Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Dia da Consciência Negra é reivindicação social desde a ditadura. Movimento começou em 1971 com a formação do Grupo Palmares

Quarta, 20 de novembro de 2024
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Gilberto Costa - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 20/11/2024 — Brasília



Teve longa gestação o reconhecimento do Dia de Zumbi e da Consciência Negra em 20 de novembro como feriado civil em todo o país: 53 anos. O intervalo é maior do que o espaço de tempo entre a Lei Eusébio de Queiroz (1850), que proibiu em definitivo a importação de pessoas escravizadas para o Brasil, e a Lei Áurea (1888), que declarou “extinta” a escravidão no país: 38 anos.

A preferência pelo 20/11 se manifesta pela primeira vez em 1971, em plena ditadura cívico-militar, e partiu de um grupo de estudantes e militantes negros de Porto Alegre, interessados em literatura e artes. Eles não achavam adequadas as celebrações em torno do 13 de maio, dia da assinatura da abolição da escravatura pela princesa Isabel, princesa imperial regente — que formalmente pôs fim a cerca de 350 anos de escravidão negra no Brasil.

O coletivo de rapazes negros, formado em julho daquele ano, depois se denominou Grupo Palmares e era composto por Oliveira Ferreira da Silveira, Ilmo Silva, Vilmar Nunes e Antônio Carlos Cortes. Cortes, hoje experiente advogado especializado em direito civil e criminal e a única pessoa viva daquela formação original. Segundo ele, também pertenciam ao “grupo informal” Luiz Paulo Axis Santos e Jorge Antônio dos Santos, que tiveram atuação mais discreta.
O poeta e pensador Oliveira Silveira, no Grupo Palmares - Foto Instituto Oliveira Silveira/Divulgação

Nós éramos seis, mas quatro botaram a cara para bater e dois ficaram ocultos, como estratégia nossa, porque se a ditadura nos eliminasse, esses outros dois dariam sequência”, lembra Antônio Carlos Cortes em entrevista à Agência Brasil. Ao longo do tempo, a composição do grupo mudou, inclusive com a entrada de mulheres.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Um sorriso negro. Rosário na minha vida!

Terça, 21 de novembro de 2023

Postado por Cida Torneros* no seu blog Descansando o Coração no dia 20 de novembro de 2023, Dia da Consciência Negra.

Ela era magrinha devota. Vizinha da minha vó Carmen em Ramos. Início dos anos 50. Eu adorava pegar na sua mão negra e virar pra ver a palma branca.

Um dia perguntei porquê. Ela me respondeu assim. Porquê Deus quis seus filhos desiguais e amigos. Rosário foi minha primeira amiga negra. Era bem mais velha que eu. Como eu a admirava dando aulas de catecismo. Gostava de ser guiada pela sua mão. Adorava ouvi-la cantar os hinos. E muito depois quando estudei sobre escravidão deduzi que sua origem era cruel pois seus ancestrais vieram forçados para o Brasil.

Há alguns anos eu a abracei pela última vez. Na festa de aniversário da Dona Carmen. Disse que pegou emprestado o livro que escrevi e gostou. Magrinha. Elegante. Os cabelos embranquecendo. Rosário foi minha referência de negritude. Conformada. Amiga. Risonha. Voz suave. Quando estudei Manuel Bandeira em vez de Irene era de Rosário que eu lembrava. Rosário preta. Rosário boa. Rosário sempre de bom humor. Não tenho certeza de quantos beijos lhe dei na minha infância. Era uma sensação de beijar pedindo perdão pelo que fizeram contra sua raça.

Hoje, minha consciência negra passa por todas as Rosários e todas as mulheres negras com quem fui cruzando. Umas guerreiras. Estão muito além dos brancos opressores.

Rosário. Homenageio você e todos os negros maltratados. Seus irmãos de cor mas sou também sua eterna irmã. Basta juntar nossas Palmas das mãos. E lembrar com saudade da sua voz sussurrando. DEUS QUIS ASSIM.

ROSÁRIO? MAS ESTAMOS VIRANDO ESSE JOGO. O QUE DEUS QUER É AMOR E RSSPEITO ENTRE NÓS.


CIDA TORNEROS

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*Maria Aparecida Torneros, a Cida Torneros, é jornalista aposentada e publica no Rio de Janeiro o Blog Descansando o Coração. É uma amiga do Blog Gama Livre. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Dia da Consciência Negra. O Navio Negreiro, poesia de Castro Alves

Segunda, 20 de novembro de 2023

Consciência Negra. O Navio Negreiro, poesia de Castro Alves

Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…


Hoje, 20 de novembro, comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra.
Vídeo Clipe com o poema "O Navio Negreiro" de Castro Alves, musicado por Caetano Veloso. Uma breve exibição da tragédia do tráfico de africanos que se tornaram escravos na América. O poema foi retirado do Livro "Os escravos" e a música do CD "Livro" de Caetano Veloso. Vídeo publicado no YouTube por Iara Viana

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Narração de Paulo Autran — Vídeo postado no YouTube por Ricardo Abdala

O Navio Negreiro 
“’Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar – dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.
‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
– Constelações do líquido tesouro…
‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…
‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…
Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Antônio Frederico de Castro Alves, poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871.