Termos eufemísticos como “populismo” legitimam esses grupos – e mascaram seu elitismo radical, diz cientista político. Também fazem parecer “populares” pautas impostas de cima pra baixo, como o ódio aos imigrantes. Esquerda não pode cair nesse erro
Publicado 29/11/2023
Ilustração: Eleanor Shakespeare
Por Aurélien Mondon, entrevistado por Glauco Faria
Nas eleições presidenciais de 2018, no Brasil, a maior parte da mídia tradicional hesitava em classificar o então candidato do PSL Jair Bolsonaro como representante da extrema-direita. Este não é um fenômeno apenas nacional, mas também alcança outros países.
O professor sênior de política na Universidade de Bath, Aurélien Mondon, aponta, em artigo, a equivocada simplificação em relação a determinadas figuras e partidos do cenário político chamados de “populistas”.
“A utilização do termo ‘populista’ em vez de termos mais precisos, mas também estigmatizantes, como ‘extrema-direita’ ou ‘racista’, funciona como um legitimador fundamental da política de extrema-direita”, argumenta, destacando que muitas vezes esta operação também é realizada no meio acadêmico.
Mondon concedeu uma entrevista por e-mail na qual aponta ainda que a utilização da palavra “populismo” vincula este grupo político a uma noção de “povo”, por conta do elo semântico, mesmo que sua política seja “inerentemente elitista”.
Partidos não alinhados aos extremistas também acabam cometendo erros ao cair nas armadilhas deste segmento, buscando reagir ao que seriam falsas questões, como a imigração em diversos países europeus. Isto ocorre, segundo ele, “apesar de as pesquisas de opinião mostrarem que, em muitos contextos, essa questão é construída de forma descendente (por atores de elite, com acesso privilegiado ao discurso público, colocando a questão na agenda) em vez de forma ascendente, por meio das queixas da população”.
Confira abaixo a entrevista com Aurélien Mondon.
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Glauco Faria – De que forma o uso do termo “populismo” pela mídia mainstream, em vez de “extrema-direita”, acaba legitimando posições políticas extremistas?
Aurélien Mondon – O uso do termo “populismo” legitima a extrema-direita de duas maneiras principais. Primeiro, eufemiza a natureza da política desses partidos e movimentos, pois sua principal característica é serem de extrema direita. Alguns podem ser populistas, mas isso é apenas secundário, é no máximo uma ideologia tênue, adicionada a outras mais primárias, como o racismo ou o autoritarismo, ou é uma forma de discurso que simplesmente visa a construir um povo contra uma elite. Como tal, o populismo não nos diz muito sobre a política desses partidos, pois pode se aplicar tanto à política de esquerda quanto à de extrema-direita.
Segundo, dá aos partidos de extrema direita um verniz de legitimidade democrática, pois os vincula ao “povo” através do elo semântico criado pelo populismo. Isso apesar do fato de seu apoio geralmente estar longe de ser majoritário (e, de fato, às vezes ser bastante marginal), seja em termos de resultados eleitorais ou atitudes mais amplas, e que sua política é inerentemente elitista.


