“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador Dowbor: fé fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dowbor: fé fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de março de 2023

Dowbor: fé, fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade

Sábado, 18 de março de 2023

Em meio à desigualdade abissal, à volta da fome e à devastação do planeta, muitos fazem-se de cegos e repetem o mantra: Deus, Família e Pátria. Por trás de seu delírio, está uma razão cínica que, para preservar interesses, busca ocultar as saídas





Dowbor: fé, fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade


OUTRASPALAVRAS                       CRISE CIVILIZATÓRIA, SEM CATEGORIA

Publicado em OUTRAS PALAVRAS em 17/03/2023


Por Ladislau Dowbor, na revista Meer | Tradução (do inglês original): Antonio Martins

A raça humana é sempre toda ouvidos para um conto de fadas
Lucrécio, De rerum natura, 50 AC

A insistência em uma ideia enraizada,
independentemente de evidências contrárias,
é a fonte do autoengano que caracteriza a loucura
Barbara Tuchman

A compreensão científica do tema não é complicada. Estamos progredindo firmemente no que foi chamado de catástrofe em câmera lenta. A destruição desta Terra solitária, nosso próprio habitat, avança por meio das mudanças climáticas, redução drástica da biodiversidade, esterilização do solo, poluição da água e do ar, contaminação química, desmatamento e tantos dramas surrealistas como plásticos nos mares, nos rios e em nosso sangue. Temos todos os números, estatísticas e cadeias de causalidade, sabemos o que e quem é/são os responsáveis. E temos todas as informações sobre a catástrofe social, 850 milhões passando fome, dos quais cerca de 180 milhões são crianças, além de 2,3 bilhões em insegurança alimentar e ainda mais com dificuldade de acesso à água potável. Cerca de 2 bilhões não têm acesso à eletricidade, sem falar na inclusão digital. Estamos destruindo nosso ambiente vital, para o lucro de poucos. Para onde foi nossa racionalidade?

Podemos dar de ombros: a pobreza sempre existiu. E fingir que não sabemos: o plástico nos mares nem sempre é visível, a Amazônia está queimando mas longe, e 2050 parece tão distante. Omeletes e ovos quebrados e assim por diante. Mas o fato é que todo esse drama simplesmente não é inevitável e o sofrimento não é necessário. Temos todas as medidas óbvias traçadas na Agenda 2030, 17 metas e 169 objetivos. E temos toda a tecnologia de que precisamos, inclusive o sistema de renda básica já bastante experimentado no Brasil e em outros países. E, claro, temos os meios financeiros. O PIB mundial de 100 trilhões de dólares que estamos alcançando este ano significa que o que produzimos em bens e serviços é equivalente a 4.200 dólares por mês por família de quatro membros. O que produzimos atualmente é amplamente suficiente para garantir que todos tenham acesso às necessidades básicas da família, conforto e dignidade. Claro, podemos nos referir à renda nacional líquida em vez do produto interno bruto, ou adicionar capital fixo acumulado, mas isso não muda o fato básico: estamos destruindo nosso meio ambiente e gerando enorme sofrimento de bilhões, preparando-nos para uma catástrofe ainda maior. para nossos filhos, enquanto temos todos os meios necessários para reverter os dramas. Nossos problemas não são econômicos, no sentido de falta de recursos: são questões políticas e de organização social.

Um exemplo simples nos ajuda a voltar à Terra. O mundo enfrenta a inflação, e os governos, com forte apoio dos interesses financeiros, estão elevando as taxas básicas de juros, como se as economias estivessem superaquecidas, muito dinâmicas. Mas examine, por exemplo, a energia. A produção e o consumo de petróleo no mundo giraram em torno de 90 milhões de barris por dia nas últimas décadas, notavelmente estáveis. Mas seus preços têm apresentado um comportamento ioiô. Isso é atribuído a “mercados”, mas o fato é que os custos de extração, o volume de oferta e o uso final não mudaram significativamente. Não tivemos que esperar pelo conflito na Ucrânia para especular sobre o petróleo 1