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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Coronel que estava nos EUA é preso pela PF ao chegar em Brasília

Domingo, 11 de fevereiro de 2024
Foto: Exército/Divulgação

Bernardo Corrêa foi levado para o Batalhão da Guarda Presidencial

O coronel do Exército Bernardo Romão Corrêa Neto foi detido pela Polícia Federal durante a madrugada ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Brasília, vindo de voo dos Estados Unidos. Neste momento, ele está preso no Batalhão da Guarda Presidencial.

Corrêa Neto passou por audiência de custódia na manhã deste domingo (às 11h) com juiz auxiliar do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes tomará decisão a sobre a manutenção da prisão. Ainda não há informações sobre quando o ministro tratará do assunto.

O coronel, que estava em missão internacional em Washington desde dezembro de 2022 (no Colégio Interamericano de Defesa), é um dos quatro investigados pela PF- por suposto envolvimento nos crimes de tentativa de golpe de Estado e de abolição do Estado democrático de direito - que tiveram a prisão preventiva decretada na semana passada durante a operação da Tempus Veritatis (em latim, "hora da verdade").

Segundo as investigações, noticiadas pela Agência Brasil, ele atuou na preparação de reunião e seleção de militares formados no curso de Forças Especiais (Kids Pretos) para atuar em tentativa de golpe de Estado. Nas investigações da Polícia Federal, o militar é apontado como homem de confiança do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O coronel é formado pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1997, foi comandante do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado e ocupava cargo de assistente do Comandante Militar do Sul, general Fernando José Sant’ana Soares e Silva, atual chefe do Estado-Maior do Exército.

Ao chegar em Brasília, o investigado teve passaporte e telefone celular apreendidos pela Polícia Federal.

Edição: Carolina Pimentel

sábado, 10 de fevereiro de 2024

O caminho que leva Bolsonaro à prisão

Sábado, 10 de fevereiro de 2024

Mauro Cid, o assessor mais íntimo do ex-presidente, coordenou a preparação do golpe. Como sua prisão abriu caminho para desvendar a trama. As provas já reunidas e o que pode surgir. Os generais enredados. O que vem agora

OUTRASPALAVRAS
por Glauco Faria.  Publicado 09/02/2024às 18:43

Em 3 de maio de 2023 o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, foi preso preventivamente e conduzido para prestar depoimento à Polícia Federal. A decisão que autorizou a prisão foi assinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por se tratar de um fato relacionado ao inquérito das milícias digitais, sob relatoria do magistrado.

A acusação contra Cid dizia respeito à inclusão de dados falsos sobre vacinação contra a covid-19 nos sistemas do Ministério da Saúde. O objetivo era fraudar cartões de vacina dele, de sua esposa, das três filhas do casal e de Bolsonaro e sua filha. Na mesma operação, o ex-presidente e a ex-primeira-dama, Michelle, também foram alvos de buscas e apreensões, com os agentes levando o celular de Bolsonaro.

À época, Mauro Cid deixou em alerta o entorno bolsonarista, inclusive do próprio ex-chefe. Não à toa. Tratava-se de uma pessoa muito próxima a Bolsonaro, cujas tarefas iam muito além daquelas reservadas a um ajudante de ordens. Em março de 2021, reportagem de O Globo o chamava de “conselheiro-geral” do ex-presidente, apontando que a proximidade entre ambos despertava ciúmes de outros colaboradores.

Outra matéria, do Estadão, de setembro de 2020, pontuava que Cid “sempre teve livre acesso ao gabinete presidencial, ao Palácio da Alvorada e até mesmo ao quarto ocupado pelo chefe do Executivo nos hospitais, após cirurgias às quais ele se submeteu no ano passado”.

Filho do general Lorena Cid, que estudou com Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras, ele também gozava de prestígio dentro do Exército. Tanto que foi o pivô da saída do comandante da força, Júlio César Arruda, no início do governo Lula. O general, que havia sido promovido ao cargo pelo critério de antiguidade, insistiu em manter a efetivação de Cid como chefe do 1º Batalhão de Ações e Comandos, o que gerou sua demissão do cargo.

Outra prova do prestígio de Mauro Cid na caserna se deu em suas idas à CPI na Câmara Legislativa do Distrito Federal e na CPMI que investigou os atos golpistas do 8 de janeiro. Em ambas as ocasiões ele apareceu fardado, relembrando sua ligação com o Exército, obviamente, com a autorização da instituição.

