“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador BdF RGS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BdF RGS. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de junho de 2022

ENTREVISTA —Embrapa em crise: “Não temos mais recursos para botar a máquina para operar”, diz pesquisador

Terça, 21 de junho de 2022
Embrapa está atrás de tudo que chega à mesa dos brasileiros: da qualidade e da quantidade dos alimentos - Gustavo Porpino/Embrapa

Sem investimentos, empresa pública pode abrir mão de seu papel social e virar prestadora de serviços ao agronegócio

Marcos Antonio Corbari e Ayrton Centeno
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 20 de Junho de 2022

A exemplo de outras empresas públicas, entre elas a Petrobras, a Embrapa está sob ataque. Além da redução brutal de verbas para a pesquisa operada pelo governo Bolsonaro, um projeto chamado Transforma Embrapa ameaça transformá-la em prestadora praticamente exclusiva de serviços ao agronegócio. É o maior risco que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária corre em seus 49 anos de história. O mais grave, porém, é que, para a população urbana, Embrapa é apenas uma sigla de significado obscuro. Pouco ou nada sabe de como a Embrapa está atrás de tudo que chega à mesa dos brasileiros. Da qualidade e da quantidade dos alimentos.


Nesta entrevista, o pesquisador João Carlos Costa Gomes, da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas (RS), joga luz sobre o papel social da empresa pública, a defesa do melhoramento das culturas, da soberania alimentar e da biodiversidade. Com 46 anos de atuação na linha de frente das pesquisas, doutor em agroecologia e desenvolvimento sustentável, Costa Gomes relata que a Embrapa é dona de um patrimônio de valor incalculável, inclusive de um dos maiores bancos genéticos do mundo, e o perigo que agora enfrenta. Confira:

Brasil de Fato — O que seria do Brasil sem a Embrapa?

Costa Gomes — A Embrapa é detentora de um dos maiores bancos genéticos do mundo. Para se ter uma ideia, apenas aqui em Pelotas chegamos a ter mais de 600 variedades de abóboras, mais de 400 de pimenta, quase 500 de batata, 270 de cebola, quase 70 de milho varietal —não é milho híbrido— variedades crioulas melhoradas pelos agricultores ao longo da sua relação com a natureza, cerca de 800 de feijão. Imagina o valor desse banco genético. E falo apenas de quatro ou cinco espécies de vegetais.

A etnia Krahô perdeu um milho que cultivava havia séculos e foi recuperá-lo na Embrapa

Se a gente pegar todo o banco genético da Embrapa seu valor talvez seja incalculável em termos de resgate de cultura, de hábitos alimentares. Dou um exemplo de uma contribuição da Embrapa: a tribo Krahô tinha um milho que utilizava e perdeu por alguma razão para, muitos anos depois, encontrar o mesmo material em um banco genético no Centro Nacional de Recursos Genéticos, em Brasília. E a Embrapa devolveu essas sementes para os Krahô que conseguiram voltar a ter de novo aquela variedade de milho que fazia parte da sua cultura, de seu imaginário, de sua estratégia de relação com a natureza.

Se a gente pegar tudo o que temos em termos de fruticultura tropical, de frutas nativas aqui no Sul do Brasil, de culturas alimentares, muitas delas exóticas... temos um banco de germoplasma de fruteiras de clima temperado —pêssego, ameixa, nectarina com mais de 600 materiais— que tem valor incalculável em termos até de possibilidade de uma recombinação genética para fazer face às mudanças climáticas que estão batendo na nossa porta.

Se não tem esse banco, como o geneticista buscará novos materiais que se adaptem à novas situações? Este é o grande patrimônio da Embrapa e é propriedade do povo brasileiro. Houve uma construção sócio-histórica desde que o homem deixou de ser nômade e passou a cultivar e que ele vem melhorando, selecionando e nos trouxe até aqui. É um legado de seleção por cor, aparência, gosto, finalidade. E, de repente, parece que os próprios agricultores estão sendo condenados a pagar pelo trabalho que tiveram de desenvolver esses materiais. A Embrapa, como empresa de estado, teria de valorizar esses conhecimentos, essa relação com as comunidades para poder, em determinadas situações, oferecer essas alternativas em termos de segurança alimentar, preservação da biodiversidade, da cultura...