Quinta, 25 de julho de 2024

Cerimônia de entrega de diploma póstumo a Honestino Guimarães acontece nesta sexta (26), às 15h30, na UnB - Foto: Reprodução
"Agora a UnB decidiu conceder o diploma a Honestino e reverter sua expulsão injusta"
Betty Almeida*
Brasil de Fato | Brasília (DF) | 25 de julho de 2024
Em 1968, o movimento estudantil estava em ascensão no Brasil, como em todo o mundo. Era movido pela luta de classes, pelo desejo dos estudantes de transformar a sociedade, de reorganizar o modo de produção da sociedade, para que os trabalhadores, que produziam os bens, pudessem usufruir do produto do seu trabalho. E era preciso tomar o poder para criar essa nova sociedade. Mas esse poder estava nas mãos daqueles que se beneficiavam do trabalho para enriquecer, e não abriam mão de seus privilégios, não abandonavam o poder pacificamente.
Os jovens trabalhadores e os estudantes eram a nova geração progressista, em conflito direto com os detentores do poder, encarniçados em suas posições de dominação e habituados a explorar para lucrar. Havia ainda a luta entre gerações amalgamada com a luta de classes. Novos conceitos, nova moral, nova consciência, emergiam. Mulheres e minorias étnicas e sexuais reivindicavam direitos e lutavam por eles.
Os trabalhadores queriam fazer valer seus direitos e para isso era necessário construir uma nova sociedade. Muitas organizações políticas surgiram, reunindo os que pretendiam empreender a transformação da sociedade. E muitos se lançaram de corpo e alma nessa luta. Um desses militantes era Honestino Monteiro Guimarães, que, como tantos, renunciou ao convívio familiar e às perspectivas de sucesso pessoal para viver como clandestino, perseguido pela repressão política que tinha como objetivo exterminar aqueles que ameaçavam organizar os oprimidos para que tomassem o poder e construíssem uma nova e justa organização social.
Honestino era estudante de geologia na Universidade de Brasília. Sua consciência dos problemas que afligiam o povo brasileiro, as classes trabalhadoras e os estudantes o fez participar do movimento estudantil e da luta contra a ditadura. Foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília e organizava os estudantes para a luta política em defesa do ensino universitário público, gratuito, democratizado, aberto aos jovens de todas as classes sociais.
Nesse contexto, participou da expulsão do quadro docente da UnB de um falso professor, que forjara documentos para aproveitar-se da situação de instabilidade depois dos ataques da ditadura à UnB por ocasião do golpe militar de 1964 e introduzir-se na UnB.
No dia 26 de setembro de 1968 o Conselho Diretor da UnB, formado por Adroaldo Dias de Mesquita, Amadeu Cury, Antonio Moreira Couceiro, Ivan Luz, Plínio Cantanhede e presidido pelo então reitor Caio Benjamin Dias, excluiu Honestino Monteiro Guimarães, (que apesar das perseguições já havia completado a maior parte dos créditos necessários para se formar) do quadro discente da UnB. No mesmo dia, excluiu também o falso professor, Ricardo Román Blanco. E na mesma data, o reitor Caio Benjamin Dias nomeou vice-reitor o professor José Carlos Almeida Azevedo, que era também capitão-de-fragata da Marinha. Azevedo, em todos os longos anos em que foi vice-reitor e depois reitor, dedicou-se a vigiar e punir os estudantes, professores e demais trabalhadores da UnB. Aplicou punições de expulsão e suspensão a dezenas deles.
A Honestino, expulso da UnB, já condenado em alguns processos e perseguido por mandados de prisão, sem direito a habeas corpus pelo AI-5, restou a clandestinidade, até ser localizado e capturado pelos carrascos da ditadura. Não foi preso formalmente, mas sequestrado, sem testemunhas, e nunca mais foi visto.




