Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

sábado, 30 de agosto de 2025

Por dentro do idec. Seu informe sobre cidadania e consumo

Sábado, 30 de agosto de 2025

Do Idec 


Cabeçalho | Por Dentro - Idec
Seu informe sobre cidadania e consumo
29 de agosto de 2025
De olho na luta

TELECOMUNICAÇÕES E DIREITOS DIGITAIS

🙌 Lei que protege crianças na internet aprovada!

Estivemos na luta no Congresso em favor das nossas crianças. Nossa participação ativa foi crucial para que a Câmara e, agora, o Senado Federal votasse a favor da lei que protege crianças na internet, principalmente em redes sociais. Agora, o texto vai à sanção do presidente da República. A lei é um marco na defesa da infância, principalmente em questões que envolvem a adultização, exploração das crianças e adolescentes e publicidade infantil. Matéria Prima

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E SUSTENTÁVEL

🛒 Quanto custa a cesta básica em cada Estado?

Agora é possível saber! Estivemos presentes no lançamento da Pesquisa Nacional de Preços da Cesta Básica, que pela primeira vez cobre todos os estados do Brasil. Descobrimos que Aracaju tem a cesta mais barata e São Paulo a mais cara - e esses dados vão ajudar a pressionar por políticas públicas mais justas. Com informação transparente, a gente combate abusos e defende seu direito à comida saudável a preço acessível! Idec

🍔 Ultraprocessado "saudável" é mito!

Não existem ultraprocessados "menos piores", mesmo os com menos açúcar, sal e gordura ainda são ruins para a saúde! A pesquisa comparou dietas equivalentes e mostrou que quem comeu comida de verdade perdeu o dobro de peso e gordura corporal. A gente sempre alertou sobre isso e agora a ciência confirmou. Não caia no conto do "ultraprocessado saudável" da indústria, ela tem várias estratégias para te enganar! O Joio e o Trigo

CONSUMO SUSTENTÁVEL

🤡 O que? Mineradora financiada pelo Fundo Clima?

É isso mesmo. Fizemos um estudo de caso que mostra que uma mineradora que atua no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, recebeu recursos do Fundo Clima do BNDES para explorar lítio na região. O problema é que ela tem várias denúncias da comunidade local de violações de direitos humanos e ambientais. GBR

Quer dar mais força a nossa luta para enfrentar os gigantes que desrespeitam nossos direitos? Junte-se ao Idec!

ENERGIA E SUSTENTABILIDADE

⚡ O que passa com a conta de luz que só aumenta?

Se está achando a conta de luz um absurdo, você não está sozinho! As tarifas subiram porque o governo insiste em usar termelétricas caras e repassar subsídios injustos pra gente. Enquanto isso, famílias pobres chegam a gastar 18% da renda só com energia. Por isso, pressionamos por tarifas inteligentes que cobrem menos fora do horário de pico, combatemos subsídios para grandes empresas e lutamos por transparência total na fatura. Idec

SAÚDE

😮 Plano de saúde coletivo subindo 3x mais

Os planos coletivos estão aumentando até 25% em 2025 - três vezes mais que o limite dos planos individuais! E quem paga a conta somos nós. Mas a gente não fica parado: pressionamos a ANS por regras mais justas e mostramos como lutar contra esses abusos. Se seu plano subiu muito, você pode ter direito a revisão. Não deixe passar! O Globo

🌿 Sua saúde está conectada com a do planeta!

A gente participou da consulta pública do plano "Uma Só Saúde" para garantir que políticas públicas integrem saúde humana, animal e ambiental. Focamos em combater o uso excessivo de antibióticos na pecuária - que gera superbactérias - e defendemos transparência, participação social e respeito aos saberes tradicionais. Queremos um plano com ações concretas, não só no papel! Seguimos pressionando por políticas que priorizem a saúde das pessoas e do planeta, não os lucros de poucos. Linkedin

Idec Orienta
Idec Orienta

Recebeu o boleto do plano de saúde e veio um aumento chocante?

Os reajustes dos contratos de planos coletivos novos não são controlados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa omissão, no entendimento do Idec, não tem respaldo legal.

Inicialmente, leia seu contrato e confira se as cláusulas atinentes ao reajuste anual são expressas e delimitam o índice a ser usado para tanto. Em caso negativo, pode-se entrar em contato com a operadora ou com a ANS.

O Idec esclarece que, enquanto o contrato de plano de saúde estiver em vigor, o consumidor pode questionar a abusividade de uma cláusula de reajuste a qualquer momento.

Utilize nossos modelos de carta para verificar junto à Agência autorização do reajuste, para solicitar explicações das operadoras, denunciar e até mesmo impedir o reajuste.

RECLAME SEUS DIREITOS

Se precisar de orientação especializada para exigir seu direito de alguma empresa, nosso atendimento pode te ajudar. Associe-se!

 
Dicas

📱 Uso de telas na infância: como lidar?

São muitos os muitos problemas que envolvem a relação entre crianças e tecnologia e vários deles existem por falta de uma regulação e fiscalização governamental. Por isso, nós separamos 11 recomendações e dicas sobre o tema - 6 para pais, mães e responsáveis e 5 para governos - que ajudam a melhorar essa situação e garantir um bom desenvolvimento para as crianças e adolescentes. Confira


Conte com a gente para explorar um conteúdo relevante — e conte o que você achou.

AVALIE ESTA EDIÇÃO

DEIXE SEU COMENTÁRIO
 

Na nossa newsletter exclusiva, você recebe em primeira mão conteúdos selecionados, orientações aprofundadas, dicas práticas e bastidores das ações do Idec que só os associados e associadas têm acesso.

ASSOCIE-SE E RECEBA

Acompanhe nossas redes, compartilhe e aumente o impacto do nosso trabalho!

Produzimos conteúdo gratuito para empoderar os consumidores a exigirem seus direitos.

Ícone Facebook   Ícone Twitter   Ícone Instagram   Ícone Linkedin   Ícone Youtube

Compartilhe essa newsletter diretamente com amigos e familiares:

  Compartilhe no Whatsapp  
  Compartilhe no Telegram  
  Compartilhe no Facebook  
Logo Idec - Instituto de Defesa de Consumidores
ALIMENTAÇÃO | FINANCEIRO | SAÚDE | TELECOMUNICAÇÕES | MOBILIDADE | ENERGIA | SUSTENTABILIDADE
Ícone Facebook Ícone Twitter Ícone Youtube 
 
 
Nós respeitamos seu direito a privacidade.
Caso não queira mais receber nossas mensagens, você pode cancelar sua inscrição aqui.


 
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
Av. Marquês de São Vicente, 446 - Salas 411/412 - Barra Funda - São Paulo, SP 01139-000 Brasil

Para garantir que nossos comunicados cheguem em sua caixa de entrada e você fique por dentro de todas as novidades, adicione o e-mail info@email-idec.org.br ao seu catálogo de endereços. O Idec respeita a sua privacidade. Conheça nossa política de privacidade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Viva o intelectual orgânico Raduan Nassar

Sexta, 29 de agosto de 2025

Viva o intelectual orgânico Raduan Nassar
 

Roberto Amaral*

“Considero-me de esquerda sim e fico com a bela definição de Pepe Mujica: ‘é uma posição filosófica perante a vida, onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo’”.
— Raduan Nassar

O intelectual orgânico dos trabalhadores, necessariamente de esquerda, denuncia a luta de classes; o intelectual orgânico da classe dominante, necessariamente conservador ou de direita, também procura intervir na realidade, mas para impedir o parto do futuro. Muitas vezes não lhe basta a conservação do statu quo: intervém para reaver o passado. 

Presentemente assistimos ao assalto ideológico da direita.

