Domingo, 19 de abril de 2026
Fleury: A saúde na construção democrática do Brasil
Contribuição da Reforma Sanitária vai muito além do SUS. De raiz comunista e forte caráter de movimento, ela formula estratégia contra-hegemônica, cria conceitos teóricos e forma novos sujeitos políticos. Aí mora sua vitalidade – ainda útil para as lutas de nosso tempo
OutraSaúde
Por Sonia Fleury

Manifestação do movimento Nenhum Serviço de Saúde a Menos em 11 de agosto de 2017. Manguinhos, Rio de Janeiro, Brasil. Fonte: revista Saúde em Debate
Por Sonia Fleury, na revista Trabalho, Educação e Saúde
Interrogar um campo singular como um ‘caso exemplar’, uma ‘hipótese’, um momento de uma estrutura que pode assumir diferentes configurações, em suma, como um ‘caso particular do possível’ (isto é, mergulhar no caso particular, mas com um método de construção de objeto), é dotar-se dos meios de escapar à tendência à universalização do caso singular e levantar questões gerais a propósito do caso particular constituído como tal, em suma, tratar a história como um imenso laboratório de variações experimentais.
(Bourdieu, 2015, p. 18)
A celebração dos quarenta anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), realizada em março de 1986, nos convida a refletir sobre como as lutas pela universalização do direito à saúde — organizadas sob o slogan ‘Saúde é Democracia; Democracia é Saúde’ — conformaram o conteúdo político e a arquitetura institucional da democracia brasileira. Mesmo após a pandemia de covid-19, quando o Sistema Único de Saúde (SUS) foi amplamente reconhecido como a maior inovação democrática, ainda ficaram pendentes as respostas a importantes questões: como foi possível a materialização desse projeto, formulado por um movimento social, o Movimento Sanitário, em um contexto de ditadura e implementado sob um regime de austeridade? E para além do SUS, que outras contribuições a saúde coletiva conseguiu imprimir à construção democrática que ainda não foram devidamente reconhecidas?
