Terça, 27 de outubro de 2026
Sérvia: Os estudantes no poder?
Lista formada em assembleias universitárias vence eleições parlamentares, supera 14 anos de autoritarismo e será governo. Não tem projeto claro, mas sua força está nas ruas. Poderá somar-se às lutas antineoliberais que despontam pelo mundo?
Tradução: Antonio Martins
A vitória da Lista Estudantil nas eleições parlamentares da Sérvia é estrondosa. Candidatando-se pela primeira vez, conquistou a maioria, garantindo cerca de 140 das 250 cadeiras no Parlamemento. O domínio de 14 anos do presidente autoritário Aleksandar Vučić, que esperava assumir o cargo de primeiro-ministro sem dificuldades, levando o poder consigo, foi quebrado por um movimento de massas liderado por estudantes. Iniciado há dois anos, após o desabamento da cobertura de uma estação ferroviária em reconstrução na cidade de Novi Sad, que matou 16 pessoas, o movimento forçou a renúncia de um primeiro-ministro em 2025. Agora, derrotou o presidente.
As mobilizações desde 2024 têm sido determinadas e incansáveis. Exploram um profundo descontentamento popular não apenas com Vučić, mas também com a oposição. Demonstraram que um sistema político estabelecido pode ser derrubado quando as pessoas que perderam a fé na política convencional se organizam de forma independente.
Mas, por mais extraordinária que seja, a vitória levanta uma questão crucial: o que acontece quando um movimento construído pela ação coletiva e pela participação democrática entra nas instituições estatais? A resposta precisará surgir agora, e oscila entre a possibilidade de uma nova fase progressista na política sérvia e o perigo de mais uma oportunidade perdida. Muito dependerá de o movimento se manter enraizado nas mobilizações de massa que o levaram ao poder, mas também de sua capacidade de se conectar com a revolta social mais ampla contra o neoliberalismo que se espalha pela Europa.