Embora não possa escolher o seu tempo, aquele no qual terá de realizar sua existência, é imperativo para o escritor, intelectual orgânico, representante sempre de uma visão ideológica do mundo, definir-se diante da luta de classes e, assim, definir o caráter de seu papel como agente histórico.

O escritor reproduz sua visão de mundo toda vez que escreve ou deixa de escrever. Baudelaire definiu-se diante das revoluções de 1848. Combateu-as e, pelo resto da vida, fez-se adversário das noções de progresso e liberdade, construindo visível contradição entre vida e obra, entre o intelectual e o poeta. Balzac permaneceu indiferente diante da Comuna de Paris. Sartre — ele mesmo intelectual permanentemente engajado — lembra o silêncio de Flaubert e de Goncourt diante da repressão à Comuna, para mostrar como ambos se definiram optando pela omissão, que, numa tábua de valores, tem tanto significado quanto a intervenção de Zola, o qual, sem temer a força das circunstâncias, optou pela defesa da liberdade do capitão Alfred Dreyfus, como antes se havia definido Voltaire — talvez um dos  primeiros dos intelectuais engajados — no caso Calas.

Quantos intelectuais brasileiros contemporâneos de Joaquim Nabuco e José do Patrocínio mantiveram-se silentes diante do escravismo? Quantos, na República, silenciaram diante do massacre que se sucedeu à Revolta da Chibata? Quantos se mantiveram calados e passivos diante do Estado Novo? Quantos marcharam ao lado de Miguel Reale Jr., jurista social-democrata e autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, costurado com o então presidente da Câmara dos Deputados?

Niomar Moniz e Roberto Marinho, com seus Correio da Manhã e O Globo, respectivamente, optaram de maneira distinta diante da ditadura militar, conscientes ambos — ela dos riscos, ele dos benefícios — quanto ao que nenhum dos dois estava errado, como demonstrou a história. Igualmente, numerosos empresários de grosso calibre financiaram o golpe de 1º de abril de 64 e sustentaram a ditadura. No lado oposto, tivemos exemplos raros — e por isso dignos de celebração — como o de Fernando Gasparian, intelectual orgânico, fundador do semanário Opinião, trincheira de resistência política à ditadura. Combateram-na, entre muitos, Antônio Houaiss, Ênio da Silveira, Carlos Heitor Cony, Amelinha Teles, Celso Furtado e Chico Buarque de Holanda, entre tantos que conheceram a repressão e o exílio, enquanto outros, com larga presença na imprensa a defendiam, como Rachel de Queiroz e Rubem Fonseca.

Raduan Nassar, um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX, completará 90 anos no dia 27 de novembro, como lembra Frei Betto (“Raduan Nassar rumo aos 90” Folha de S. Paulo, 26/08/2025), um dos mais destacados intelectuais orgânicos de minha já velha geração, que nos fala do Raduan escritor.

Escritor dos maiores, embora de poucas obras, mas todas preciosas, Raduan deixou, ao dar por encerrada sua produção, um conjunto de singular densidade poética, de concisão e de experimentalismo formal muito próprio, que o distancia, por exemplo, do Guimarães Rosa telúrico.

Sua precisão estilística, criativa tanto quanto corajosa, distante do barroco de Grande sertão: veredas, lembra o Graciliano Ramos de Vidas Secas. Sua sintaxe é inovadora porque é lírica, uma prosa musical, próxima da poesia. Invade o vasto e profundo universo íntimo da alma humana a partir do microcosmo de seu mundo arcaico e familiar — o desejo e o sentimento de culpa, a violência telúrica (que também está em Graciliano) e a ânsia de liberdade, sonho do homem — e assim alcança a universalidade, meta de todo grande escritor.

Este é o seu lado mais conhecido, que, pelo seu brilho, escurece o Raduan Nassar cidadão, político de esquerda, intelectual orgânico comprometido com o país.

