Terça, 5 de maio de 2026
Por que precisamos de Raimundo Pereira
Seus jornais vibraram com as lutas políticas e culturais que questionaram o Brasil nos anos 70, até derrotar a ditadura. O eco de suas criações estará presente quando o país perceber que deve resgatar o jornalismo. Em textos, três vivas ao seu legado
OUTRASPALAVRAS
Publicado originalmente no OUTRASPALAVRAS DE 04/05/2026
Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu em 2 de maio, aos 85 anos | Crédito: Reprodução/Memorial da Resistência
MAIS
Em 1971, aos 30 anos, Raimundo Pereira coordenou a edição épica da revista Realidade sobre a Amazônia. Eram tempos de fartura e paixão. Uma equipe de 12 jornalistas e fotógrafos brilhantes instalou-se na região por 6 meses, percorreu 148 mil quilômetros e produziu (depois de mais três meses de edição) 328 páginas legendárias. Levaram o Esso, então o prêmio mais importante e disputado na imprensa, e são até hoje objeto de estudo obrigatório nos cursos de jornalismo. Foi por meio delas (e dos 300 mil exemplares vendidos, num país de população 2,5 vezes menor que a atual) que, por exemplo, os Yanomami tornaram-se um assunto do debate nacional.
Três décadas depois, Raimundo comandava, numa sala na Rua Fidalga, zona oeste de São Paulo, a revista Reportagem — de escassa visibilidade e notável empolgação. Temas contemporâneos cruciais, como a perda de soberania energética ou o entrelaçamento do Minha Casa, Minha Vida com a especulação imobiliária, foram tratados pioneiramente lá, relata Leandro Saraiva. O trabalho diário de pesquisa era aberto, entre as 6h e as 10h, com uma prática denominada “desmonte do jornal burguês”, que não é possível descrever neste espaço. Mas apesar da ambição invicta, a equipe fixa do projeto era formada basicamente por estagiários. As tiragens eram exíguas; as agruras financeiras, constantes.