Sexta, 17 de novembro de 2023
Roberto Amaral*
(Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios. Ed. Expressão Popular e Books Kindle)
Segundo o calendário cívico, comemoramos 134 anos de uma República por ser, sucessora de uma velha monarquia, arcaica de nascença, filha do latifúndio e do escravismo, espaço de insurreições, golpes militares, intentonas e muitos anos de ditaduras e governos autoritários. Contados a partir da Constituição de 1891, foram seis estatutos políticos, duas cartas outorgadas e apenas quatro assembleias constituintes. Somente a derradeira, a de 1988, algo próxima da soberania popular, leito onde as democracias recolhem legitimidade. Se, antes, a Independência de 1822 resultara de dispendiosas negociações com o Império inglês, metrópole de Portugal, desta feita a mudança de regime operava segundo a marca indelével de nossa história, da colônia aos dias presentes: a regência política de cima para baixo.
Assim, nasceria, pela via de um golpe de Estado gerado pela oficialidade jovem do exército acantonada no Rio de Janeiro e mobilizada ideologicamente por intelectuais positivistas, aos quais devemos o reacionarismo do lema de nossa bandeira. Frustrada a resistência dos chamados jacobinos, como Rangel Pestana e Silva Jardim, cabe dizer, no entanto, que de uma forma ou outra avançávamos na modernidade e deixávamos de ser — finalmente! — a única monarquia das Américas. Há a registrar, hoje, a proximidade da efeméride com o Dia da Consciência Negra, pois a historiografia escolar nos diz que a república, inevitável em face de uma monarquia agônica, foi apressada pela Abolição, que, escandalosamente tardia, privara os barões da terra das indenizações requeridas pela perda de seus escravos, “peças” como registravam as papeladas dos cartórios.
Mas o novo regime era a continuidade do velho, dominado pela lavoura de São Paulo e Minas Gerais, que assegurou à oligarquia retrógrada e anti-industrialista o controle da economia e da política, até 1930, quando é levada a compor com a nova ordem civil-militar, que logo se libertaria das veleidades liberais da Constituição de 1934 para ingressar de corpo e alma na ditadura do “Estado Novo”, nome de fantasia que tomaria de empréstimo ao regime de Salazar, cuja violência honrou até 1945 e voltaria a honrar no mandarinato que a caserna inaugurou em 1º de abril de 1964, deixando-nos como legado um rol sempre incompleto de cadáveres insepultos e fardados impunes.