A mesma sorte não teve o coronel do Exército Jean Lawand Junior, que teve que ir à CPMI justamente por mensagens trocadas com Cid.. Mesmo sendo militar da ativa, foi de terno ao depoimento, orientado pelo próprio Exército, para não relacionar as mensagens golpistas captadas no celular do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro aos quartéis.

Homem-bomba

Bem relacionado, Mauro Cid recebeu a atenção de seus pares. Logo na primeira semana após ter sido preso, trocou de advogado, substituindo Rodrigo Roca por Bernardo Fenelon, tido como especialista em crimes do colarinho branco e colaboração premiada. Mas, em agosto do mesmo ano, Fenelon deixou a defesa apos documentos levantados pela CPMI terem mostrado que o ex-ajudante de ordens participou da negociação de um Rolex presenteado ao governo brasileiro pela Arábia Saudita, trazendo nova complicação jurídica que também atingiu Bolsonaro. O advogado Cezar Bittencourt assumiu o caso, dizendo-se contra delações premiadas, mas mandando recados pela imprensa de que o ex-presidente poderia ser implicado em depoimentos de seu ex-assessor.

Àquela altura, em junho de 2023 a PF já havia encontrado no celular de Mauro Cid mensagens e documentos relativos ao planejamento de um golpe de Estado. Mas ainda faltava um conjunto de provas mais robusto para atestar não só a intenção de promover uma ruptura institucional, já que os dados e as relações do ex-ajudante de ordens evidenciavam isso, mas sim que o plano já estava em execução.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

O golpe desmascarado

Sexta, 9 de fevereiro de 2024

Como a PF reconstituiu — sem recorrer aos métodos da Lava Jato — a tentativa de sabotar as eleições e a democracia. A participação de Bolsonaro e seus generais. Os seis núcleos da trama. O vídeo que expõe a conspirata. Agora, é sem anistia!

OUTRASPALAVRAS

Publicado 08/02/2024
Foto: Sérgio Lima / Brasil de Fato

Por Glauco Faria

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira (8) uma operação especial para investigar uma organização que teria atuado na “tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito”. Foram cumpridos 33 mandados de busca e apreensão, quatro mandados de prisão preventiva e 48 medidas cautelares.

Batizada de Tempus Veritatis (hora da verdade, em latim), ela envolveu a prisão do coronel Marcelo Costa Câmara e de Filipe Martins, ambos ex-assessores de Jair Bolsonaro e próximos ao ex-presidente. Também foi preso o major do Exército Rafael Martins de Oliveira e expedido um mandado de prisão, ainda não cumprido, contra o coronel do Exército Bernardo Romão Correa Neto, que está no exterior.

Nenhuma outra operação envolveu tantos nomes da cúpula das Forças Armadas e militares tão graduados. São três generais, também ex-ministros de Bolsonaro, alvo de mandados de busca e apreensão. Braga Netto (ex-Defesa, ex-Casa civil e ex-candidato a vice em 2022), Augusto Heleno (ex-chefe do GSI) e Paulo Sérgio Nogueira (ex-Defesa e ex-comandante do Exército), além de um almirante, o ex-comandante-geral da Marinha, Almir Garnier Santos.

Mas essa não é a única distinção entre a operação de hoje e as anteriores. A investigação chegou a um ponto sem retorno e as evidências da preparação de um golpe de Estado vêm à luz.

Apuração além da delação

Muito se falava, até agora, da demora para se chegar aos principais articuladores de uma tentativa de ruptura institucional da qual o 8 de janeiro era parte. Mas o que alguns pensavam ser mais do mesmo — ou seja, punir “bagrinhos” para preservar os chefes — vai se revelando uma estratégia cuidadosa em que o conjunto probatório se adensa para ser efetivo e difícil de contestar.

É exatamente o contrário de como era conduzida, por exemplo, boa parte da Lava Jato. Na operação conduzida pela “República de Curitiba”, buscava-se a legitimação de muitas das acusações (e posteriores condenações), em um conluio entre integrantes do Ministério Público (MP) e do Judiciário, em estreita relação com a mídia, parceira da operação.

Agora, não bastou uma delação – no caso, a do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid – para justificar pedidos de prisão ou denúncias do MP. Após o acordo, fechado em 9 de setembro de 2023 e homologado pela Procuradoria-Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), correram quase cinco meses para apurar o que era ou não verdade, naquilo que dizia o ex-auxiliar do ex-presidente. E foram cruzadas informações e dados, e realizadas outras diligências, inclusive a partir de material apreendido com Cid.