Em 1984, escritor consagrado, vencedor dos prêmios Jabuti e Camões, anuncia o afastamento da literatura e, em 1985, abandona de vez a cena pública para se dedicar à vida rural. Vai morar e trabalhar em sua fazenda Lagoa do Sino, no interior de São Paulo.

Em 2014, quando as circunstâncias nos aproximam, o intelectual orgânico toma o assento do escritor. Sua voz se ergue na defesa do mandato violentado de Dilma Rousseff, mantém-se firme na condenação do golpe parlamentar, opõe-se ao governo Temer, o Perjuro, denuncia a trama golpista da chamada Operação Lava Jato (cujos desvios corruptos são hoje notórios) e se antecipa na exposição de seu caráter vassalo. Defende o presidente Lula, corretamente identificado como prisioneiro político, visita-o na prisão e está com ele em Curitiba quando de sua libertação. Defende sua eleição em 2022.

A militância política se impõe com a tragédia representada pela emergência da extrema-direita, que conhece o poder com Bolsonaro e dele ainda não está de todo afastada — eis que controla o Congresso e mantém apoio popular —, mesmo depois das eleições de 2022 e da frustração da intentona de 2023. Com os olhos voltados para a realidade, dirá: “Prefiro falar de política e não de literatura”. Surpreendeu em 2016 ao discursar em público para defender a presidente Dilma do viciado processo de impeachment, publicou artigos e fez críticas ao então vice-presidente — aquele político menor que, apesar de tudo, a imprensa nativa ainda se presta a bajular —, já de malas prontas para hospedar-se no Palácio da Alvorada.

Retorna então, ao autoexílio, ainda inexplicado, em sua fazenda paulista.

***



A limpeza étnica prossegue — O genocídio palestino vai se aproximando de seu 2º aniversário, e o governo israelense, abertamente empenhado na limpeza étnica (autorizada por uma “comunidade internacional” omissa, portanto cúmplice), anuncia aos quatro ventos seu projeto de solução final, que envolve a tomada da Cidade de Gaza, centro do gueto árabe. O Lebensraum sionista já engloba, para além da quase totalidade do território palestino, pedaços da vizinha Síria. Nesse cenário de horror e desgraça, faz bem o Brasil em subir o tom contra as provocações e insultos emanados de Tel Aviv, e rebaixar o padrão de suas relações diplomáticas com o protetorado. Mas não se pode imaginar que isto seja o suficiente.

O viralatismo ideológico- O Financial Times e o Le Monde registram o encontro de Donald T. com o novo líder sul-coreano. O estadunidense é claro em seu objetivo: quer usar a península coreana como base de lançamentos/provocação voltada para a China, atual obsessão do velho império. Para isso, acena com o interesse de normalizar as relações com Pyongyang e se apropriar de vez (!) das bases estadunidenses em território sul-coreano. Tanto o Financial quanto o Le Monde  (que não são conhecidos por sua simpatia pelo comunismo) referem-se a Kim Jon-un de modo neutro, como "líder" ou "dirigente" norte-coreano. Por que o leitor brasileiro é obrigado a consumir estereótipos em suas folhas e pasquins, em meio a um vazio de informação?

Os bilhões do crime organizado – O Ministério Público de São Paulo e a Polícia começam a desvendar as criminosas relações do PCC com o sistema financeiro. A vinculação de uma das famílias do crime organizado, a lembrar a máfia italiana no início do século passado, com a Faria Lima é muito grave, por si, pelo óbvio, e pela ameaça política que está escondida: o que sociedade  máfia-Faria Lima está fazendo com esse monturo de dinheiro sem rastro? As primeiras investigações falam em 58 bilhões de reais. Financiando a direita? Elegendo seus procuradores no Congresso Nacional, ou os governos de São Paulo e Minas Gerais? 


