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(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 4 de julho de 2024

"O avanço da China não é um milagre, mas o resultado de uma estratégia de desenvolvimento paciente"

Quinta, 4 de julho de 2024

Rémy Herrera [*]
entrevistado por Ferhan Bayır, da revista Harici (Istambul)

Rémy Herrera.

P: Comecemos pelos seus livros sobre a China. Com base nas suas investigações e observações durante as suas visitas à China, como interpreta o milagre chinês de que todos falam?

RH: Muitos comentadores da taxa de crescimento muito elevada do produto interno bruto (PIB) chinês, observada há várias décadas, utilizam o termo "milagre" para descrever este fenómeno. Pessoalmente, penso que não se trata de um milagre, mas sim do resultado de uma estratégia de desenvolvimento que foi pacientemente concebida e eficazmente aplicada pelos dirigentes e altos funcionários dos sucessivos governos do país, sob a autoridade do Partido Comunista.

Lê-se e ouve-se por toda a parte, nos meios académicos e nos meios de comunicação social dominantes, que o "arranque" da economia chinesa se deve exclusivamente à sua "abertura" à globalização. Penso que é necessário acrescentar que este crescimento acelerado só foi possível graças aos esforços e às realizações do período maoísta. Esta abertura foi controlada de forma muito firme e contínua pelas autoridades chinesas, e é nesta condição que se pode considerar que contribuiu para os incontestáveis êxitos económicos do país. Foi porque esteve sujeita aos imperativos de satisfação dos objectivos internos e das necessidades internas, e plenamente integrada numa estratégia de desenvolvimento coerente, que esta abertura à globalização pôde produzir efeitos tão positivos a longo prazo para a China. Sejamos claros: sem uma tal estratégia de desenvolvimento, que é claramente obra do Partido Comunista Chinês — não o esqueçamos — e sem a energia empregue pelo povo chinês para a implementar durante o processo revolucionário, a integração do país no sistema mundial capitalista teria inevitavelmente conduzido à desestruturação da economia nacional, ou mesmo à sua destruição total, como está a acontecer em tantos outros países do Sul, ou do Leste. Há um ponto fundamental a ter em conta: durante mais de um século, antes da vitória da Revolução de outubro de 1949, a "abertura" significou sobretudo submissão, devastação, exploração, humilhação, decadência e caos para o povo chinês.

P: Em que é que o êxito da China difere dos modelos de desenvolvimento ocidentais?

RH: O sucesso da estratégia de desenvolvimento implementada pelo governo chinês e os inúmeros benefícios que trouxe ao povo daquele país contrastam fortemente com o fracasso das medidas de política económica neoliberal aplicadas nos países ocidentais, que tiveram consequências catastróficas para os trabalhadores do Norte, quer em termos económicos, quer em termos sociais, quer ainda em termos morais e culturais.

Permitam-me que vos dê um exemplo concreto. Uma explicação para a força das empresas estatais chinesas reside no facto de não serem geridas da mesma forma que as empresas transnacionais ocidentais. Estas últimas, cotadas em bolsa e orientadas para a lógica do valor para o acionista, que exige a maximização dos dividendos pagos aos seus proprietários privados, a valorização das acções e o rápido retorno do investimento, operam através da compressão de uma cadeia de subcontratantes, locais ou deslocalizados. Os grupos estatais chineses não se comportam assim. Se se comportassem de forma tão voraz, estariam a agir em detrimento das pequenas e médias empresas locais e, de um modo mais geral, de todo o tecido industrial nacional. Mas não é claramente o caso. A maior parte das grandes empresas estatais chinesas são (ou voltaram a ser) rentáveis porque a sua bússola não é o enriquecimento dos accionistas privados, mas a prioridade dada ao investimento produtivo e ao serviço aos seus clientes. No fim de contas, não importa que os seus lucros sejam inferiores aos dos seus concorrentes ocidentais, desde que sejam utilizados, pelo menos em parte, para estimular o resto da economia nacional e para ultrapassar uma visão de rentabilidade imediata quando esta é ditada por interesses estratégicos superiores, a longo prazo ou nacionais.

P: Este modelo pode ser definido em termos do modelo neo-clássico ou neo-marxista?

RH: Antes de mais, não creio que os chineses vejam a sua estratégia de desenvolvimento como um "modelo". Nem pretendem impô-la ou exportá-la. Acreditam simplesmente que os diferentes povos do mundo podem tirar algumas lições, mas que lhes cabe a eles definir os objectivos e os meios do seu próprio desenvolvimento nas suas condições históricas, sociais e culturais específicas. Isto também difere claramente da visão ocidental, que gostaria que o seu "modelo" fosse seguido por todos os países do mundo.

Os modelos neoclássicos não têm lugar na China. Se me permitem, gostaria de acrescentar que a economia neoclássica, que constitui hoje a corrente hegemónica ou mainstream da economia, não serve basicamente para mais nada senão para tentar justificar teoricamente e de forma pretensamente científica as práticas políticas neoliberais, cuja ideologia é exatamente o oposto das medidas de justiça social e de desenvolvimento dos serviços públicos. Na realidade, a economia neoclássica não é uma ciência, mas sim uma ficção científica ou, como disse num livro recente (Confronting Mainstream Economics for Overcoming Capitalism), uma ideologia com pretensões científicas.

Estou convencido, por outro lado, de que o marxismo ainda não foi ultrapassado do ponto de vista científico. Atualmente, não tem qualquer concorrente sério. Continua a ser relevante, sobretudo porque continuamos a viver num mundo em que o sistema capitalista continua a ser dominante à escala global, mesmo que tenha mudado substancialmente, e isso tem de ser cuidadosamente tido em conta. Apesar dos muitos ataques ao marxismo desde a sua fundação e dos repetidos anúncios da sua morte, ele é duradouro, resistente, "indestrutível", diria eu, e o ponto de referência teórico indispensável para quem pensa nas formas e condições para o advento de um mundo melhor. Apesar do desaparecimento da URSS e do bloco soviético, em que o marxismo acabou muitas vezes por ser dogmatizado e, por vezes, virado contra si próprio, continua a ser indispensável hoje em dia, um ponto de referência insubstituível para aqueles que lutam pelo socialismo. Por isso, não é surpreendente que continue a ser uma referência teórica importante para a China.