Domingo, 9 de julho de 2023

Casas. Hospitais. Estradas. Redes hídricas. Fazendas eólicas. Infraestruturas indispensáveis à vida estão sendo capturadas por “gestoras de investimento” como a BlackRock. Quais são? Como surgiram? De que forma afetam as sociedades?
OUTRASPALAVRAS
Publicado em OUTRASPALAVRAS em 07/07/2023
Brett Christophers em entrevista a Derek Seidman, no Truthout | Tradução: Antonio Martins
A quem o mundo pertence? Nos últimos anos, um tipo de ator financeiro despontou como resposta a esta questão: as empresas de administração de ativos.
As “administradoras de ativos” supervisionam dezenas de trilhões de dólares em investimentos em ativos em todo o mundo. As empresas mais conhecidas são as “Três Grandes”: BlackRock, Vanguard e State Street Global Advisors. Seu modelo de negócios baseia-se em grande parte nos chamados fundos de índice “passivos”, cujos investimentos em ações tornam essas empresas os principais acionistas de milhares de corporações.
Mas as administradoras de ativos não possuem apenas instrumentos financeiros como ações e títulos da dívida de empresas e Estados. Elas são cada vez mais as proprietárias diretas dos ativos “reais ” que moldam nossos meios de subsistência. De casas a hospitais, redes de água a parques eólicos — as empresas de administração de ativos [asset management firms, em inglês] com nomes como Blackstone, Brookfield e Macquarie estão devorando as estruturas básicas das quais todos dependemos para existir. E com o objetivo de extrair grandes lucros da forma mais implacável e rápida possível, essa nova sociedade não é um bom presságio para a humanidade.
Este é o tema do novo livro de Brett Christophers, Our Lives in Their Portfolios: Why Asset Managers Own the World [“Nossas vidas em seus portfólios: Por que as administradoras de ativos governam o mundo”, em tradução aproximada], publicado pela Verso press. Christophers abre a cortina de um setor notoriamente opaco e o desmistifica, examinando clara e minuciosamente o que é, as forças que o impulsionam a extrair lucro impiedosamente e o que tudo isso significa para o nosso futuro coletivo.
Christophers é professor do departamento de Geografia Social e Econômica da Universidade de Uppsala, na Suécia. Ele é o autor ou coautor de cinco livros anteriores, incluindo Rentier Capitalism: Who Owns the Economy, and Who Pays for It?
Nesta entrevista exclusiva a Truthout, Christophers discute o que as administradoras de ativos fazem, como são programadas para ampliar agressivamente os lucros, como capturam cada vez mais “ativos reais” como habitação e infraestrutura de energia, e o que podemos fazer a respeito.
Embora as administradoras de ativos tenham muito poder em nossa sociedade, muitas pessoas não sabem o que são, como operam e por que são tão poderosos. Você pode nos propor um breve resumo?
Brett Christophers: Na realidade, é um negócio simples. Administradoras de ativos são empresas que investem em nome de terceiros. Eles captam dinheiro de investidores finais, — tanto indivíduos ricos quanto investidores institucionais, como planos de aposentadoria privados e seguradoras. As administradoras de ativos realizam seus investimentos e esses investidores pagam taxas por esse serviço.
Isso é basicamente o que as administradoras de ativos fazem: investem o dinheiro dos outros e ganham comissões por isso. Elas podem investir em muitas coisas diferentes, como ativos financeiros (ações, títulos, ou outros) – qualquer coisa, na verdade.
Elas deixaram de ser atores marginais na economia há algumas décadas, para serem muito significativas hoje. A forma tradicional de medir seu tamanho ou importância é a quantidade de capital que administram. Na década de 1970, era menos de um trilhão de dólares globalmente. Hoje, esse número é da ordem de US$ 100 trilhões — mais que o PIB de todo o planeta.
Ou seja: elas passaram de nada, essencialmente, a extremamente grandes, em um espaço de tempo relativamente curto.
Qual é o papel dos “fundos” no negócio de administração de ativos?
