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(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 27 de julho de 2023

DELAÇÃO —Caso Marielle e Anderson: leia o depoimento de Élcio Queiroz com o relato do dia do assassinato

Quinta, 27 de julho de 2023

Marielle Franco no plenário da Câmara dos Vereadores, em 2017, durante o exercício de seu mandato - Foto: Divulgação

Brasil de Fato teve acesso à delação do ex-PM que traz detalhes dos acontecimentos de 14 de março

Igor Carvalho
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 27 de Julho de 2023

ALERTA DE CONTEÚDO SENSÍVEL

"Ele já estava com o vidro aberto e eu só escutei a rajada; da rajada, começou a cair umas cápsulas na minha cabeça e no meu pescoço... faz um barulho danado, não tinha nem noção; quem pensa que é pouco barulho... mas é muito barulho; aí caíram as cápsulas em mim e ele falou 'vão bora'; eu nem vi se acertou quem, se não acertou."

O relato acima é de Élcio Vieira Queiroz, ex-policial militar, acusado de dirigir o carro que conduzia o assassino da vereadora Marielle Franco, Ronnie Lessa, no dia 14 de março de 2018, data da execução da parlamentar.

Em delação firmada com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, Élcio Queiroz admitiu sua participação no assassinato de Marielle, confirmou que Lessa foi o executor e entregou que o ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, conhecido como Suel, integrava o grupo que planejou o atentado.

Suel foi preso na última terça-feira (24), em sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro, acusado de participar do assassinato de Marielle Franco. Ele já foi condenado, em 2021, por tentar interferir na investigação sobre o crime e cumpria prisão domiciliar.

A delação começou às 14h52, no dia 14 de junho deste ano, no Comando de Aviação Operacional (CAOP), que fica no hangar da Polícia Federal, dentro do aeroporto de Brasília. Até 17h27, Queiroz respondeu perguntas de delegados e promotores, e explicou seu envolvimento no atentado que matou Marielle.

De acordo com o ex-PM, sua participação começou exatamente no dia do assassinato, quando recebeu uma mensagem de Lessa pedindo que ele dirigisse o Cobalt prata que serviu de transporte para o atentado. Até então, explicou Queiroz, ele nunca havia escutado falar de Marielle Franco e nem sabia que existia um plano para matá-la.

Durante as quase três horas de depoimento, Queiroz narrou os detalhes do dia 14 de março, como a locomoção até a Casa das Pretas, onde a vereadora participaria de uma roda de conversa, a perseguição ao veículo que levava Marielle Franco e o momento dos disparos.

O Brasil de Fato teve acesso à delação de Queiroz e destacou os pontos que ajudam a compreender como os assassinos se movimentaram e executaram Marielle Franco.

A delação

Na abertura do depoimento, o delegado da PF Guilhermo Catramby pede que Élcio Queiroz fale sobre sua relação com Ronnie Lessa e que narre o encontro dos dois na festa que marcou a virada do ano de 2017 par 2018, dentro do condomínio Vivendas da Barra, onde já vivia o ex-presidente Jair Bolsonaro.

É neste evento que aparece, pela primeira vez, o nome de Suel e é quando os investigadores descobrem que Lessa já tinha tentado executar Marielle Franco:

ELCIO: O RONNIE é padrinho de consideração do meu filho Patrick; o Patrick gosta muito dele, ele faz as vontades do Patrick, então a nossa relação é nesse sentido, de família, eu sou amigo da família dele, ele é amigo da minha família.

No dia 31 (de dezembro de 2017), nós passamos nossa família junto com a dele, na casa dele na Barra da Tijuca, no Condomínio Vivendas; já tínhamos bebido bastante, aí em tom de desabafo ele comentou comigo que estava chateado, que ele estava num trabalho já algum tempo e teve a oportunidade de um alvo que seria uma mulher; estava com esse trabalho ele, o SUEL e o MACALÉ; estavam nessa época aí, já um tempo “campanando” esse alvo e teve uma oportunidade de chegar até esse alvo um dia, na área do Estácio, e na hora que foi pra acontecer o fato, o crime, no caso seria uma execução... o piloto (inaudível) do carro era o MAXWELL, o atirador na frente seria o RONNIE, o outro no banco de trás seria o EDMILSON MACALÉ. O RONNIE achou que houve um refugo, o carro deu um problema, pediu pra emparelhar, era um táxi; essa pessoa, essa mulher estaria num táxi e tinha uma oportunidade, só que na hora que ele mandou emparelhar, o carro deu um problema; e o RONNIE desabafou comigo, dizendo que não acreditava que teve problema, que foi medo, refugou; o MAXWELL que refugou no momento que queria, e a função dele era dirigir, do RONNIE seria o atirador; e do MAXWELL seria contenção do local em si, ele teria que descer do carro e sustentar ...MACALÉ.

