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quarta-feira, 19 de junho de 2024

Paulo Amarante: o singular legado de Franco Basaglia

Quarta, 19 de junho de 2024

Há 45 anos, pai da reforma psiquiátrica da Itália veio ao Brasil – onde conheceu horrores de Barbacena e defendeu fim dos manicômios. “Mentaleiro” veterano relembra impacto da histórica visita na luta antimanicomial do país


OUTRASAÚDE
SAÚDE MENTAL
por Guilherme Arruda

Publicado no OUTRASAÚDE 19/06/2024 às 14:21 - Atualizado 19/06/2024 às 19:11
Ao centro, o psiquiatra italiano Franco Basaglia.


Construída em paralelo ao impulsionamento da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo movimento da reforma sanitária, a Reforma Psiquiátrica foi uma das mais importantes transformações da saúde pública brasileira nas últimas décadas. Sua busca – ainda não concluída – por fechar os manicômios abriu caminho para a introdução do cuidado em liberdade, revolucionário para o bem-estar dos usuários desses serviços.

Ainda nos anos 1970, o psiquiatra Franco Basaglia se tornou uma inspiração para os profissionais que queriam mudar a saúde mental no Brasil ao capitanear o fechamento do manicômio de Trieste, na Itália e sua substituição por equipamentos que inspiraram o modelo dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A Lei 180, da reforma psiquiátrica italiana, também é conhecida como Lei Basaglia, em sua homenagem. “Basaglia teve uma influência importantíssima na nossa decisão de definir nosso movimento como antimanicomial e o manicômio como uma forma de opressão mental”, explica a este boletim Paulo Amarante, veterano da área e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz).

Em 2024, Basaglia completaria 100 anos – e o movimento que liderou, a Psiquiatria Democrática, alcança seu cinquentenário. Mas uma terceira efeméride é a que mais o conecta ao nosso país: há 45 anos, uma viagem do psiquiatra de inspiração marxista ao Brasil deu forte impulso ao nascente movimento dos trabalhadores de saúde mental. Além de realizar uma série de conferências em sindicatos e faculdades, o italiano visitou o Hospital Colônia de Barbacena – e, ao classificá-lo como um “campo de concentração nazista”, multiplicou a audiência da denúncia dos horrores do hospital psiquiátrico mineiro.

Nos próximos dois dias (20 e 21 de junho), a ENSP/Fiocruz será palco de uma série de debates sobre o legado de Franco Basaglia e da Psiquiatria Democrática, no seminário A Liberdade É Terapêutica. As discussões poderão ser acompanhadas no canal da ENSP. Com a participação de Paulo Amarante, que é um dos organizadores do evento, Outra Saúde inicia hoje um dossiê sobre os 45 anos da histórica visita de Basaglia ao Brasil. A seguir, confira o relato de Amarante sobre as passagens do italiano pelo país nos anos 1970, sua avaliação de seu impacto na luta antimanicomial – e o anúncio da reedição das obras de Basaglia no país.

O que fez Basaglia

Nascido no norte da Itália, o psiquiatra italiano formou-se na Universidade de Pádua, onde também foi professor por doze anos. Um crítico consistente da psiquiatria tradicional, ele chegaria à posição de que as instituições asilares, por sua violência e por “silenciarem a voz dos loucos, apagarem a personalidade daqueles sujeitos”, deveriam ser fechadas, diz Paulo Amarante. Na década de 1990, o brasileiro escreveu Uma aventura no manicômio: a trajetória de Franco Basaglia, em que repassa a carreira do italiano.