Domingo, 15 de outubro de 2023
Do PRAVDA.Ru
Chomksy: O Esquecido 11/9 Chileno, Incomparavelmente Pior que o Americano
O analista americano recorda o 50º aniversário do golpe chileno, observando o poder da propaganda americana sobre o imaginário global ao jogar no esquecimento o terror vivido no Chile durante a ditadura a partir de 1973, enquanto superdimensiona o 11/9 nos EUA, no centro das atenções históricas. “Washington foi a Al-Qaeda no Chile”, aponta o intelectual mais respeitado do mundo em conversa com Edu Montesanti

Este mês de setembro marca 50 anos do golpe militar no Chile, que instaurou o brutal regime do general Augusto Pinochet (1973-1990). Terrorismo de Estado arquitetado e financiado por outro Estado, o americano, que deixou como saldo 40 mil mortos e “desaparecidos”, além de mais de 200 mil exilados segundo dados oficiais.
Os 17 anos de ditadura deixaram graves consequências entre os chilenos, trazidas aos dias de hoje. Sem a devida memória em todo o mundo segundo suas reais dimensões, a não ser dentro do próprio Chile. E, marca registrada das “intervenções democráticas” e “humanitárias” dos EUA, sem justiça internacional até hoje.
A partir de 11 de setembro de 1973, quando as Forças Armadas chilenas supreendentemente cercaram e bombardearam o Palacio de la Moneda, casa presidencial do mandátario socialista Salvador Allende (1970-1973), o povo chileno viveu “uma guerra subterrânea” de quase duas décadas conforme mencionado no documentário Clandestino en Chile de 1985, dirigido por Miguel Littín.
O Golpe de 73
Salvador Allende, autoproclamado marxista e membro do Partido Socialista do Chile, havia prometido em campanha presidencial nacionalizar as empresas de cobre, de propriedade majoritariamente dos americanos, um grande negócio no Chile.
Em plena Guerra Fria e diante da socialista ilha de Cuba em permanente revolução contra o histórico imperialismo americano e as mazelas do sistema capitalista, Washington já manifestava preocupação com a ascensão de Allende no sul do hemisfério bem antes de este tomar posse como presidente de um dos países, historicamente, mais adiantados da região em termos educacionais.
Nos meses que antecederam as eleições chilenas de 4 de setembro de 1970, uma sexta-feira, vencidas por Allende, os EUA injetaram no país sul-americano milhões de dólares em uma “operação de destruição”, grande parte da qual era propaganda destinada a impedir que Allende tomasse o poder, e acirrasse a polarização politica entre os chilenos aumentando, assim, a tensão entre a sociedade no país sul-americano.
O general chileno René Schneider opôs-se a esta trama, e acabou assassinado em 23 de outubro de 1970. Sobre isto, o programa 60 Minutes da da rede americana de notícias CBS News relatou, em 9 de setembro de 2001:
No Chile, o assassinato do General Schneider continua sendo o equivalente histórico do assassinato de John F. Kennedy: um crime político cruel e chocante que abalou a nação. Nos Estados Unidos, o assassinato de Schneider tornou-se um dos estudos de caso mais renomados dos esforços da CIA para “neutralizar” um líder estrangeiro que se interpôs no caminho dos objetivos dos EUA.
Segundo relatório do Senado americano de 1975 intitulado Ação Secreta no Chile/1963-1973, os EUA gastaram 8 milhões de dólares em ações secretas apenas entre 1970 e o golpe de 1973. O jornal El Mecurio, maior do Chile e oposicionista a Allende, recebeu da CIA nada menos que 1,5 milhão de dólares.
O presidente americano Richard Nixon e Henry Kissinger, seu assistente para assuntos de segurança nacional, viam o novo presidente eleito democraticamente no Chile, como ameaça aos interesses dos EUA.
O regime de Washington tentou de tudo a fim de impedir que Allende tomasse posse. O presidente Richard Nixon reconheceu que havia dado instruções para “fazer qualquer coisa que não fosse uma ação do tipo dominicano” para impedir que o presidente democraticamente eleito do Chile assumisse o cargo, de acordo com um áudio da Casa Branca postada pelo Arquivo de Segurança Nacional.
Tudo isso em vão: em em 3 de novembro de 1970 o presidente socialista eleito assumiu o poder. “O Chile votou calmamente para ter um estado marxista-leninista, a primeira nação do mundo a fazer esta escolha livre e conscientemente”, relatou dramaticamente o embaixador dos EUA no Chile, Edward Korry, a Washington em um telegrama intitulado “Allende Vence” em 4 de setembro de 1970.
“Nós sofremos uma derrota dolorosa; as consequências serão nacionais e internacionais; as repercussões terão impacto imediato em alguns países, e efeito retardado em outros”, escreveu o diplomata americano.
A CIA, então, passou a promover encontros com militares chilenos a fim de provocar um golpe. O documento abaixo de 23 de outubro de 1973, desclassificado em 2000 nos Estados Unidos e publicado no sítio do NSA, comprova tal complô.
“A estação [Missão Diplomática americana em Santiago] tem feito um excelente trabalho guiando os chilenos ao ponto hoje onde a solução militar é pelo menos uma opção para eles”, é lido em um dos cabos secretos emitidos de Santiago, que menciona conversas entre oficias americanos e chilenos golpistas para a “solução militar” no Chile.
Um memorando secreto de 16 de novembro de 1973 enviado ao Secretário de Estado americano Henry Kissnger pelo embaixador dos EUA no Chile, Jack Kubisch, publicado no sitio do NSA (Department of State, Chilean Executions, role a tela), afirma que as execuções sumárias de cidadãos favoráveis a Allende nos dezanove dias que se seguiram ao golpe, já totalizaram 320 naquela data – mais de três vezes o número reconhecido publicamente.