 


* Com a colaboração de Pedro  Amaral
 

TJDFT alerta sobre novo golpe envolvendo cobranças por cartórios extrajudiciais

Sexta, 29 de agosto de 2025

por Secom do TJDFT— publicado originalmente em 28/08/2025

Nas últimas semanas, a Ouvidoria-Geral do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) tem recebido diversas manifestações de cidadãos sobre e-mails com supostas “notificações extrajudiciais” para cobrança de taxa de contribuição confederativa assistencial, no valor de aproximadamente R$ 198,95. 

Prestação de contas —Saúde do DF tem orçamento maior em 2025, mas execução lenta acende alerta na Câmara

Sexta, 29 de agosto de 2025

Secretaria empenhou menos da metade dos recursos autorizados no primeiro quadrimestre
Prestação de Contas da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal referente ao 1º quadrimestre de 2025 - Rinaldo Morelli | Agência CLDF

Brasil de Fato — Brasília (DF)
Postado originalmente no BdF em 27.ago.2025
Caína Castanha

O orçamento da Saúde no Distrito Federal saltou de R$ 11 bilhões em 2024 para R$ 13,1 bilhões em 2025, um aumento de 19,37%. Os dados constam em relatório da Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) sobre a execução orçamentária nos quatro primeiros meses do ano. O balanço foi apresentado no dia 20 de agosto em audiência pública da Comissão de Saúde da Câmara Legislativa do DF (CLDF).

Do total previsto para 2025, R$ 10,98 bilhões foram autorizados para despesas. Dentre as despesas empenhadas 60, 9% está destinado para pessoal e encargos sociais, 41,1% para outras despesas e 76,27% voltado para investimentos. Nesse quadrimestre, a despesa empenhada dos 10 bi chegou a R$ 4,8 bilhões (44,5%), enquanto apenas R$ 3,4 bilhões (31,8%) foram efetivamente liquidados.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SOBERANIA POPULAR —‘Corredores agroecológicos criam sistemas produtivos justos, sustentáveis e com soberania no campo’, defende pesquisadora

Quinta, 28 de agosto de 2025

Engenheira agrônoma fala de modelo que une produção de alimento, proteção ambiental e fortalecimento de vínculos sociais

Pequenos exibem sementes para plantio em horta no Recife - Wagner Ramos / Prefeitura do Recife



Brasil de Fato
—Recife (PE) — Wallison Rodrigues — 28.agosto

Em tempos de crise climática, insegurança alimentar e esgotamento dos recursos naturais, iniciativas que conciliam produção agrícola, preservação ambiental e fortalecimento dos territórios camponeses ganham cada vez mais relevância. É nesse contexto que surgem os “corredores agroecológicos” — sistemas produtivos baseados na diversidade de culturas, no uso de sementes crioulas e na cooperação entre os saberes populares e científicos.

Nesta entrevista, conversamos com Ana Cláudia de Lima Silva, engenheira agrônoma com doutorado em Agricultura. Com uma trajetória dedicada à agroecologia e ao trabalho com comunidades camponesas, Lima e Silva é professora de Extensão Rural e Agroecologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Ela explica o que são os corredores agroecológicos, os desafios para o seu estabelecimento e o papel estratégico que cumprem na disputa por outro modelo de agricultura para o Brasil.

Wallisson Rodríguez: O que são corredores agroecológicos e qual a importância deles para territórios camponeses e para o meio ambiente?

Ana Cláudia de Lima Silva: Os corredores agroecológicos são colocados como uma alternativa aos roçados tradicionalmente manejados com base em monocultivos e em uma única variedade genética. Caracterizam-se como faixas intercaladas de plantas no mesmo tempo e espaço, compondo uma paisagem de policultivo que combina espécies de acordo com o interesse dos/as agricultores/as, produzindo alimento para as pessoas e para o solo.

Esses arranjos podem ser diversos. Mas a ideia central é a combinação de plantas com diferentes hábitos de crescimento, funções e usos, como adubadoras verdes, gramíneas, leguminosas, aromáticas, oleaginosas, tubérculos, entre outras. As plantas exercem funções que vão além da produção de alimentos e sementes: atuam de forma integrada e sinérgica no sistema.

