“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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terça-feira, 1 de outubro de 2024

O inexplorado papel da Comunicação para o SUS

Terça, 1º de outubro de 2024

Após 35 anos, Ministério da Saúde continua a utilizar as mesmas estratégias anacrônicas. Mas comunicar-se com a população é crucial para enfrentar novas crises – inclusive a emergência climática. Uma experiência mostra como a arte também é essencial

OutraSaúde

Publicado no OutraSaúde em 30/09/2024

Cia. São Jorge de Variedades – O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado. A arte e os artistas brasileiros podem ter papel importante para fazer a comunicação entre o Ministério da Saúde e a população. Créditos: Fora do Palco

Recentemente o site Outra Saúde publicou o texto “Faltava este mapa para enxergar as lutas da Saúde”, de Gabriela Leite, sobre o lançamento do Mapa Colaborativo dos Movimentos Sociais em Saúde. Sem dúvida, importante iniciativa em defesa do SUS. Mas, há lacunas nesse assunto. Entre elas, as medidas adotadas no âmbito do SUS – no que se refere ao acesso às informações – para diminuir a histórica distância entre os serviços e seus usuários nos três níveis de governo.

Logo depois, no mesmo site, o texto “Brasil em chamas: o preço diante da inação”, de Ubiratan de Paula Santos, traz em sua primeira frase: “Queimadas terão imenso impacto no SUS”. E aborda as danosas consequências das mudanças climáticas para a saúde humana. E, acredito, para a saúde animal.

Faço a relação entre os dois artigos, endossada pelo respeitado cientista Carlos Nobre: “Todos os cientistas estão apavorados” (“nst total”, 21/09/2024). Os alertas sobre riscos aumentam com as trágicas queimadas no Brasil. A inimaginável destruição do território brasileiro pelas queimadas, gravíssima na região Norte, se espalha por outras regiões com consequências imprevisíveis para a saúde das populações.

Esse quadro preocupante exige medidas urgentes e eficazes, quando a informação pública pode prevenir, minorar sofrimentos e agravos à saúde. Portanto, vale revisar as práticas do setor público de saúde, tendo como foco o Ministério da Saúde – considerado “cabeça do sistema” SUS.

Em 1989, escrevi o texto “Saúde e comunicação social” (Jornal do Brasil, 22/04/1989), o primeiro publicado sobre o tema na chamada grande mídia. Justifiquei, à época, a necessidade urgente de se desenhar e implantar uma política de Comunicação Social fundamentada nos princípios constitucionais do SUS. Estávamos redefinindo os rumos da saúde pública brasileira, com o SUS garantido na Constituição.

Trinta e cinco anos depois, nada de relevante mudou. A Comunicação Social continua ausente das discussões sobre as políticas públicas de saúde. Sem reflexões teóricas, sem avaliação de suas práticas, sem propostas. No SUS considera-se indispensável a participação dos usuários na gestão dos serviços de saúde, o que obriga a transparência e a credibilidade na troca de informações entre as duas partes.

Destaco o parágrafo do artigo de 1989, pela atualidade do que foi publicado:

“Em princípio, é evidente o abismo entre os pressupostos do sistema único e as atuais práticas de comunicação social nas instituições públicas de saúde. Essas práticas têm se concentrado basicamente em dois aspectos: no trabalho voltado para a imprensa ou divulgação na promoção da imagem institucional e/ou de seus dirigentes. E na promoção de campanhas de vacinação ou ‘prevenção’, cujos resultados nunca são avaliados, em âmbito nacional, do ponto vista da contribuição do material institucional de comunicação para o alcance das coberturas vacinais, utilizadas como estratégias no controle de doenças.”

A produção de informações para mídia continua existindo. Assim como o marketing institucional (e/ou pessoal dos dirigentes), em alguns casos, prevalece no trabalho das “assessorias de Comunicação”, inclusive do Ministério da Saúde. E, assim, reproduzido em suas possibilidades nos estados. Até porque não há outro modelo proposto para divulgar informações sobre saúde no âmbito do SUS.