Rentismo, teu nome é solidão
Em meio à desigualdade brutal, maiorias vivem o inferno do trabalho massacrante e sem futuro, da pobreza e do impossível desfrute coletivo. Mas também os ricos, ainda que opulentos, debatem-se em competição por dinheiro e vidas sem sentido
Publicado originalmente no OUTRASPALAVRA em 04/03/2026

Título original:
A erosão da sociabilidade: resgatando a colaboração e o convívio
Algumas coisas vão muito além da América Latina, elas nos dizem respeito como seres humanos. Certamente precisamos de uma análise social geral, mas como nos sentimos nesta sociedade, como indivíduos, como famílias, como bairros ou comunidades, também é essencial para nosso bem-estar. Isso vai muito além da economia e das lutas de classes. Envolve pessoas sentadas em ônibus ou no metrô, longas horas para ir a escolas ou empregos, um cenário desanimado de pessoas grudadas em seus smartphones. Os beneficiados nem sempre estão melhor: filas de carros, cada um com um indivíduo impaciente e irritado com o trânsito. Quanta lentidão, considerando que muitos compraram o carro entusiasmados com números impressionantes de velocidade que ele pode alcançar em segundos. Em São Paulo, a perda média diária de tempo no transporte chega a 3 horas, e mais de 5 para pessoas mais pobres que vivem nas periferias. Você poderia estar estudando, fazendo algo útil, passando tempo com sua família. Bem, o PIB sobe, então temos mais carros e mais tempo desperdiçado. A velocidade média dos automóveis em São Paulo caiu para 14 quilômetros por hora, e mais carros estão chegando. Mais PIB. Uma cidade se paralisar por excesso de meios de transporte é até curioso. Shanghai e Beijing têm cada uma mais de mil quilômetros de linhas de metrô. São Paulo tem 104.
Isso, é claro, é apenas um aspecto da nossa reorganização social. Nascemos com cerca de 33 mil dias pela frente, é o nosso capital mais precioso, o tempo das nossas vidas. O que fazemos com ele? Correndo atrás de mais dinheiro? Pesquisas sobre como nossa qualidade de vida está correlacionada com nossa prosperidade financeira são interessantes: se você é muito pobre, cada quinhentos reais a mais por mês faz uma enorme diferença, alimentando melhor seus filhos, melhorando sua casa e assim por diante. O dinheiro na base – a base aqui é cerca de dois terços da população, com enormes diferenças entre países – é radicalmente mais útil e produtivo do que o dinheiro no topo. Quando você alcança o que Tom Malleson chama de “uma vida confortável e florescente”, a felicidade dependerá não de mais dinheiro, mas da vida familiar, amigos, ambiente cultural, a sensação de estar fazendo algo útil, o que podemos chamar de uma vida socialmente rica. O resto, passar a vida acumulando mais dinheiro, mais milhões, hoje em dia ainda mais bilhões, não tem a ver com uma vida rica, mas com ego. Muitas pessoas só conseguem sentir que estão subindo se conseguirem empurrar outras pessoas para baixo ou olhar para elas de cima. Na verdade, para onde estamos indo? Nosso capital do tempo está voando.




como os mecanismos financeiros alimentam o endividamento público sem contrapartida em investimentos sociais;
o papel do Banco Central e da dívida dos estados na perpetuação desse sistema;
as consequências sociais e econômicas do Sistema da Dívida;
a importância da auditoria integral e da mobilização popular para reverter esse cenário..jpeg)








