Por Fernando Rosso, no El Salto| Tradução: Rôney Rodrigues
Jorge Luis Borges dizia que os espelhos eram abomináveis, entre outras coisas, porque sempre devolviam uma ameaça. A suspeita inquietante de que o reflexo, a qualquer momento, pudesse começar a se independizar do corpo. Algo disso ocorre com o governo de Javier Milei. Ele mantém a pose, os gestos, a narrativa exaltada com que desembarcou na Casa Rosada. Mas o duplo já não obedece. O discurso avança por um lado e a experiência social por outro. Nessa separação começa o verdadeiro desgaste de um poder: formalmente não perde o comando, mas já não tem a capacidade de nomear o que acontece no país.
Durante meses, a situação governamental viveu de uma promessa simples, brutal e eficaz: suportar para sair. A pedagogia do sacrifício. Aguenta a liquefação das rendas, a poda dos gastos, a demolição da obra pública, com a expectativa de uma recompensa futura. Aquele contrato precário dependia de uma condição: que a realidade oferecesse alguma evidência de redenção. Essa evidência era, acima de tudo, a inflação. Enquanto o índice desacelerasse ou, pelo menos, se mantivesse estável, o sofrimento poderia ser contado como uma algo transitório.
O dado da inflação de março caiu como uma lasca no centro do discurso oficial. O Índice de Preços ao Consumidor subiu 3,4% no mês, acumulou 9,4% no primeiro trimestre e 32,6% em 12 meses. Os preços regulados subiram 5,1%, impulsionados por transporte, tarifas e educação. Não se trata do velho incêndio inflacionário argentino, mas sim de um golpe político preciso: o governo havia feito da desinflação seu certificado de legitimidade. O próprio Milei reconheceu nestes dias “problemas econômicos” e pediu “paciência”, sinal de que a autossuficiência de outrora começou a rachar.
A inflação, além disso, deixou de ser a única ou a principal linguagem do mal-estar. A última pesquisa da Universidade de San Andrés mostrou, no final de março, que os baixos salários e a falta de trabalho passaram a encabeçar as preocupações sociais. É um deslocamento decisivo. Se a uma inflação que nunca termina de ir embora como problema se somam a renda e o emprego, entra em discussão o sentido completo do programa econômico.
Esse sentido se torna cada vez mais difícil de defender no terreno da economia real. Em fevereiro, a indústria manufatureira caiu 8,7% em relação ao ano anterior e 14 dos 16 ramos terminaram em baixa; o acumulado do primeiro bimestre marcou uma contração de 6%. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego chegou a 7,5% no quarto trimestre de 2025. O consumo, esse plebiscito silencioso que se vota todos os dias no carrinho de supermercado, também não acompanha: as vendas no varejo caíram 0,6% em relação ao ano anterior em março e completaram onze meses consecutivos em retrocesso, segundo a câmara que reúne as pequenas e médias empresas. A cena é conhecida: equilíbrio de laboratório, esfriamento produtivo, mercado interno exausto, recomposição muito parcial para setores muito delimitados.
A pesquisa da Tendencias publicada em abril deu números a essa deterioração cotidiana. 41,3% dos entrevistados disseram que não conseguem chegar ao fim do mês; apenas 15,3% afirmam que conseguem poupar. Entre as principais preocupações aparecem também aqui os baixos rendimentos, a pobreza e a corrupção.
Toda política de ajuste duro acaba escrevendo seus efeitos na vida cotidiana. No caso de Milei, esse texto já não se lê de forma abstrata. Lê-se no transporte e na obra social dos aposentados (PAMI). Na Área Metropolitana de Buenos Aires (a maior concentração urbana do país), a Secretaria de Transporte teve que anunciar uma transferência complementar às empresas de ônibus para evitar uma maior deterioração do serviço, em meio a uma dívida que fontes do setor situam perto de 95 bilhões de pesos [80 milhões de euros] e a frequências que continuaram longe do normal. No PAMI (Programa de Atendimento Médico Integral), o quadro é ainda mais brutal: dívida com prestadores de cerca de 500 bilhões de pesos [417 milhões de euros], greve de 72 horas de médicos de família e dentistas, e uma transferência oficial de 150 bilhões de pesos [125 milhões de euros] para tentar normalizar o conflito.
A deterioração material machuca. Mas a deterioração simbólica pode ser ainda mais letal para um governo que chegou envolto em uma moralina purificadora. Milei venceu prometendo dinamitar a casta, expor os privilegiados, varrer os conchavos. Por isso os escândalos não caem sobre uma superfície neutra: caem sobre o centro mesmo de sua legitimidade. O caso de Manuel Adorni — ex-porta-voz presidencial, atual chefe de Gabinete —, investigado por suposto enriquecimento ilícito, já não funciona como uma anedota de palácio. A Justiça confirmou novos elementos — além da forma duvidosa de aquisição de imóveis — ligados a viagens a Aruba com sua família e a gastos sob exame. O governo respondeu com blindagem, mas blindar já não equivale a fechar. Às vezes equivale a encapsular o problema para que fermente por dentro. Paralelamente, o escândalo dos créditos hipotecários do Banco Nação a funcionários e legisladores da situação terminou de furar o roteiro moral do governo.