Por exemplo, o girassol atrai polinizadores, como abelhas e mariposas; o gergelim pode ajudar no controle de formigas e servir de hospedeiro para a mosca-branca, protegendo em consórcio o feijão. As leguminosas contribuem com a fixação de nitrogênio; as gramíneas, com a produção de biomassa orgânica. Além disso, os corredores promovem o resgate e a introdução de sementes crioulas, fortalecendo a soberania alimentar e a autonomia camponesa.
A engenheira agrônoma Ana Cláudia Lima e Silva é professora na UFRPE | Wallisson Rodríguez / MCP

O diálogo com as comunidades é essencial. Não há uma combinação única de plantas — há princípios, não regras. Espaçamento, materiais disponíveis e a experiência dos agricultores são fatores importantes no processo de implantação. Para o meio ambiente, os corredores contribuem com a diversificação da paisagem agrícola, aumentam a fertilidade do solo, promovem a ciclagem de nutrientes, o acúmulo de carbono e o crescimento de microrganismos benéficos.

WR: Qual é a diferença entre os corredores agroecológicos e os sistemas agroflorestais (SAFs)?

ACLS: A principal diferença é a ausência do estrato arbóreo nos corredores agroecológicos. No entanto, eles podem ser conduzidos dentro de SAFs, dependendo da idade das árvores e da necessidade de luz das espécies cultivadas. A concepção dos corredores dialoga com os princípios dos SAFs — cultivo em faixas, diversidade de espécies, recomposição de matéria orgânica — mas sem o manejo intensivo de podas.

Os corredores foram pensados para áreas de roçado, onde havia predominância de cultivos únicos. Assim, tornaram-se uma estratégia de transição agroecológica para comunidades com pouca familiaridade com o policultivo. Eles também podem anteceder a implantação de um SAF e funcionar de forma complementar ou como alternativa de roçados voltados para cultivos anuais, sempre promovendo a diversificação dos sistemas.

WR: Por que os corredores são chamados de “escola a céu aberto” de práticas agroecológicas?

ACLS: Os corredores agroecológicos promovem princípios básicos da agroecologia, como a diversificação da paisagem e a valorização da diversidade genética — tanto entre espécies quanto dentro de uma mesma espécie. Estimulam o resgate de cultivos tradicionais do território.

Mutirão em horta comunitária no bairro do Ibura, Recife | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

Durante sua condução, ocorrem práticas de manejo do solo, como o uso de matéria orgânica e adubação verde. Isso melhora a qualidade do solo, reduz a dependência de insumos externos e favorece a sanidade vegetal. As interações entre plantas — como o uso de espécies atrativas e repelentes — contribuem para o controle de pragas e doenças.

Além disso, os corredores são espaços de aprendizado coletivo. São implantados em mutirões, com rodas de conversa para tomada de decisões. Tornam-se uma verdadeira escola prática para a agroecologia, indo além da dimensão ecológica-produtiva, fortalecendo laços comunitários e a construção de autonomia.

WR: Como se dá, na prática, a construção de um corredor agroecológico? Que atores sociais costumam estar envolvidos no processo?

ACLS: Os corredores agroecológicos são, preferencialmente, implantados de forma coletiva, por meio de mutirões. Mas há etapas fundamentais antes disso, como a sensibilização da comunidade para a importância das sementes crioulas. Realiza-se um levantamento das culturas existentes no território e das sementes disponíveis. Quando não há sementes locais, podem ser inseridas sementes crioulas de outros territórios, observando-se sua adaptação.

Define-se a área de plantio, o espaçamento entre linhas (dependendo da experiência da família e da presença de maquinário) e o número de faixas. Com as plantas selecionadas, são feitos croquis participativos para definir a organização do plantio. O desenho do corredor é simétrico, começando e terminando da mesma forma.

