercussão geral aprovada reafirma o teto constitucional de R$ 46.366,19 e estabelece uma organização nas folhas de pagamento, proibindo a criação de auxílios e verbas indenizatórias sem lei federal específica aprovada pelo Congresso Nacional.

A decisão tem caráter estrutural e será acompanhada pela Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). As novas regras começam a valer já no mês-base de abril, impactando a remuneração a ser paga em maio.

TJDFT mantém indenização por abuso de direito em denúncia contra criança de dois anos

Quarta, 25 de março de 2026



TJDFT mantém indenização por abuso de direito em denúncia contra criança de dois anos

Do TJDFT
A 4ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) manteve condenação ao pagamento de R$ 4 mil, por danos morais, por abuso de direito ao registrar boletim de ocorrência e apresentar denúncia ao Conselho Tutelar contra criança de dois anos e sua mãe.

Segundo o processo, o réu registrou ocorrência policial, no qual relatou lesão corporal e descreveu a criança como “algoz contumaz”, além de atribuir-lhe “histórico de violência dentro e fora da escola”. Ele também apresentou denúncia ao Conselho Tutelar por suposta negligência materna, o que levou a genitora a ser convocada para esclarecimentos. Afirmou ter agido para proteger o filho e pediu a improcedência da ação ou redução da indenização.

MPDFT obtém decisão que suspende compra de aparelhos sem licitação pelo TCDF

Quarta, 25 de março de 2026

Do MPDFT

Corte de Contas pagava quantia mensal diretamente no salário de autoridades e servidores sem exigir comprovação dos gastos

A Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social (Prodep) obteve decisão que proíbe o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) de repassar valores mensais para que seus integrantes comprem aparelhos de uso pessoal, como celulares, tablets e notebooks, com dinheiro público. A sentença, publicada nesta terça-feira, 24 de março, anula uma resolução interna que permitia a aquisição desses equipamentos sem licitação e sem a obrigação de devolvê-los ao órgão ao final do uso.

A norma anulada, a Resolução nº 377/2024, permitia a autoridades e servidores de alto escalão do TCDF comprar aparelhos e contratar serviços de internet e telefonia em nome próprio. Para cobrir os custos, o tribunal pagava uma quantia fixa mensal diretamente no salário dos beneficiários, sem exigir a apresentação de notas fiscais ou comprovantes de que o dinheiro foi realmente gasto com os equipamentos. Os itens passavam a pertencer permanentemente aos agentes públicos, integrando seus patrimônios particulares.

Tá na Mesa — Idec — Sua porção semanal de alimentação saudável e sustentável

Quarta, 25 de março de 2026

Tá Na Mesa - Idec

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Cabeçalho | Tá na Mesa - Idec - Sua porção semanal de alimentação saudável e sustentável

A gente costuma pensar na comida só quando ela chega ao prato.

Mas e tudo o que acontece antes disso?

Hoje, vamos olhar para nossa alimentação e os impactos que ela deixa em cada etapa.

GIF animado - Destaque

Do campo ao prato: o que a gente não vê na alimentação

Quando falamos de alimentação adequada e saudável, não estamos falando apenas de comida ou alimentos. Também estamos falando de pessoas produtoras rurais, de meio ambiente e de como os alimentos são produzidos.

O que chega ao nosso prato carrega histórias — e, muitas vezes, impactos socioambientais que não aparecem na embalagem.

Quando olhamos para a origem dos alimentos

Diferentes análises chamam atenção para o avanço do desmatamento ligado à produção de commodities como soja e carne bovina, uma problemática central no agravamento da crise climáticaE, apesar de parecer distante, esse problema está diretamente conectado ao sistema que sustenta o que comemos todos os dias.

Brasil precisa de dono e China vence século de humilhações

Quarta, 25 de março de 2026

Brasil precisa de dono e China vence século de humilhações

Entre dependência histórica e projeto nacional, o contraste entre o Brasil e a China revela caminhos distintos de desenvolvimento, educação e soberania no século 21


Mapa - China
Mapa da China (foto de Christian Lue na Unsplash)


Pedro Augusto Pinho*

A análise dos eventos e das ações que, em seu conjunto, constituem a política internacional e, em consequência, a definição da estratégia de inserção do Brasil dependem da visão que se faz da estrutura, da dinâmica e das tendências do sistema internacional e, de outro lado, das características e dos desafios da sociedade brasileira” são palavras de um dos maiores intelectuais brasileiros, um embaixador, por profissão, e das mais finas e sutis inteligências e amor ao Brasil que conheci em meus mais de oitenta anos.

Samuel Pinheiro Guimarães Neto, carioca, inicia, com as mesmas palavras que começo este artigo, seu capítulo “Quinhentos anos de periferia: a inserção”, de “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes” (2006).

Samuel (1939–2024) foi exonerado de suas funções de diretor da Assessoria de Cooperação Internacional da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) por resistir à interferência da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Já o cearense Roberto Átila Amaral Vieira, Roberto Amaral, nascido no mesmo ano — ambos formados em Direito — foi ministro de Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no governo Lula, além de conselheiro do BNDES e da Itaipu Binacional, membro do Pen Clube do Brasil e da International Political Science Association, bem como da International Association of Judicial Methodology.

terça-feira, 24 de março de 2026

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta

Terça, 24 de março de 2026

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta

Diante de adversário muito menos poderoso, porém coeso e sagaz, maior máquina militar da História sofre e hesita. O que isso revela sobre a mudança nos campos de batalha e – muito mais importante – a inconsistência dos planos de Trump

OUTRASPALAVRAS                           Geopolítica & Guerra



James Galbraith, entrevistado por Thiago Gama

Ao começar a quarta semana da guerra, Donald Trump piscou – ou por insegurança, ou por ardil. Na madrugada de 23/3, os mercados financeiros estavam em pânico, com quedas que poderiam ter efeitos devastadores. O presidente precisava agir. Pouco depois das 7 da manhã, ele “anunciou” em rede social que os EUA haviam aberto negociações com o Irã; que desejava um acordo; e que, por isso, resolvera suspender os ataques à infraestrutura do país. As autoridades iranianas negaram, em poucas horas, a existência de negociações. Mas os cassinos globais estavam sedentos de boas notícias – verdadeiras ou falsas. O barril de petróleo recuou um pouco, para a faixa dos 100 dólares (com alta 40% desde o inicio da guerra) e as bolsas, que despencavam, amenizaram as perdas.

Um conjunto de sobressaltas alarma a economia do Ocidente, desde que Trump interrompeu negociações e agrediu com selvageria o Irã em 28/2, esperando uma vitória rápida. A interrupção do tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz afetou 33% do comércio mundial de petróleo, 20% do de gás natural liquefeito, 40% do de fertilizantes e quase metade do de hélio e enxofre, indispensáveis para a produção de microchips. A revista “Economist” prevê que, ainda que a guerra terminasse hoje, o abastecimento de petróleo tardaria meses para se normalizar e o cenário seria catastrófico. As grandes empresas de aviação, cuja receita ampara-se em boa medida nas receitas dos ricos e movimentadíssimos aeroportos dos Emirados Árabes, temem uma crise semelhante à da pandemia.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial da Água —Em Brasília, especialistas denunciam ‘desidratação planejada’ do Cerrado

Segunda dia, 23 de março de 2026

Dia Mundial da Água

Em Brasília, especialistas denunciam ‘desidratação planejada’ do Cerrado


Responsável pelo abastecimento hídrico, bioma enfrenta processo de degradação
Brasil de Fato — Brasília (DF)
23.mar.2026
Kennedy Cruz

Roda de conversa no Eixão do Lazer, reuniu especialistas e movimentos sociais no Dia Mundial da Água. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

No Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo (22), uma roda de conversa realizada no Eixão do Lazer, reuniu especialistas e movimentos sociais para alertar sobre o avanço da degradação do Cerrado. O ato faz parte da campanha Cerrado Coração das Águas e reforçou o diagnóstico de que o bioma não enfrenta apenas uma seca, mas um processo de destruição que compromete a segurança hídrica do país.

