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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Eleições municipais: anatomia de uma queda

Quinta, 10 de outubro de 2024

Eleições municipais: anatomia de uma queda

 
Roberto Amaral*

“As eleições gerais não medem corretamente a força política dos partidos por causa das várias influências burguesas, mas servem como um censo para indicar como as forças populares estão se desenvolvendo.” (Carta de Friedrich Engels a August Bebel, 28 de outubro de 1884).
 
O processo eleitoral não deve ser encarado como fenômeno político isolado: como todo fato social, tem causas e, por seu turno, gera consequências. Cada eleição é única, assevera o Conselheiro Acácio de plantão, e as dinâmicas locais e nacional são distintas entre si; mas é certo que o controle de prefeituras e câmaras municipais pela direita, em todos os seus matizes, dos hidrófobos em ascensão aos fisiológicos de sempre, produzirá efeitos que se farão sentir nas eleições presidenciais de 2026, cada vez mais próximas. E na eleição do próximo Congresso.

É desnecessário pôr de manifesto o cenário do recesso ideológico-político da esquerda brasileira, de que decorre, de modo natural e inequívoco, o desastre eleitoral. Mas cabe delinear o quadro da clamorosa derrota deste ano: recuo no Nordeste (destacando-se a derrota contundente em Salvador, por W.O.); em Minas Gerais (destacando-se o desastre em Belo Horizonte); e consolidação da direita nos três estados do Sul. Desastre eleitoral no ABC paulista e nas grandes concentrações eleitorais do interior de SP, como Campinas e Araraquara. Na capital paulista, onde obtivemos nosso mais importante desempenho (o segundo turno com Guilherme Boulos) — maior cidade da América do Sul, maior concentração industrial, cultural e tecnológica, onde Lula venceu em 2022 — nada menos do que 60% do eleitorado votaram com as duas facções da extrema-direita.

Há dados positivos a celebrar, como o avanço da representação indígena e quilombola, e o fato de o MST haver logrado, de forma inédita, eleger 133 candidaturas à vereança e ao executivo municipal, sobretudo no interior do Brasil profundo, distribuídas por 19 estados. Mas esses avanços alvissareiros não alteram o quadro geral. 

Os números eleitorais de 6 de outubro são ponto de referência para uma tentativa de investigação das transformações político-ideológicas que se operam em nosso país; verdadeiros movimentos tectônicos muitas vezes despercebidos na superfície, o que induz o espectador desatento a confundir as aparências com a essência dos fenômenos. Exemplar da incapacidade de os sismógrafos sociais registrarem essas mudanças foi a incapacidade dos ditos quadros políticos de compreender o significado dos movimentos de contestação popular — as chamadas “jornadas de junho” de 2013 — que tomaram as principais cidades do país, anunciando as raízes de um fenômeno que nos recusávamos a reconhecer. 

Os números deste pleito, para além de indicador de um pronunciamento eleitoral, devem ser colhidos como corpo de análise do recente e rápido e profundo processo social e político brasileiro. A essência (de fácil identificação) é essa: o país marcha para a direita, e não é de hoje. O exercício é procurar explicações, e, a partir delas, engendrar o enfrentamento. Como não estamos em face do acaso, nem muito menos da ingerência dos deuses do Olimpo, precisamos identificar como as forças populares estão se desenvolvendo entre nós, para, a partir daí, podermos (porque devemos) rever estratégia e tática e, portanto, nosso discurso.

O ponto de partida é que a crise é nossa. E um indicador, trágico, inquietante, é o fato de a capacidade de mobilização popular da direita superar a da esquerda, e avançar, nas pegadas do recesso de nossa militância, na organização popular nas periferias, junto a trabalhadores e aos deserdados do capitalismo.