Sexta, 9 de fevereiro de 2024
Como a PF reconstituiu — sem recorrer aos métodos da Lava Jato — a tentativa de sabotar as eleições e a democracia. A participação de Bolsonaro e seus generais. Os seis núcleos da trama. O vídeo que expõe a conspirata. Agora, é sem anistia!
OUTRASPALAVRAS
por Glauco Faria
Publicado 08/02/2024

Foto: Sérgio Lima / Brasil de Fato
Por Glauco Faria
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira (8) uma operação especial para investigar uma organização que teria atuado na “tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito”. Foram cumpridos 33 mandados de busca e apreensão, quatro mandados de prisão preventiva e 48 medidas cautelares.
Batizada de Tempus Veritatis (hora da verdade, em latim), ela envolveu a prisão do coronel Marcelo Costa Câmara e de Filipe Martins, ambos ex-assessores de Jair Bolsonaro e próximos ao ex-presidente. Também foi preso o major do Exército Rafael Martins de Oliveira e expedido um mandado de prisão, ainda não cumprido, contra o coronel do Exército Bernardo Romão Correa Neto, que está no exterior.
Nenhuma outra operação envolveu tantos nomes da cúpula das Forças Armadas e militares tão graduados. São três generais, também ex-ministros de Bolsonaro, alvo de mandados de busca e apreensão. Braga Netto (ex-Defesa, ex-Casa civil e ex-candidato a vice em 2022), Augusto Heleno (ex-chefe do GSI) e Paulo Sérgio Nogueira (ex-Defesa e ex-comandante do Exército), além de um almirante, o ex-comandante-geral da Marinha, Almir Garnier Santos.
Mas essa não é a única distinção entre a operação de hoje e as anteriores. A investigação chegou a um ponto sem retorno e as evidências da preparação de um golpe de Estado vêm à luz.
Apuração além da delação
Muito se falava, até agora, da demora para se chegar aos principais articuladores de uma tentativa de ruptura institucional da qual o 8 de janeiro era parte. Mas o que alguns pensavam ser mais do mesmo — ou seja, punir “bagrinhos” para preservar os chefes — vai se revelando uma estratégia cuidadosa em que o conjunto probatório se adensa para ser efetivo e difícil de contestar.
É exatamente o contrário de como era conduzida, por exemplo, boa parte da Lava Jato. Na operação conduzida pela “República de Curitiba”, buscava-se a legitimação de muitas das acusações (e posteriores condenações), em um conluio entre integrantes do Ministério Público (MP) e do Judiciário, em estreita relação com a mídia, parceira da operação.
Agora, não bastou uma delação – no caso, a do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid – para justificar pedidos de prisão ou denúncias do MP. Após o acordo, fechado em 9 de setembro de 2023 e homologado pela Procuradoria-Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), correram quase cinco meses para apurar o que era ou não verdade, naquilo que dizia o ex-auxiliar do ex-presidente. E foram cruzadas informações e dados, e realizadas outras diligências, inclusive a partir de material apreendido com Cid.
