“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O escravismo criou o Brasil

Quinta, 7 de outubro de 2021

Somos filhos do escravismo, a chaga colonial que pautou o império, argamassa daquilo que chamamos de nação, uma aspiração de povo, um projeto de país: “Não há, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da própria prosperidade. [...] Nós, brasileiros, somos um povo em ser impedido de sê-lo” (Darcy Ribeiro, O povo brasileiro). Continuamos como um projeto, um advir, olhando com justo mal-estar para nossa formação de povo, nação, país, uma expectativa sempre adiada, uma realidade sempre anacrônica, um permanente descompasso em face do mundo. 

Uma civilização que carrega a pena de Sísifo, sempre a refazer suas pegadas quando tudo indica haver-se encontrado com o progresso humano. Mas civilização incansável, que até aqui não renunciou ao ofício de tentar chegar ao topo da montanha, esperança após esperança, frustração após frustração: o império que reproduz a colônia; a república que convive com a hegemonia do latifúndio; uma “revolução” que não toca na ordem econômico-social; uma democracia que não convive com a emergência das massas. Os sonhos dos anos 1960 destruídos pela ditadura de 1964; as expectativas de um novo pacto social desfeitas pelo golpe de 2016; a irrupção da extrema-direita em país que se supunha democrático e progressista. A tutela militar quando o país da “Constituição cidadã” aspirava à sua maioridade. Se continuamos lutando e nos nutrindo de esperanças, tem-nos faltado, porém, até aqui, engenho e arte para impedir que o destino desejado resvale de nossas mãos como a pedra que Sísifo, condenado a uma vida sem sentido, não consegue manter no alto. 

Este, o grande desafio da esfinge.

A base de nossa formação são o etnocídio e o escravismo, a violência do senhor da terra sobre o trabalhador, o mando da casa-grande sobre a senzala, do engenho sobre o eito; do capital crescentemente monopolista e açambarcador sobre o trabalho humano, explorado em níveis chocantes até mesmo para os padrões do capitalismo internacional. Assim se explica nossa sociedade estruturalmente autoritária e racista apta a reproduzir, no capitalismo que a tanto se presta, as formas mais indignas de exploração do trabalho humano.