“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 14 de março de 2025

A ascensão fascista e o refluxo das esquerdas

Sexta, 14 de março de 2025

Roberto Amaral*
 
“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.”
(Karl Marx, O 18 brumário de Luís Bonaparte).

 
Qualquer leitura dos tempos atuais falará da ascensão planetária de forças políticas que transitam do autoritarismo puro e simples a engenhos fascistas, relembrando os processos sociopolíticos das primeiras décadas do século passado, animados pelas brutais desigualdades sociais. Após conquistarem a Itália e a Alemanha, essas forças engolfaram o mundo na Segunda Guerra Mundial, catástrofe intermitente que chega aos nossos dias com um novo figurino, novos meios de expressão e novas nomenclaturas, mas sempre aterrorizante e, mais que nunca, apontando para desfechos de atrocidade inimaginável, na medida em que inimaginável é o crescente poder suicida da sociedade humana, mais próxima de Hobbes do que de Rousseau.

A catástrofe que se aproxima a olhos vistos pode ser o preço cobrado pelo encontro da crise do capitalismo com a disputa comercial-militar dos grandes blocos pela hegemonia planetária, presentemente mais aguda, embora as opções que dividem o mundo não mais girem em torno de utopias. Hoje, como sempre, o belicismo é o segundo momento das crises cíclicas do capitalismo, incapaz de superar os problemas econômicos e sociais que ele próprio gera, e ainda incapaz de construir uma alternativa à disputa intra-hegemônica. O esvaziamento político-econômico da antiga Europa Ocidental — e, no mesmo embalo, a falência das democracias ditas liberais — associa-se à acelerada decadência dos EUA (a grande máquina econômica, política e militar do capitalismo) vis-à-vis à ascensão econômica e estratégica da Eurásia, sob a liderança de uma China que chega aos nossos dias como potência econômica, militar e tecnológica.

O Ocidente e o capitalismo se abraçam em uma crise comum sem retorno, e o caminho que constroem, hoje repetindo o passado, é o da violência. A reassunção fascista é uma exigência do capitalismo em crise, e a paranoia é uma necessidade do fascismo.