Novamente indagado pelo delegado Catramby, Queiroz explica a origem da arma utilizada por Lessa no assassinato de Marielle Franco:

ELCIO: Sim, o que eu sei é o que foi passado por ele; essa arma ele adquiriu, segundo ele, tudo eu estou passando segundo ele me passou; de que houve um incêndio no Batalhão de Operações Especiais, no paiol, e essa arma foi extraviada; essa e outras armas foram extraviadas nesse incêndio aí, e essa arma ficou com uma pessoa que eu não sei quem é; essa pessoa conseguiu fazer a manutenção dela e vendeu pra ele; então ele tinha essa arma aí, conseguiu essa arma, por que ele já trabalhou no Batalhão de Operações Especiais, e o que acontece, essa arma já usou em serviço, pela numeração é de uma pessoa, mesmo policial que está acostumado a trabalhar sempre com a mesma arma; é costume, pessoa eu quero afinar o número 75 já sabe que aquela arma não vai dar problema; então tinha um carinho por aquela arma, que ele usava sempre quando estava em operação no Batalhão de Operações Especiais; e ele reformou ela todinha, deixou ela cem por cento.

Imagem de Élcio Queiroz, no dia em que prestou depoimento, no âmbito de seu acordo de delação premiada com a PF e o MP / Foto: Divulgação

Neste trecho, Queiroz começa a narrar todos os seus passos no dia da execução de Marielle Franco.

ELCIO: No dia 14 de março eu estava de serviço nas Casas Bahia em Santa Cruz da Serra, fazendo acompanhamento; não é nem escolta; acompanhamento, que era só uma pessoa com meu veículo particular, Renault Logan (inaudível); vinha de Santa Cruz da Serra com três caminhões; até depois o senhor tem todos os dados do motorista, localização, GPS e tudo, tem como confirmar; em suma eu vim descendo com os três caminhões; teria que fazer a área de Madureira e Rocha Miranda; acompanhei os caminhões até o Madureira Shopping, dois caminhões ficaram no Madureira Shopping, o outro foi fazendo porta a porta em Rocha Miranda, enquanto os dois ficaram estacionando lá dentro; a minha função era acompanhar porta a porta a entrega de eletrodomésticos; por volta do meio dia, pelo aplicativo “CONFIDE”, recebi mensagem do RONNIE LESSA perguntando onde eu estava, se estava em casa, enfim se eu estava de folga; por onde eu estava; eu falei que estava trabalhando, e ele perguntou que horas eu sairia; eu falei que estava com esse caminhão, mandei até a foto pelo aplicativo CONFIDE, pra mostrar que eu estava no viaduto de Rocha Miranda em frente o grêmio recreativo de Rocha Miranda; aí mandei pra ele pra realmente ver que eu estava ali, não estava em casa; tô aqui, tô trabalhando, e não sei que horas vou sair; aí ele falou se até umas dezessete horas... umas dezenove horas... eu estaria liberado; aí eu falei que tinha esse caminhão; tem um outro lá; aí acabou que os caminhões que eu teria que fazer acompanhamento de Madureira, do Shopping Madureira me dispensou; então acabou o serviço duas horas da tarde; aí eu perguntei: mas pra que é? Ele respondeu que era pra dirigir pra ele; aí eu falei, mas qual foi, pra que é? aí eu recebi uma imagem pelo aplicativo CONFIDE; quem conhece sabe que tem que deslocar o dedo, correr o dedo pela tela, então fica tipo uma tarja acompanhando a imagem; não dá pra ver a imagem total, ela vai conforme vai passando o dedo, ela vai correndo; aí depois automaticamente ela se destrói; como eu estava ali meio que parado, dirige não dirige, atento, eu só vi a imagem de várias mulheres reunidas; depois eu soube que era um evento da Casa das Pretas.