Quarta, 9 de novembro de 2022

Por trás do engodo de “Brasil quebrado”
A velha mídia tenta enquadrar Lula, alegando rombo nas contas públicas e necessidade de “austeridade”. Mas a reconstrução nacional não se dará através de medidas provisórias. Será preciso revogar o Teto de Gastos, em nome do desenvolvimento econômico e social
OUTRASPALAVRAS MERCADO X DEMOCRACIA
Por Paulo Kliass
Publicado 08/11/2022
Mal terminou o segundo turno das eleições presidenciais e os grandes meios de comunicação já anunciam o fim da lua-de-mel, meio relâmpago e a contragosto, que ensaiaram com Lula. Bastou que os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmassem a derrota de Jair Bolsonaro para que tivesse início o bombardeio da imprensa tradicional contra qualquer possibilidade de flexibilização nas regras da política fiscal e mesmo de implementação de medidas anunciadas ao longo da campanha visando a solução de problemas emergenciais e também de médio e longo prazos. Clamam pela manutenção da austeridade contra o povo e contra o Brasil.
Na verdade, tal estratégia já vinha sendo desenhada desde antes mesmo da realização do primeiro turno. Uma vez constatada a inviabilidade política e eleitoral da chamada “terceira via”, os poderosos da comunicação começaram a refletir em suas linhas editoriais o sentimento de parcela das nossas classes dominantes. O receio da reeleição de Bolsonaro terminou por invocar uma tática de voto útil de tais setores em Lula, apesar de todas as divergências que ainda existissem da burguesia tupiniquim quanto à figura do ex presidente e com relação aos 14 anos de governo do PT. No entanto, apesar desse apoio contrariado, o caminho passaria por criar dificuldades para que o terceiro mandato e, assim, impedir que o mesmo pudesse ser um momento de maior liberdade para um governo de conteúdo progressista e desenvolvimentista.
Todos os dias saíam editoriais e matérias “exigindo” que o futuro presidente já anunciasse seu comandante da economia, uma espécie de Guedes do lado de cá. E dá-lhe pressão e chantagem de todo o tipo para que o perfil do indicado coubesse no figurino de um Henrique Meirelles, de um Pérsio Arida ou qualquer outro que seja comprometido até a medula com a agenda econômica do financismo. Por outro lado, começava a ser criado o clima de catastrofismo bem típico desse tipo de conjuntura, onde o anúncio do caos é combinado com a oferta, nada ingênua nem descomprometida, de um pacote de austeridade na economia.
Lulalá e o fim de Bolsonaro
De qualquer forma, o fato é que já na segunda-feira pela manhã, no próprio dia 31 de outubro, a grande imprensa se viu obrigada a assumir o sentimento geral que passou a vigorar no ambiente político interno e internacional. Rei morto, rei posto. Lula conseguia a proeza de ser imediatamente cumprimentado por Putin e Zelensky, por Biden e Díaz-Canel, pela União Europeia e pelos governantes daquele continente, por Xi Jinping, pela totalidade de governantes latino-americanos e por uma quantidade impressionante de chefes de Estado de todos os continentes. Internamente, o Centrão e os líderes do fisiologismo não esperaram nem 24 horas para abandonar o barco em naufrágio de Bolsonaro. Desde então, sinalizam para Lula a intenção de “colaborar” com seu governo, mas sabemos bem quais são o preço e as condições de tal oferta.
