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quinta-feira, 18 de julho de 2024

SAGA MEXICANA EM TRÊS ARTIGOS NO MONITOR MERCANTIL

Quinta, 18 de de julho de 2024

Textos de Pedro Augusto Pinho publicados originalmente no Monitor Mercantil*

Por Pedro Augusto Pinho*

1º Artigo: Do primeiro núcleo civilizacional nas Américas à República (2 e 3/julho/2024)

O HOMEM AMERICANO

O surgimento do homem, com as características físicas e intelectuais do atual, deu-se no território onde hoje se encontra a Etiópia, há mais de 30 mil anos, e a primeira organização foi aquela que se desenvolveu nas margens do rio Nilo, a nilótica.


As seguintes organizações humanas também se formaram, naqueles remotos tempos, junto aos rios: na Mesopotâmia, nos rios Tigre e Eufrates, e no extremo oriental da Ásia, a civilização Zhou, ao longo e na foz do rio Amarelo, onde hoje estão as atuais províncias chinesas de Hebei e Shandong.


O tempo e a diversidade de obstáculos que enfrentaram os homens, caminhando da África ao leste da Ásia, fez com que a civilização Zhou se distinguisse da nilótica, pelo acúmulo cultural.


Este homem mais preparado atravessou a ponte de gelo, formada na glaciação Würn, ligando a Ásia à América para vir ocupar o “Novo Mundo”. E o primeiro lugar acolhedor encontrado foi no território do atual México, formando a cultura asteca no Platô Mexicano.


Enrique Peregalli (“A América que os Europeus Encontraram”, Editora Atual e Editora da UNICAMP, Campinas, 1986) descreve as “Altas Culturas” pré-colombianas aquelas que compreendem a “Confederação Asteca, as Cidades-estado Maias e o Império Inca”.


A prova mais evidente do nível de desenvolvimento da Confederação Asteca são seus textos em língua nauatle, salvos da destruição promovida pelo rei Felipe II, da Espanha, por padres franciscanos, e que foram traduzidos e anotados por Georges Baudot (G. Baudot e Tzvetan Todorov, organizadores, “Relatos Astecas da Conquista”, tradução para o português por Luiz Antonio Oliveira de Araújo, Editora UNESP, SP, 2019). Do Códice Florentino, destes “Relatos” retiramos “Os oito presságios funestos”, sinteticamente, como seguem:


“Apareceu, dez anos antes dos estrangeiros, um presságio de desgraça como chama de fogo, uma língua de fogo, como aurora. E se mostrou durante um ano inteiro”.


“Em Tlacateccan surgiu um fogo que ardeu com rapidez extrema devorando toda casa e quanto mais se jogava água, mais o fogo ardia”.


“Um templo foi ferido por um raio. Não era uma chuva torrencial, mas um leve chuvisco que caiu sobre a casa de palha”.


“O sol brilhava quando caiu um cometa, de cauda muito comprida, dividido em três partes”.


“A água se pôs a borbulhar e redemoinhar engolido as casas”.


“A mulher chorava, gemia e dizia: meus filhos amados, chegou a hora de nossa partida”.


“Pescaram um pássaro como um grou com a rede, no lago. Havia um espelho redondo na cabeça do pássaro, e mostrava um céu com estrelas. Quando Montezuma olhou pela segunda vez, viu as pessoas correndo como se preparassem para guerra”.


“E muitas vezes apareciam homens deformados com duas cabeças e um só corpo”.


O religioso Diego Muñoz Camargo (1529-1599), nascido no México, filho de pai espanhol e mãe nativa, foi também cronista de destaque, pertencente a um grupo de cronistas mestiços. Sua “História de Tlaxcala” permanece como fonte importante para história do México. E nela encontra-se, em síntese, sua interpretação desses presságios como segue.