É preciso também definir o objetivo principal do corredor: produção de alimentos, multiplicação de sementes para comercialização ou adubação verde. O preparo do solo com insumos orgânicos e a organização das sementes são fundamentais para o sucesso do mutirão de plantio.

Mutirão de plantio em horta que compõe corredor agroecológico em Pernambuco | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

Após a implantação, realiza-se uma roda de conversa para avaliar o processo e orientar os próximos passos. Nos ciclos seguintes, recomenda-se a rotação de culturas e o uso das sementes colhidas no próprio corredor, promovendo a adaptação genética e a agrobiodiversidade local.

WR: Que tipo de conhecimentos e práticas agrícolas são necessárias para consolidar esses corredores?

ACLS: A experiência com roçados é um bom ponto de partida, mas é importante estar aberto ao aprendizado sobre consórcios e rotação de culturas. As famílias vão lidar com plantas de diferentes hábitos de crescimento no mesmo espaço, o que exige atenção e manejo adequado. Áreas com vegetação nativa ao redor ajudam na saúde do sistema. A cobertura do solo pode ser feita com matéria orgânica trazida de áreas adjacentes, o que ajuda no controle de plantas espontâneas e na retenção de água e nutrientes.

No caso de sementes de milho, por exemplo, é importante isolar os corredores e as lavouras com variedades comerciais para evitar a contaminação genética. A seleção de sementes deve começar no campo, escolhendo as melhores plantas. Técnicas como a seleção massal, no caso do milho, contribuem para garantir a qualidade do material propagativo. As sementes devem ser armazenadas em locais secos, limpos e ventilados.

O registro do manejo e das observações durante o ciclo do corredor é fundamental para orientar decisões futuras. As práticas técnicas devem sempre dialogar com o conhecimento local.

WR: Quais os principais desafios enfrentados pelas comunidades que querem fortalecer ou implantar corredores agroecológicos?

ACLS: Os desafios variam conforme o grau de maturidade agroecológica da comunidade. Em agroecossistemas ainda dependentes de insumos externos, com poucas sementes disponíveis e baixo engajamento coletivo, as dificuldades são maiores. O acesso a sementes crioulas é um dos principais obstáculos. A articulação com movimentos sociais, como o Movimento Camponês Popular, pode facilitar o processo. O manejo de diferentes espécies em consórcio pode gerar insegurança inicial, mas com o tempo os benefícios se tornam evidentes.

Plantio coletivo em horta comunitária do Recife (PE) | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

A limpeza das áreas também é um desafio. Como não se usa herbicidas, é necessário controlar o banco de sementes de plantas espontâneas com práticas como cobertura morta, capinas manuais ou uso de roçadeiras. O armazenamento e a seleção das sementes exigem cuidado. Ter uma rede de apoio — entre agricultores e técnicos — ajuda a superar essas dificuldades, socializar experiências e buscar soluções conjuntas.

WR: Na sua visão, qual é o papel dos corredores agroecológicos na disputa de modelo agrícola e na construção de um projeto popular para o campo brasileiro?

ACLS: Os corredores agroecológicos representam, na prática, a possibilidade de produzir alimentos e sementes de forma autônoma, resiliente e sustentável. Ao diversificarem a paisagem e promoverem interações ecológicas, rompem com o modelo de monocultura que empobrece os ecossistemas.

A produção de sementes adaptadas fortalece a autonomia das famílias e pode gerar renda, seja por meio de trocas entre vizinhos ou de políticas públicas de comercialização. A produção de alimentos saudáveis também contribui para a segurança alimentar local.

Com esses princípios, os corredores agroecológicos tornam-se pilares de um projeto popular para o campo: criam sistemas produtivos mais justos, biodiversos e sustentáveis, fortalecendo a soberania dos povos do campo e a viabilidade de outra agricultura possível no Brasil.


Editado por: Vinicius Sobreira

Tags: