Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 3 de dezembro de 2023

Um punhado de guerras e a incompreensão das esquerdas

 Domingo, 3 de dezembro de 2023

3 de dezembro de 2023

 Foto: Reprodução: Twitter/Lula Oficial

Pedro Pinho*

Ucrânia, na guerra forjada com golpe de estado; massacre em Gaza, na mais nazista de todas alegações, o espaço vital; formação de conflito em Esequibo, na Venezuela, por reservas de petróleo; o chanceler chinês criticando a imprudência estadunidense em usar Taiwan para provocar guerra com a República Popular da China (China) e os identitários brasileiros não encontrando melhor do que retirar o busto do padre Antônio Vieira (1608-1697), orador sacro e figura da nossa literatura, do jardim da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), no bairro carioca da Gávea.

O neoliberalismo, mesmo com suas bases nas finanças apátridas, é também uma ideologia que busca deformar a compreensão, doutrinar as mentes para as deixar brincando no parquinho infantil, enquanto promovem a pilhagem de recursos insubstituíveis, como minérios e petróleo.

Não mais se encontram exegeses tão comuns nos pensadores que forjaram a construção dos rumos mais humanos do Brasil. Onde estão: Darcy Ribeiro? Paulo Freire? Getúlio Vargas? Alberto Torres? Oscar Niemeyer? Monteiro Lobato? Nise da Silveira? Rachel de Queiroz? para não sairmos do século XX e incluirmos pensamentos diversificados.

Hoje se leem, quando há quem leia ao invés de clicar na tela do celular, expressões ambíguas, slogans, e como gado magro corre atrás de um afago, que nada custa aos detentores do poder.

E o governo, porque sempre é necessário ter alguém para culpar dos fracassos, se mete nas mesmas falácias, nas mesmas questões sem verificar o interesse nacional, no que efetivamente promoverá o bem-estar do povo brasileiro.

AS DIVERSAS FACES DA LUTA PELO PETRÓLEO

Os hidrocarbonetos e demais elementos que constituem o petróleo resultaram num produto de incontáveis aplicações para o progresso e o bem-estar da humanidade.

O mais utilizado e o menos nobre é a produção de energia pela combustão. É, ainda, a mais barata fonte primária de energia e o tão alegado efeito poluidor vai depender muito mais das tecnologias de uso, da produção de energia, do que do próprio petróleo.

Porém o petróleo, nas formas líquida e gasosa, é insumo industrial para imensa e diversificada produção de bens: remédios, fertilizantes, cosméticos, plásticos de vários graus de resistência que substitui o aço em muitas aplicações, além de entrar na composição de muitos equipamentos e instrumentos para comunicação, agricultura, construção naval e aeroespacial, residências. Pode-se, sem erro, afirmar que o petróleo faz e continuará fazendo, por muitas décadas, parte da vida de qualquer ser humano, seja urbano, campestre ou até isolado da civilização, direta ou indiretamente.

Mas o petróleo encontra-se muito concentrado em algumas poucas regiões da Terra. E tem sido o motivo verdadeiro de muitas das guerras, quase todas, travadas desde o século XX até hoje.

Estima-se que as reservas de petróleo, conhecidas em 2022, cheguem a 1,6 trilhões de barris, concentrados no Oriente Médio (Arábia Saudita, Irã, Iraque, principalmente), na Rússia e na América do Sul (Venezuela, a maior reserva do mundo, cerca de 304 bilhões de barris, e o Brasil, com o pré-sal).

Muitas estatísticas incluirão a América do Norte, mas, excluído o México, não há suficiente petróleo nos Estados Unidos da América (EUA) e no Canadá nem para o consumo próprio. O que existe nestes dois países são areias betuminosas ou xisto que exigem uma fase intermediária para serem transformados em petróleo: o betume, que sofre um processo industrial para ser transformado em óleo e gás.

E a produção de betume envolve processos muito danosos à conservação da natureza, como a contaminação de aquíferos, os dejetos poluidores, e o uso abundante de água, que sai contaminada após a lavagem dos folhelhos, provocando poluição em terra e nas águas.

Os efeitos climáticos são das falácias que os neoliberais buscam combater o petróleo na expectativa de que os países das grandes reservas não tenham recursos para prosseguir na pesquisa por reservatórios e no desenvolvimento das tecnologias de exploração e produção do óleo e gás.

Esta questão das tecnologias exploratórias é muitíssimo importante e está quase sempre fora dos debates. O Brasil as sofreu em seu processo de desenvolvimento. Há um século, em 1923, o Brasil não produzia uma única gota de petróleo nem tinha refinaria para produzir o petróleo importado. Estava nas mãos das denominadas sete irmãs, as grandes empresas de petróleo do mundo, privadas e estatais. Nos Acordos decorrentes do firmado em 1928, em Achnacarry (Escócia), o Brasil estava destinado a ser explorado pela Standard Oil Co, que aqui era denominada Esso, hoje Exxon.

Com a Revolução de 1930 teve início a preocupação governamental em abastecer o Brasil de petróleo e derivados. Várias leis e instituições foram promulgadas e constituídas, até que, em outubro de 1954, se criou a Petrobrás.

A Petrobrás, graças à inteligência e patriotismo de seus primeiros dirigentes, voltou-se para a formação e treinamento de seus quadros. Formou-se uma equipe que rivalizou e ainda rivaliza com as mais avançadas do mundo, descobrindo petróleo onde as grandes empresas internacionais não achavam, como em Majnoon (reservas de 38 bilhões de barris), no Iraque, e no pré-sal brasileiro, que está ainda muito longe de apresentar a cubagem de seus reservatórios.

Espera-se que o desenvolvimento da pesquisa exploratória agregue novos e significativos volumes às reservas atuais, não sendo de modo algum despropositado avaliar que o petróleo ainda será um bem disputado pelo próximo século.

PETRÓLEO E SOBERANIA HOJE

Realiza-se em Dubai (Emirados Árabes Unidos), desde 30 de novembro até 12 de dezembro de 2023, mais uma Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP28, reunindo quase 200 países para uma discursão sem sentido: a ação do homem nas mudanças climáticas. Ignorando as condições geológicas, as eras glaciais e interglaciais, os efeitos das oscilações no eixo terrestre e as explosões solares, como estão ocorrendo ultimamente, e provocam fenômenos de grande beleza como as tempestades magnéticas, causadoras desta recente aurora boreal na Rússia.

O Brasil fará o papel subserviente que lhe foi determinado pelos capitais apátridas de propor a energia verde e sandices de igual monta. Os países europeus estão sentindo nas suas economias e nas reações populares, o resultado da troca do petróleo e da energia nuclear, as duas mais avançadas tecnologias para produção de energia, pelo caríssimo retrocesso para o uso do vento e do Sol, como habitantes do mundo pré-industrial.

O presidente da Petrobrás coloca a maior parcela dos investimentos da companhia na caríssima e pouco eficiente energia eólica em águas oceânicas, apesar de ter ciência dos fracassos colhidos pela Bélgica, Reino Unido e Países Baixos.

Porém as manifestações das ditas esquerdas brasileiras, copiando modismos estrangeiros, direcionam-se para questões identitárias.

Não questionamos a participação das mulheres no poder, nem é luta deste século, muito menos no regime de escravidão da maior parcela de nossa população de ubers e MEIs.

Porém sabemos que um país colonizado, agora não mais por outro país, mas pelas finanças apátridas, sem soberania, não pode garantir as igualdades pretendidas.

Foram a soberania e o nacionalismo chinês que possibilitaram o desenvolvimento social e tornaram a China, sem declarar guerra a qualquer nação, apenas se defendendo das agressões, tornando, repetimos, a potência que é hoje.

Se falta a esta esquerda identitária criar seus próprios projetos, que mire a vitoriosa China, não a já derrotada Europa nem o declínio estadunidense.

Melhor seria, no entanto, conhecer nosso país, nossa cultura, nossa história e daí tirar os projetos para o Brasil Soberano, Nacionalista, Democrático e verdadeiramente Cidadão.

* Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.












TRANSCRITO DO PÁTRIA LATINA

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Pedro Augusto Pinho: O que o massacre dos palestinos em Gaza tem em comum com o de Canudos na Bahia

Quinta, 16 de novembro de 2023
 
Parte superior, outubro de 2023: prédios da região de Gaza bombardeados pelas forças militares de Israel. Parte inferior, 1897: o Exército brasileiro ateia fogo no povoado de Canudos, no interior da Bahia, além de exterminar o líder religioso cearense Antônio Conselheiro e seus 20 mil seguidores.
 Imagem do filme ''Guerra de Canudos'', do cineasta Sérgio Rezende

Por Pedro Augusto Pinho*, especial para o Viomundo

“Não fala com pobre

Não dá mão a preto

Não carrega embrulho

Pra que tanta pose, doutor?

Pra que este orgulho?

A bruxa que é cega

Esbarra na gente

E a vida estanca

Um enfarte lhe pega, doutor

E acaba esta banca

A vaidade é assim, põe o bobo no alto

E retira a escada, mas fica por perto

Esperando sentada

Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão

Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco

Afinal todo mundo é igual quando o tombo termina

Com terra por cima e na horizontal” (Billy Blanco, “A Banca do Distinto”).

O cancioneiro popular brasileiro é riquíssimo. Basta ser conhecido que é respeitado, reproduzido e, quiçá, imitado. Mas não nos enche de orgulho. Por quê?

A resposta está na História do Brasil, o que dela nos é contado e como nos é explicada.

A escravidão legal, protegida pelo Estado, que durou quatro séculos, não merece sequer uma página, como se esta atrocidade, que deixou profundas marcas na formação cultural brasileira, pouco interesse despertasse.

Por outro lado, episódio trágico, como a matança da população de Canudos, é cercado de heroísmo militar!

Onde fica Canudos? É um município no estado da Bahia, inserido no Polígono das Secas e no vale do rio Vaza-Barris. O município possui população, conforme dado do IBGE de 2021, de 16.832 habitantes, 4,7 pessoas por km².