Se você é um administrador de ativos que reúne capital de clientes, precisa de um veículo que lhe permita amealhar estes recursos e investi-los. O fundo de investimento é o principal veículo utilizado para isso. Esses fundos vêm em diferentes formas e tamanhos — fundos de riqueza privada [private equity], fundos de índice, fundos mútuos — mas são todos criações da indústria de administração de ativos.
Quando você lê que, digamos, a BlackRock comprou este ou aquele ativo, é uma forma abreviada de dizer que um fundo de investimento administrado pela BlackRock comprou o ativo. Na verdade, isso significa que os verdadeiros proprietários do ativo não são os gestores de ativos, mas as diferentes entidades – e pode haver centenas delas — que destinaram dinheiro a esse fundo de investimento. A BlackRock pode colocar uma pequena quantia de seu próprio capital em seus fundos — normalmente, cerca de 2% — mas a maior parte do capital do fundo é de fundos privados de aposentadoria, seguradoras e indivíduos de alto patrimônio líquido.
O fundo está no cerne do setor porque é o veículo por meio do qual os administradores de ativos fazem o que fazem. É por isso que eles costumam ser chamados de “gerentes de fundos”.
Administradoras de ativos como a BlackRock e Vanguard recebem muita atenção. Têm participações acionárias significativas em milhares de empresas. Mas você quer colocar o foco em administradoras que controlam diretamente “ativos reais”, como residências, serviços públicos e hospitais. Por que achou importante fazer essa distinção em sua análise?
As administradoras de ativos convencionais investem principalmente em ações de empresas de capital aberto, como as da Apple e Google, e títulos de dívida emitidos por essas empresas e por governos. Normalmente, fazem isso por meio dos chamados “fundos de índice” que replicam o desempenho dos principais índices do mercado, como o S&P 500.
Há uma boa razão pela qual as administradoras de ativos convencionais estão no foco. É aí que ocorre a maior parte do investimento, em termos de números absolutos. Se você olhar o registro de acionistas de qualquer grande empresa listada nos Estados Unidos, verá os BlackRocks e os Vanguards.
Eu mudo o foco por alguns motivos. Por um lado, gestores de ativos convencionais como BlackRock e Vanguard já receberam muita atenção como proprietários de corporações capitalistas contemporâneas. Mas também argumento que seu significado é superestimado. Argumenta-se que, como essas empresas possuem 7% ou 8% de todas as grandes empresas, elas de alguma forma controlam a economia global. Não acho que tenham esse tipo de controle, nem mesmo que o desejem. Esse não é seu modelo de negócios.
Argumento que há toda uma outra área de gerenciamento de ativos, muito mais diretamente relevante para a vida cotidiana das pessoas: a propriedade e controle, pelos administradores de fundos, de “ativos reais” dos quais dependemos fundamentalmente — como habitação e infraestrutura: redes elétricas, sistemas de estacionamento em centros urbanos, estradas com pedágio, hospitais, escolas, terras agrícolas e assim por diante.
Na medida em que os gestores de ativos são proprietários de moradias e infraestruturas das quais dependemos, e que determinam quanto custa para nós morarmos naquela moradia e usarmos essa infraestrutura, eles também determinam as condições em que esses ativos existem e têm um enorme impacto sobre nossas vidas diárias. É algo que tem sido muito pouco abordado e debatido.
Às vezes, você usa palavras como “extrativo” e “colonizador” para descrever a relação entre os gestores de ativos e os ativos reais que eles controlam. Você pode elaborar?
Embora todos os proprietários privados tentem obter lucro, os administradores de ativos tendem a ser particularmente implacáveis e obstinados em ganhar com os ativos que supervisionam.
Há várias razões estruturais para isso. Uma delas são os altíssimos salários nessas empresas. Um artigo no Financial Times relatou que o salário médio na Blackstone agora é de cerca de US$ 2 milhões anuais. Não é possível pagar esse tipo de salário, a menos que você seja bastante implacável em extrair lucros dos ativos que possui. Você não pode ser um proprietário que oferece descontos no aluguel aos inquilinos e paga US$ 2 milhões para seus diretores.
