“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

MEMÓRIA —Mataram Irmã Dorothy, calaram sua voz profética, mas suas previsões lastimavelmente se concretizam em nossos dias

Segunda, 12 de fevereiro de 2024

Cruz marca o local onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada em 2005 - Tomaz Silva | Agência Brasil

A missionária foi assassinada há 19 anos, em 12 de fevereiro de 2005, em Anapu (PA), a mando de fazendeiros

Dom Erwin Kräutler
Altamira (PA) | 12 de fevereiro de 2024

Quem derramou o seu sangue pela causa mais nobre, o Reino de Deus, nunca pode ser esquecido. A memória dos mártires faz parte da história e liturgia de nossa Igreja. Esquecer os mártires é ignorar o sangue derramado do próprio Senhor Jesus, o mártir por excelência de toda a história. O martírio é a doação total e irrestrita em favor do Reino de Deus, levada até as últimas consequências. É amar até o fim (cfr. Jo 13,1). Pode haver diversas razões, mas o motivo que leva ao martírio é sempre o mesmo: o amor maior.

Na minha homilia na Missa de Corpo Presente em 15 de fevereiro de 2005 contei o que soube dos últimos momentos da vida de Dorothy. Antes de ser assassinada, Irmã Dorothy abriu sua sacola de pano, cumprindo “ordem” de seus algozes que queriam indagar se ela estava armada, e mostrou-lhes o que ela chamava de sua arma: a Bíblia Sagrada. Este seu gesto derradeiro é o último recado que Dorothy nos deixou. É sempre a Palavra de Deus que nos inspira e orienta em nosso caminho. “As armas com que combatemos não são humanas, o seu poder vem de Deus e são capazes de destruir fortalezas “(2Cor 10,4). Nas bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (Mt 5,1-12) há aquelas que se referem explicitamente ao empenho em favor da promoção da justiça e da paz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (v.6).

Irmã Dorothy me pareceu “uma voz que clama do deserto”. O deserto não é uma imensidão de areia a se perder nos horizontes. Para nós, na Amazônia, é a desgraça de homens sem dó e piedade desertificarem o outrora inviolado mundo de selvas e águas em que desde tempos imemoriais habitavam os povos indígenas e ribeirinhos que se alimentaram das frutas da floresta e viviam em paz com a natureza. Em nome de uma equivocada busca do progresso a qualquer preço, homens sem uma visão mais ampla e apenas guiados por lucros imediatos entendem “benfeitoria” como sinônimo de “pôr abaixo” a floresta.