Canudos inspirou o jornalista e escritor Euclides da Cunha a produzir dos mais célebres livros da literatura brasileira: “Os Sertões”.

Igualmente, serviu de roteiro para o filme do carioca Sérgio Rezende, “Guerra de Canudos” (1997), numa perspectiva mais humana e de denúncia. Afinal, foi o massacre de uma população desarmada pelos canhões e dinamites do Exército Brasileiro.

Qualquer semelhança com o que ocorre, em 2023, na Faixa de Gaza, a 9.031km de distância e 126 anos após, não é mera coincidência.

É o mesmo poder financeiro, rentista, inimigo do povo, agindo no Brasil do século 19.

O massacre de Canudos ocorreu entre 1893 e 1897.

Em 1893, o líder religioso cearense Antônio Conselheiro chega ao povoado abandonado de Canudos e o repovoa, rebatizando-o de “Belo Monte”.

Em 1897, Conselheiro e seus 20.000 seguidores são exterminados pelo Exército brasileiro, tal qual a população palestina da Faixa de Gaza está sendo dizimada pelas forças armadas do Estado de Israel.

Hoje, 15 de novembro de 2023, já são mais de 12 mil palestinos mortos — a maioria, crianças– pelos bombardeios de Israel, inclusive a hospitais, desde 7 de outubro.

As pedras atiradas pelos palestinos contra os canhões não são assim apresentadas para não provocar a onda de revolta que a consciência humana exige.

Por quê?

O poder financeiro conta a história que lhe interessa, domina todos os meios de comunicação — do livro das primeiras letras aos sites de relacionamento, acessíveis pelos celulares.

Assim como foi feito antes em relação aos sertanejos de Antônio Conselheiro.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte’‘, é uma das frases mais conhecidas de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

Ela inicia o terceiro capítulo da segunda parte da obra: O Homem.

Só que a ela seguem qualificativos pejorativos: desgracioso, torto, fealdade típica dos fracos, fatigado, de “extremos impulsos e apatias longas”, perigoso, de “um ódio inextinguível”.

Pronto, lá vem a desqualificação que intimida, e logo provoca a reação do medo.

E o medo incentiva, abençoa a eliminação do perigo em potencial.  É como as finanças, fabricantes de guerras, mais lucram.

As finanças estão desde sempre em nossa história sob o manto da colonização.

Portugal, quando descobriu o Brasil, já estava no processo da decadência, o financismo fundiário inglês se expandia.

A partir do século 18, ao financismo fundiário acrescenta-se o financismo monetário, dos juros, do controle das emissões de dinheiro. E juntos dominaram o século 19, chegando ao Brasil com a família real, em 1808.

Se toda colonização não vê e não propagandeia senão as deficiências dos colonizados, o neoliberalismo vai ainda mais longe ao impor a globalização.

Nada do que for nacional é relevante se não for aceito no modelo global, no mercado sem fronteiras.

O mercado nacional só existe no fluxo de um sistema internacional, da cadeia produtiva que começa com a matéria prima, passa pelos financiamentos e chega ao consumidor final, que pode iniciar nova cadeia, com o produto processado/industrializado.

Como se observa, os Estados Nacionais não participam do sistema neoliberal.

Mas eles existem e são dominados pelas finanças apátridas com seus recursos de suborno, chantagem, ameaças. Não podemos nos esquecer que as finanças apátridas, beneficiadas com as desregulações da década de 1980, ingressaram no sistema e, hoje, são as que dão liquidez ao projeto neoliberal.

Como as finanças fundiárias podem gerar liquidez, quando os aluguéis nem são pagos, pela penúria geral?

Como os títulos sem lastro, que constituem centenas de trilhões de dólares estadunidenses, podem garantir pagamentos, saques de bilhões, instantaneamente?

Mas quem paga a droga a prazo? Quem suborna, chantageia, se prostitui a prestações?

As finanças marginais são as garantidoras do sistema. Assim, promoveram as crises 2008-2010 para participar da cúpula dirigente.

E quem é o derrotado?

O mesmo de sempre. O retirante da seca, o trabalhador, aquele que sempre contribui para o poder e nada recebe em troca que não seja a depreciação, o desprezo e a miséria.

A questão nacional só existe nos discursos farsantes da direita bolsonarista, que entrega aos capitais financeiros a Petrobrás, a Eletrobrás, a energia do Brasil.

Nem mesmo é mais cantado em prosa e verso o riquíssimo Brasil de todos os minerais estratégicos, da limpa energia dos inúmeros rios, do petróleo não devidamente computado do pré-sal, da imensidão das terras produtivas, florestas, aquíferos.

A cultura nacional é cópia da importada. A questão nacional morreu com a redemocratização que promoveu o ingresso das finanças no poder brasileiro.

*Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado, pertenceu ao corpo permanente da Escola Superior de Guerra (ESG) e foi consultor da Organização das Nações Unidas (UN/DTCD).