Quinta, 26 de março de 2026
Gaza: Há luz no fim do túnel para o Ocidente?
Não haverá mais vida na Faixa – casas reconstruídas, escolas, hospitais –, porque Israel não pode tolerar a memória do que praticou. Igualmente brutais são a censura e o silêncio frente ao terror. Há redenção enquanto o sionismo existir?
Foto: Jehad Alshrafi/AP
Livros utilizados pelo autor: Didier Fassin, Moral Abdication: How the World Failed to Stop the Destruction of Gaza, Londres, Verso, 2024, 128 pp. | Pankaj Mishra, The World After Gaza, Londres, Fern Press, 2025, 292 pp.
A destruição de Gaza, o extermínio da sua sociedade, terminará antes de ambos se completarem absolutamente? Não, se o governo de Israel, a maioria dos seus cidadãos e os Estados Unidos conseguirem o que querem. Israel nunca fará as pazes com o povo palestino, nem em Gaza, nem em Jerusalém, nem na Cisjordânia. Enquanto houver palestinos entre o rio e o mar, eles serão um obstáculo para Israel e a missão não estará cumprida. Na verdade, agora, após dois anos de massacres e extermínio, a paz, sejam quais forem os seus termos, não seria mais do que uma catástrofe nacional para Israel, uma derrota devastadora. A paz teria que pôr fim ao bloqueio de Gaza, que já dura quase duas décadas, subsidiado por quatro presidentes estadunidenses: Bush, Obama, Biden e Trump. Os habitantes da Faixa de Gaza teriam que ser libertados da sua prisão ao ar livre e deveria ser permitida a entrada de visitantes. Muitas mais imagens viriam a público do que as que têm surgido até agora de uma paisagem devastada, cujas casas, escolas, hospitais, igrejas e universidades foram irremediavelmente danificadas. Seriam contadas histórias de crianças sem pais, de pais sem filhos, de famílias sem mães ou pais, de seres definhados, famintos, aleijados no corpo e na alma. Seriam iniciadas investigações, e não apenas por parte da corrupta Autoridade Palestiniana paga por Israel: testemunhas seriam ouvidas, memórias registradas, acontecimentos reconstituídos, os comandantes israelenses responsáveis pelos piores crimes seriam identificados e o genocídio deixaria de ser uma abstração jurídica. O Estado de Israel acabaria finalmente por se tornar um Estado pária, como a Alemanha teria sido depois de 1945, não fosse porque os seus amigos estadunidenses precisavam de um aliado vassalo contra a União Soviética e que fosse também funcional para lançar a Guerra da Coreia. “Desfruta da guerra, a paz será terrível”, costumavam sussurrar os alemães entre si, quando a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim.