Sexta, 13 de maio de 2022
Convém botarmos as barbas de molho
Roberto Amaral*
Às vésperas de um pleito que é, sem dúvida, o mais importante de quantos tivemos desde o fim da ditadura instaurada em 1º de abril de 1964 (regime de terror que nos atanazaria por 21 longos e doloridos anos), o país volta a ser inquietado pelo temor de um golpe de Estado. Essa ameaça, aliás, não é nova, pois é a marca do atual governo, desde seus primeiros dias perseguindo a construção de um regime autoritário. Por mais de uma vez, como no 7 de setembro do ano passado, o capitão esteve próximo de romper com a ordem institucional. Sempre com apoio de seus seguidores, permanentemente mobilizados, como nos regimes fascistas nos quais busca inspiração. No quadro presente, frustradas as maquinações anteriores, o ponto nevrálgico é o processo eleitoral. A extrema-direita teme perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva, que, líder nas pesquisas de intenção de voto em 2018, foi impedido de participar do processo eleitoral pela aliança do judiciário e do oligopólio da comunicação com o bolsonarismo emergente. Desta feita, candidato e eventualmente eleito, o “peixe barbudo”, na linguagem de Leonel Brizola, pode ter sua posse contestada mediante o questionamento da lisura das eleições.
A história não se repete, mas no Brasil ela é recorrente. Em 1950 as eleições foram ameaçadas porque prometiam a vitória de Getúlio Vargas, o espantalho de então. A propósito, vale a pena lembrar o famoso artigo de Carlos Lacerda, expoente civil do golpismo nos anos 50/60 do século passado: “O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar” (Tribuna da Imprensa, 1º/06/1950). Como sabemos, Vargas foi eleito e empossado, para ser deposto em 1954.
Relembrando tempos que supúnhamos definitivamente escorraçados de nossa história, a hipótese de ruptura da ordem constitucional, conquistada após tantos anos de lutas contra as fileiras, relembre-se sempre, chega aos nossos dias sob a forma de denúncia dos editoriais dos ainda grandes jornais. O ombudsman da Folha de S. Paulo, na edição do último dia 8, escancara a gravidade da crise política em gestação já no título de sua matéria: “Vai ter golpe. Passe a informação”, para na sequência arrematar: “Folha e a imprensa devem trocar a presunção pela certeza do fato”. Com algumas alterações de estilo, assim têm falado O Globo e o Estadão, os jornalões que com o matutino dos Frias ditam a linha editorial de nossa imprensa. Esse discurso nos deve pôr a todos de sobressalto, pois de golpes de Estado, em suas diferenciadas modalidades, muito bem entende a mídia brasileira, que de todos participou, inclusive do golpe de 2016, que, ao depor Dilma Rousseff, asfaltou o caminho que nos trouxe à tragédia de nossos dias. Sem o concurso ativo da imprensa teriam sido inviáveis o impeachment e as arbitrariedades da lava- jato.
Mas que golpe é este que teria encontro marcado com o processo eleitoral de 2022, e contra o qual, dizem os mesmos jornais, a CIA já teria demonstrado desapreço?