Dez anos antes da chegada dos espanhóis, houve imenso incêndio que se considerou um mau agouro. Os quatro últimos podem ser assim considerados: os vários cometas a agressão que colocou as pessoas clamando, gritando e gemendo; o vento e a água subindo cobrindo mais da metade das casas e as desmoronando; a mulher que chorava pensava como esconder os filhos das catástrofes; na cabeça da estranha ave pescada, Montezuma viu esquadrões marchando para o combate e, por fim, um corpo de duas cabeças indicava o fim dos indígenas e os novos habitantes.


O que Enrique Peregalli, citado, chama “Confederação Asteca” constituía um conjunto de 38 províncias, onde povos de língua, religião e costumes diferentes conviviam. Eram os zapotecas e os mixtecas, da costa do Pacífico, e os totonacas, do golfo do México.


Os zapotecas tinham a liderança religiosa de um sacerdote celibatário. Seus conhecimentos astronômicos, seu calendário, a fonética, a escrita ideográfica (ainda não decifrada), além do artesanato em barro, cristal e pedra, e confecções têxteis são mostras do grau civilizatório.


Quanto aos mixtecas, suas lendas e tradições constituem importante fonte de reconstrução histórica. Havia unidade religiosa, que convivia com a divisão política em pequenas cidades-estado. Lamentavelmente a ignorância e a ambição do poder dos espanhóis queimaram os pergaminhos mixtecas, por motivos “religiosos”. Mixtecas e totonacas se uniram contra os zapotecas.


Totonacas eram comerciantes e produtores de instrumentos; deles ficou o jogo do voador, “realizado com quatro participantes amarrados nos tornozelos por longas cordas, ligadas a um pequeno tambor giratório, colocado na extremidade superior de um poste de 25 metros de altura” (apud E. Peregalli).


GENOCÍDIO EUROPEU


No México, como ocorreu em todas as Américas, a presença europeia resultou no genocídio que atingiu aproximadamente 90% da população nativa. Foi o resultado da transformação da Europa das dinastias familiares para Europa dos Estados, na passagem dos séculos XV e XVI, e em nova economia, da extração mineral, da apropriação dos recursos agrícolas, do comércio e da expansão marítima.


Portugal deu partida circundando a África, sendo seguido pela Espanha, Holanda, França e Inglaterra, os grandes estados colonizadores, com pequenas migrações irlandesas e suecas para América do Norte. As cidades italianas mediterrâneas perderam expressão a partir dos “descobrimentos marítimos portugueses”.


O Tratado de Tordesilhas, celebrado, em 07 de junho de 1494, entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela, entregou quase toda América aos espanhóis. Estes transplantaram sua estrutura burocrática-administrativa, hierarquizada e solidamente assentada, para o além mar.


De norte para sul, constituíram quatro vice-reinados:

a) Nova Espanha, em 1535, compreendendo o México, e partes dos Estados Unidos da América (EUA) atuais, quais sejam, totais ou parcialmente, os estados do Arizona, Califórnia, Colorado, Nevada, Novo México, Texas e Utah;


b) Nova Granada, em 1717, compreendendo os atuais países Panamá, Colômbia, Equador e Venezuela;


c) Peru, em 1542, que originalmente continha o atual Peru e a maior parte da América do Sul; e


d) Rio da Prata, em 1783, compreendendo os atuais Estados Nacionais da Argentina, Paraguai e Uruguai.


Além dos vice-reinados, constituíram também as seguintes Capitanias Gerais: Cuba (1777), Guatemala (1542), compreendendo Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Guatemala; Venezuela (1777), para conceder a este território maior autonomia, retirando-o do Vice-Reinado da Nova Granada; e do Chile (1798), correspondendo ao Chile e às regiões ocidentais da Argentina.


Existia além do Rei, autoridade suprema, o Conselho das Índias e a Casa de Contratação, esta em Sevilha, para coadjuvarem as decisões reais.


De maior interesse para este artigo, tem-se o Vice-Reinado da Nova Espanha. A Nova Espanha não só administrava as terras compreendidas na América, mas o arquipélago das Filipinas, na Ásia.