Para a professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante o atual ritmo de devastação equivale a um crime contra o conhecimento acumulado por milhões de anos. “Queimar o Cerrado é queimar uma biblioteca como quando se teve o incêndio da Biblioteca de Alexandria e se queimou boa parte do conhecimento da antiguidade”, comparou a pesquisadora.

Ensino Superior —Tribunal de Contas investiga governo de Ibaneis por retenção ilegal de R$ 219 milhões da universidade do DF


Segunda, 23 de março de 026

Ensino Superior
Tribunal de Contas investiga governo de Ibaneis por retenção ilegal de R$ 219 milhões da universidade do DF

Falta de repasses ao fundo da universidade motiva investigação por possível asfixia orçamentária

Brasil de Fato — Brasília (DF)

Legenda (final, mais forte): Precariedade em campus da UnDF e protestos estudantis evidenciam impacto da falta de recursos investigada pelo TCDF. | Crédito: Divulgação/UnDF

O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) admitiu, nesta quinta-feira(19), uma representação que denuncia o descumprimento, por parte do Governo do Distrito Federal (GDF), dos repasses financeiros obrigatórios ao Fundo da Universidade do Distrito Federal (FUNDF).

De acordo com o documento protocolado pelo deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF), o governo Ibaneis Rocha (MDB) deixou de transferir R$ 219.281.957,00 entre 2022 e 2025, o que teria comprometido a estruturação da universidade recém-criada.

A denúncia aponta que, enquanto o governo apresenta a Universidade do Distrito Federal Jorge Amaury Maia Nunes (UnDF) como vitrine institucional, a execução financeira do fundo no período foi de apenas 3,62%. Na prática, dos recursos destinados a obras, laboratórios e pesquisas, cerca de R$ 7,4 milhões foram efetivamente pagos.

Ciências indígenas contra desinformação climática

Segunda, 23 de março de 2026







Ciências indígenas contra desinformação climática

Fortalecimento da Lei 11.645, de 2008, fornece subsídios para construção de rotas de fuga da crise climática

Luma Ribeiro Prado - Educadora e pesquisadora no ISA

Rosenilda Luciano - Do povo Sateré-Mawé, integrante do FNEEI e da ANMIGA


Conhecimento tradicional
Patrimônio
Política e Direito
Políticas públicas

*Artigo originalmente publicado no Mídia Ninja, no dia 17/03/2006

Em um cenário de emergência climática e disputa de narrativas acirrada pela polarização política e fundamentalismo religioso, a escola – lugar estratégico na formação de novas gerações – tem sido palco de desinformação sobre o tema, como apontou a agência Aos Fatos.

Integrantes da Fneei pedem o reconhecimento das histórias, saberes e territórios indígenas nos currículos escolares, durante o ATL 2025 📷 Oziel Ticuna/FNEEI

De um lado, a organização De Olho no Material Escolar (DONME) que, desde 2021, tem unido esforços para interferir na representação do agronegócio nos materiais didáticos, exercendo pressão sobre as principais editoras do Brasil para construir uma imagem ainda mais positiva do “agro”.

Assim, o lobby do DONME opera para a continuidade de um modo de vida no planeta que contribui para a situação de crise que vivemos: omitindo danos deste grupo econômico, como o desmatamento e as queimadas.

Do outro lado, o movimento indígena e socioambientalista, desde a década de 1970, vem trabalhando por uma educação que reconheça as ciências indígenas na promoção de práticas sustentáveis alinhadas à preservação do ecossistema e da biodiversidade, e represente a sociodiversidade brasileira de forma justa.

Uma conquista é a Lei 11.645/2008, que há 18 anos tornou obrigatório o ensino de histórias e culturas indígenas e afro-brasileiras em todas as escolas do país. Medida de reparação histórica, justiça curricular e que está em consonância com a urgência ambiental do século XXI, a Lei, no entanto, tem tido baixa implementação, como demonstrou o Diagnóstico Equidade, do Ministério da Educação.

domingo, 22 de março de 2026

Cerco econômico —Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

 Domingo, 22 de março de 2026

Cerco econômico Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

Victor Cairo rebate declaração de Trump, revela três meses sem combustível e pede apoio material a aliados

Brasil de Fato — Brasília (DF)
Camila Araujo

Embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na UnB | Crédito: Camila Araújo/BdF DF

Cuba completa três meses sem receber combustível, enfrenta a mais severa ofensiva dos Estados Unidos em 50 anos e vive uma situação de “guerra”, não de crise. O alerta é do novo embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na Universidade de Brasília (UnB) nesta terça-feira (17).

“Vivemos 60 anos de cerco econômico; agora vivemos uma guerra”, afirmou o diplomata durante a abertura do curso Processos históricos de Cuba e Contexto atual, promovido pelo Núcleo de Estudos sobre Cuba (Nescuba).

Atuando há menos de um mês no Brasil, após exercer a função diplomática no Panamá desde 2022, Cairo rebateu diretamente a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a ilha seria um “estado falido”.

“Cuba é um estado em guerra, não um estado falido”, declarou. Em recente fala, Trump chegou a dizer que tem o direito de fazer “qualquer coisa” com Cuba, ameaçando tomar o controle do território.

Segundo o embaixador, os Estados Unidos tentam, “pela primeira vez em 50 anos, agredir Cuba pela via armada”. O instrumento principal seria o que chamou de “cerco econômico, comercial e energético”, intensificado desde o final de 2025 com a promessa de sanções a países que vendam petróleo à ilha socialista.

“O cerco econômico, comercial e energético nos obriga a pensar que existe uma intenção do presidente dos EUA [Trump] e do secretário de Estado [Marco Rubio] hoje em sufocar e assassinar Cuba de fome, miséria e ruptura da vida, e crise humanitária”, denunciou.

A situação energética é particularmente grave no país caribenho. Com cerca de 80% da energia gerada por termelétricas alimentadas por combustíveis, a nova medida do governo Trump reduziu drasticamente a possibilidade de compra de petróleo no mercado global.

O quadro foi agravado pelo bloqueio naval dos EUA à Venezuela, implementado a partir do final de 2025. A Venezuela, aliada histórica de Cuba, era responsável por suprir grande parte da demanda energética da ilha em condições preferenciais. O bloqueio tornou-se, assim, um golpe direto na já fragilizada matriz energética cubana.

Abertura do curso "Processos históricos de Cuba e Contexto atual", promovido Nescuba
Abertura do curso “Processos históricos de Cuba e Contexto atual”, promovido Nescuba | Crédito: Camila Araujo/BdF DF

‘Catástrofe humanitária’

Segundo o embaixador, a falta de combustíveis não é um problema setorial, mas uma catástrofe humanitária em curso. “Impacta a saúde, a educação, o transporte de alimentos, a cadeia de distribuição de medicamentos e o turismo, diminuindo a quantidade de aviões que podem chegar ao país”, enumerou.

Ao descrever o cotidiano dos cubanos, Cairo falou em hospitais que reduzem operações, em transporte público parado, em cadeias de distribuição de medicamentos rompidas. “Lutamos e trabalhamos com o mínimo recurso e temos que reduzir o transporte público, as horas de trabalho, as operações nos hospitais, tendo que parar o processo de produção”, revelou.

Como consequência direta da pressão norte-americana, os governos de Honduras e da Jamaica encerraram acordos de décadas que permitiam a atuação de brigadas médicas cubanas em seus territórios.

O Brasil tem um papel estratégico neste momento. “Se o Brasil joga forte, Cuba não estará sozinha”, declarou o embaixador, reconhecendo a posição do presidente Lula em defesa da soberania cubana e as doações brasileiras de medicamentos e alimentos, com a expectativa de uma nova remessa com soja, feijão e arroz. Cairo, no entanto, descreveu o limite da ajuda: o governo brasileiro não envia combustível à ilha, temendo os efeitos das sanções.

Solidariedade

O evento reuniu solidariedade internacional e vozes de diferentes gerações em defesa da soberania cubana.

A professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César, que visita Cuba desde 1994, trouxe a perspectiva histórica. Ela contou que nunca viu o país em uma situação tão preocupante como a de agora.

“Estive em Cuba na década de 1980, estive no período especial. Cuba conseguiu sobreviver porque, mesmo sendo um período muito difícil, a solidariedade cotidiana é algo maravilhoso. Agora, Cuba depende de uma batalha de ideias e uma batalha material. Cuba necessita muito mais.”

Professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César
Professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César | Crédito: Camila Araujo/BdF DF

Na mesma linha, o representante da embaixada do Irã no Brasil, Ali Mir, prestou solidariedade ao povo cubano e reagiu a uma fala do embaixador. “Se a única coisa que resta para os Estados Unidos é o poder militar, acho que o Irã vai acabar com isso também”, disse, seguido de aplausos.

O venezuelano Freddy Meregote, que protagonizou uma resistência contra a tentativa de invasão à embaixada da Venezuela em novembro de 2019, afirmou: “Temos que fazer esforço, os povos do mundo, para retirar o bloqueio contra Cuba.”

Já a jovem Yara Flor, estudante do ensino médio, de 17 anos, representou a voz da nova geração. Ela afirmou que “é uma barbaridade e uma coisa terrorista que os Estados Unidos fazem em Cuba” e que é preciso “conscientizar as pessoas nas universidades e escolas, já que muitas pessoas não sabem o que está acontecendo”.

Flotilha Nossa América

Uma campanha de solidariedade tem mobilizado parlamentares, dirigentes sindicais e representantes estudantis brasileiros que participam de uma caravana internacional de solidariedade a Cuba. O grupo pretende levar mais de 20 toneladas de produtos para ajuda humanitária ao país caribenho.

Flotilha Nossa América está marcada para partir no sábado (21), por via marítima, aérea e terrestre.

No sábado, 21 de março, mais de 20 toneladas de alimentos, medicamentos e insumos deixarão o Brasil em direção a Havana. A Flotilha Nossa América não leva apenas ajuda humanitária. Leva, nas palavras da professora Maria Auxiliadora, “a certeza de que a solidariedade cotidiana ainda é capaz de furar bloqueios”.


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Editado por: Flavia Quirino


Cerco econômico —Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

Domingo, 22 de março de 2026

Cerco econômico Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

Victor Cairo rebate declaração de Trump, revela três meses sem combustível e pede apoio material a aliados

Brasil de Fato — Brasília (DF)
Camila Araujo

Embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na UnB | Crédito: Camila Araújo/BdF DF

Cuba completa três meses sem receber combustível, enfrenta a mais severa ofensiva dos Estados Unidos em 50 anos e vive uma situação de “guerra”, não de crise. O alerta é do novo embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na Universidade de Brasília (UnB) nesta terça-feira (17).

“Vivemos 60 anos de cerco econômico; agora vivemos uma guerra”, afirmou o diplomata durante a abertura do curso Processos históricos de Cuba e Contexto atual, promovido pelo Núcleo de Estudos sobre Cuba (Nescuba).

Atuando há menos de um mês no Brasil, após exercer a função diplomática no Panamá desde 2022, Cairo rebateu diretamente a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a ilha seria um “estado falido”.

“Cuba é um estado em guerra, não um estado falido”, declarou. Em recente fala, Trump chegou a dizer que tem o direito de fazer “qualquer coisa” com Cuba, ameaçando tomar o controle do território.

Segundo o embaixador, os Estados Unidos tentam, “pela primeira vez em 50 anos, agredir Cuba pela via armada”. O instrumento principal seria o que chamou de “cerco econômico, comercial e energético”, intensificado desde o final de 2025 com a promessa de sanções a países que vendam petróleo à ilha socialista.