Da mesma forma, os fundos de investimento administrados por gestores de ativos reais cobram taxas muito altas, em comparação com os fundos de índice. A norma do setor é cobrar dos investidores uma taxa de administração de 2% ao ano e uma taxa de desempenho de 20%. Isso só é possível quando se promete aos investidores retornos muito altos. E você só pode entregar esses altos retornos se for muito implacável e focado em extrair lucro. Como gerente de ativos, você é compelido pela natureza do seu negócio a ser implacável.
Outro fator importante são os horizontes de tempo de curto prazo envolvidos na gestão de ativos reais. Os gestores de ativos afirmam ser guardiões comprometidos e cuidadosos de habitação e infraestrutura. Mas, na realidade, seus investimentos em ativos reais são realizados principalmente por meio de fundos “fechados” que têm uma vida fixa — digamos, 10 anos. Isso significa que — e esta é uma das coisas mais importantes a entender sobre todo o setor de gestão de ativos — quando os gestores de ativos compram casas e infraestrutura, quase sempre os compram com a intenção de vendê-los dentro de sete ou oito anos — ou mesmo dois ou três anos, se puderem obter um grande lucro.
Em outras palavras, assim que um gestor de ativos investe em um ativo habitacional ou de infraestrutura, a primeira coisa em sua mente é: “Como podemos maximizar o preço de venda o mais rápido possível?” Se estamos falando sobre habitação, isso significa aumentar os aluguéis o mais rápido e o mais alto possível. Significa minimizar os custos operacionais relacionados a investir dinheiro e ser um bom proprietário, e aderir a soluções Band Aid para manutenção.
Você pode dizer mais sobre como a necessidade humana básica de habitação caiu sob o domínio dos gestores de ativos e as implicações disso?
No início da década de 1990, os gestores de ativos começaram a comprar significativamente nos mercados imobiliários globais, mas isso aumentou após a crise financeira de 2008. De repente, você tinha enormes estoques de “moradias problemáticas” por causa de execuções hipotecárias maciças, especialmente nos Estados Unidos. Muitas casas ficaram rapidamente disponíveis e muito baratas. Vergonhosamente, o governo dos Estados Unidos permitiu que grandes gestores de ativos comprassem grandes quantidades de imóveis em condições muito favoráveis.
Desde então, o investimento das administradoras de ativos em habitação cresceu cada vez mais. Não surpreende que os aluguéis subam tanto, nos Estados Unidos e internacionalmente. Não há casas suficientes sendo construídas em muitos lugares, os aluguéis estão subindo, e isso é algo em que os gestores de ativos querem investir. Os governos não impediram que as administradoras comprassem uma imensa quantidade de moradias. Na verdade, eles as encorajaram.
As implicações foram muito negativas. Por um lado, o rápido aumento dos aluguéis em moradias que ficaram sob o controle das administradoras de ativos. Por outro lado, resultados deletérios em outros aspectos da habitação além do aluguel, como despejos. Se você observar os índices de despejo em uma determinada região metropolitana e comparar as moradias alugadas pertencentes a administradoras de ativos com as habitações pertencentes a outros tipos de proprietários, verá que os índices de despejo tendem a ser substancialmente mais altas quando os proprietários são gestores de ativos.
Você aponta como os gerentes de ativos capturaram grande parte de nossa infraestrutura. E é provocativo ao dizer que “a transição dos combustíveis fósseis para os renováveis também representa uma transição para a sociedade de administração de ativos”. Você pode elaborar essa afirmação?
Uma coisa que quase nunca se fala em relação à transição energética é o que isso significa em termos de propriedade. A infraestrutura de energia baseada em combustíveis fósseis foi, em todo o mundo mais ou menos dividida entre o setor público e o setor privado. Empresas estatais são grandes proprietárias de reservas de combustíveis fósseis. Mas, no Ocidente, o Estado está ausente das instalações de energia limpa. É algo que ficou, em sua maior parte, nas mãos do setor privado.

