“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Resistência —Memória não morrerá: 50 anos sem Frei Tito

Quarta, 15 de agosto de 2024

Memórias em homenagem ao frade católico Frei Tito, que lutou durante os anos mais intensos da ditadura

Brasil de Fato | São Paulo |
 
Frei Tito nasceu em 14 de setembro de 1945. - Reprodução

Era para ser apenas um passeio pelo Quartier Latin, escala no caminho de volta para o Brasil, depois de uma estadia na Alemanha de 2 anos e meio. E de repente, numa esquina do Boulevard Saint Michel, naquele julho de 1971, alguém me deu um encontrão que quase me derrubou: era o Tito, Frei Tito Alencar de Lima, afobado, como que fugindo. A alegria de encontrar um conterrâneo, a surpresa de esbarrar com um camarada longe do país se esvaíram pela tensão e nervosismo que o faziam não responder às perguntas que brotavam: desde quando estava em Paris, o que fazia, como ia o Brasil, como estavam os amigos comuns, e a repressão?  Sim, e a repressão?
 
Eu não sabia que ele recém integrara o grupo dos 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço sequestrado no Brasil. (Nem ele falou disso, na ocasião. Eu só soube ao chegar de volta ao Brasil, quando me informaram também que o Tito tinha sido barbaramente torturado). Morando em Berlim e com a correspondência censurada, as notícias políticas mais sensíveis do Brasil se reduziam ao pouco que chegava pela imprensa internacional e pelos jornais que a minha família enviava, sem comentários e sem nada assinalado. Por carta, nunca! Por vezes, eu recebia, com atraso de um mês, vindos por navio, uma Folha ou um Estadão inteiros, que eu vasculhava cuidadosamente, na certeza de encontrar algumas linhas dolorosas a respeito de alguém conhecido. Podia-se avaliar a intensidade da censura através das receitas de cozinha ou de trechos de Os Lusíadas com que a imprensa resolveu preencher os espaços censurados, evidenciando aos leitores que ali havia material proibido. Mas a morte de Marighella, líder da ALN, um ano e meio antes, em novembro de 1969, foi noticiada pela imprensa europeia: assassinado a tiros, numa emboscada em que estudantes dominicanos, confrades do Tito, foram torpemente implicados.    

Eu tinha conhecido o Frei Tito em São Paulo, na tensa e intensa década de 60, cruzando com ele nos corredores do Convento dos Dominicanos, onde ele morava e aonde eu ia frequentemente participar de reuniões. Os dominicanos decididamente se tinham colocado na resistência à ditadura, e corajosamente franqueavam os espaços do Convento de Perdizes para atividades consideradas “subversivas”. Assim, nós, estudantes da Maria Antonia (a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, antes de sua depredação e incêndio pela direita do Mackenzie, em 1968), bem como universitários da PUC, lá realizávamos reuniões de várias siglas em que se dividia o movimento estudantil - no meu caso, eram encontros de AP (Ação Popular) e também atividades preparatórias para as classes de Alfabetização de Adultos Método Paulo Freire, que aconteciam numa vila operária de Osasco - de 1966 a 1968, quando fomos forçados a abandonar a empreitada, porque o Dops havia baixado em Vila Iolanda.