Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
Por: Patricia Fachin | Edição: Ricardo Machado
O ponto final na curta história do projeto de estado de bem-estar social, iniciado no pós-guerra, parece ter sido colocado com a crise financeira mundial de 2008. Se o capitalismo atual, impulsionado pela financeirização, não encontra limites matemáticos, alcançando uma cifra 350% superior ao PIB mundial, defronta-se com a barreira que lhe confere alguma materialidade: o ser humano e a natureza. “É bem evidente hoje que os problemas ecológicos, tais como o aquecimento global, a poluição das águas potáveis, a acidificação dos oceanos, a destruição das espécies, etc. ameaçam o capitalismoporque ameaçam a própria continuidade da vida humana na Terra. Eis que a natureza, assim como o ser humano que faz parte dela, não está integrada ao capital; eis que ambos estão apenas subordinados e que, por isso mesmo, podem contrariar a lógica de expansão insaciável que caracteriza sobretudo o modo de existência da produção capitalista”, pontua Eleutério F. S. Prado, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.
“No capitalismo contemporâneo, quase todos os setores estão dominados por oligopólios formados por grandes ou mesmo enormes empresas, as quais são administradas com base em uma visão financeira dos negócios”, descreve Prado. “A sua lógica é de curto prazo: obter o máximo lucro para repassá-lo aos juristas (os keynesianos usariam aqui a palavra ‘rentistas’). Há, ademais, um certo consenso no pensamento crítico de que a financeirização está associada a um capitalismo de crescimento rastejante, mas altamente concentrador de renda”, complementa.
O professor acrescenta que testemunhamos uma tentativa sistemática de supressão dos direitos dos trabalhadores, conquistados historicamente, em detrimento da proteção de instituições econômicas e ingerências políticas. “A democracia pressupõe o cidadão, mas o neoliberalismo quer transformar o humano em mero agente econômico. E este apenas compete dentro de regras que não cria e, por isso, não se junta a outros na luta pelo comum”, analisa. “Atualmente, os Estados pouco se preocupam com o bem-estar da população, pois se concentram em impor as normas e as leis que favorecem a financeirização, a competição generalizada e a globalização. Diante desse quadro, como sugerem Dardot e Laval (1) no livro Comum. Ensaio sobre a revolução no século XXI (São Paulo: Boitempo, 2017), não se pode mais depositar as esperanças progressistas na possibilidade de vir a usar o poder estatal”, critica o entrevistado.

