Sábado, 18 de julho de 2026
O flerte entre o mercado da fé e a ultradireita
Por dentro do Summit Cristão, evento que funde a ética neoliberal ao fundamentalismo. Os significados do “empreendedorismo à luz da Palavra”. Sua cruzada contra soluções coletivas no Brasil. E como encontra no neofascismo seu maior fiador
Matéria Publicada no OUTRASPALAVRAS em 17/07/2026
Imagem: Dmitri Stahievic Orlov

Em novembro de 2024, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, realizou-se o 1º Summit de Empreendedorismo Cristão. O evento tinha como objetivo, segundo seus organizadores, “promover, desenvolver e fomentar o empreendedorismo à luz da palavra de Cristo”. Entre os palestrantes, figurava Junior Rostirola, autor do livro mais vendido da Amazon Brasil em 2024: Café com Deus Pai. Rostirola também é fundador de uma igreja própria com mais de sete mil fiéis em Itajaí – SC e declarado simpatizante de figuras políticas autoritárias como Jair Bolsonaro e Donald Trump. Ao lado dele, Oséias Gomes, CEO da rede Odonto Excellence e autor de Empreenda pelos Princípios Bíblicos, e o Pastor Marcos Freire, fundador do projeto social Baluarte na África. O evento poderia parecer apenas uma curiosidade do cenário religioso brasileiro, mas não é. Ela condensa características fundamentais do que se chama de extrema-direita na política brasileira atual: a fusão entre o empreendedorismo como ética, a fé cristã no plano moral e conservadorismo com características, cada vez mais, reacionárias, além do vínculo e apoio a figuras autoritárias integrantes de movimentos neofascistas. Todos esses eixos articulam um anticomunismo pautado pela ideologia neoliberal oriundo da escola austríaca de figuras como Ludwig von Mises e seu discípulo direto Israel Kirzner. Ideologia essa que é a força do projeto imperialista estadunidense ao articular produção de consenso e desinformação em massa para distorção da realidade social e bloqueio da consciência de classe e radicalização dos movimentos sociais. Compreender esse nó exige ir fundo nas raízes intelectuais do problema e identificar quem o organiza, quem o financia e quem o amplifica.
1. O empreendedorismo como ética neoliberal e aparelhos privados de hegemonia empresariais
O empreendedorismo não nasceu como política pública nem como tendência espontânea do mercado. Ele tem pais intelectuais identificáveis, e eles não escondem suas posições políticas.