Em outro momento, o mileísmo teria tentado liquefazer tudo isso no turbilhão digital. Esse recurso também mostra sinais de esgotamento. O relatório da consultoria Ad Hoc sobre março resumiu o problema com uma definição: Milei “fecha outro mês com negatividade”. O relatório aponta que a crise comunicacional de Adorni foi o fato político do mês e que as menções ao funcionário septuplicaram em relação a fevereiro; além disso, registra que o enquadramento governista sobre a última ditadura militar e o aniversário do golpe de 24 de março (que vai do negacionismo do genocídio à “teoria dos dois demônios”) perdeu protagonismo até mesmo no ecossistema que costumava ser mais hospitaleiro para a comunidade libertariana. Em outras palavras: o governo ainda ocupa o centro da conversação digital, mas já não o faz em seus próprios termos. Sua “rua online”, que soube funcionar como caixa de ressonância e força de choque, mostra sinais de exaustão. A maquinaria de produzir clima continua ali, mas já não tem o monopólio do ânimo.
As pesquisas acompanham esse deslocamento. A AtlasIntel para a Bloomberg registrou em março uma aprovação presidencial de 36,4% e uma desaprovação de 61,6%, o pior dado para Milei desde sua chegada ao poder. Na política, os números importam menos pelo que fotografam do que pelo que permitem. A perda do medo, da expectativa e da centralidade que mantinha aliados disciplinados e observadores expectantes faz com que todo o sistema comece a farejar fragilidade. A decadência de um governo não se mede apenas pelo que cai. Mede-se também pelo que ele não consegue convocar como antes. Milei conseguiu durante meses impor uma sensibilidade: irreverência, velocidade, provocação, desprezo pelas mediações. Essa sensibilidade já não organiza o clima nacional. Ele perdeu a iniciativa e aquela pequena eletricidade que lhe permitia transformar cada tropeço numa demonstração de força.
Nesse quadro, também dentro do universo opositor se registram movimentos interessantes. Algumas medições recentes mostram um quadro mais competitivo entre o peronismo e A Liberdade Avança, com uma queda da imagem presidencial e um crescimento de referências opositoras. Entre elas, a Frente de Esquerda e, de modo particular, Myriam Bregman, aparecem como sintomas de uma busca. Não porque a esquerda tenha resolvido sozinha o problema da representação das grandes maiorias nem porque esteja diante de uma tradução automática do mal-estar social. Mas sim porque, num cenário de frustração com a situação e de desconfiança com as oposições tradicionais, sua ascensão relativa aponta algo politicamente importante: há um setor da sociedade que começa a olhar com menos prevenção e mais atenção para aqueles que nomearam desde o início o caráter regressivo, cruel e elitista deste experimento, e agiram nesta esteira
Essa novidade não resolve por si só o problema da alternativa. Mas modifica o diálogo. Milei foi sustentado durante bastante tempo por uma espécie de chantagem histórica: isto ou o retorno do passado. Essa fórmula perde rendimento quando o presente se torna áspero demais e quando, além disso, a oposição tradicional também não consegue representar uma saída vigorosa e, sobretudo, programaticamente consistente.
O governo de Milei atravessa seu pior momento porque se juntaram a ele as contas, os corpos e os símbolos. A inflação voltou a acelerar. O consumo se arrasta. O desemprego se mantém em níveis altos. O transporte range. O PAMI afunda numa crise socialmente obscena. Os casos Adorni e Banco Nação danificam o coração moral de uma administração que prometeu uma regeneração purificadora. E o universo digital, que era uma extensão de sua potência, transformou-se num campo mais instável e menos dócil. Mais do que uma soma mecânica de más notícias, trata-se da estrutura de uma decadência.
Essa estrutura produz uma consequência conhecida: o enclausuramento. Os governos que param de persuadir começam a se administrar como seita. Passam uma imagem de corte, de panelinha, de pequeno círculo sitiado. Veem conspirações por todos os lados. Reforçam a voz porque perderam a escuta. Tornam-se supersticiosos com os seus próprios slogans. Acreditam que ainda conduzem aquilo que mal conseguem comentar. O mileísmo começou a entrar nessa câmara de eco. E uma câmara de eco, por definição, não amplifica a realidade: ela a deforma.
Nada disso garante um desfecho favorável para aqueles que querem derrotá-lo. A história não distribui prêmios por desgaste alheio. Um governo pode cair em descrédito e, ainda assim, prolongar seu domínio e até causar mais dano se do outro lado não cristalizar uma força com programa, vontade e vocação transformadora. O pior erro seria ler a crise de Milei como substituta da tarefa política. Não basta que o espelho devolva fissuras.
Porque os governos se enclausuram em si mesmos quando já não podem oferecer mais do que seu próprio reflexo. E as sociedades começam a sair quando deixam de olhá-los com medo e passam a olhar umas para as outras. Aí, nesse movimento ainda disperso, ainda incompleto, ainda cheio de incerteza, pode estar a parte esperançosa desta história: mais do que a certeza de uma queda alheia, a lenta possibilidade de uma reconstrução própria.
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Fernando Rosso
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