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(Millôr Fernandes)
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domingo, 24 de março de 2024

‘O racismo criou formas de se esconder’, denuncia ialorixá Iyá Vera Soares

Domingo, 24 de março de 2024

Quando se celebram as tradições de matriz africana, ela observa que o preconceito racial continua, embora camuflado

Katia Marko e Ayrton Centeno
Brasil de Fato | Porto Alegre | 24 de março de 2024

A ialorixá Iyá Vera Soares coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana - Foto: Alexandre Garcia

A ialorixá Iyá Vera Soares é uma militante histórica do movimento negro no Rio Grande do Sul. Além de seu papel religioso, ela coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.


Nesta semana, a quinta-feira, 21, marcou o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Por conta disso, Brasil de Fato RS resgata esta conversa com Iyá Vera sobre racismo, preconceito, reparações e a representação do povo negro na sociedade gaúcha e brasileira.

Acompanhe:

Brasil de Fato RS - O presidente do Senado e o presidente da Câmara são brancos. Toda a composição do Supremo Tribunal Federal é de brancos. Os generais, a imensa maioria dos generais, ou todos, são brancos. Os brancos são maioria nas assembleias estaduais, nas câmaras de vereadores, nas universidades, na Câmara Federal e no Senado. O que é possível fazer hoje no Brasil, no século 21, para se combater essa distorção absurda na medida que pretos e pardos são a maioria da população brasileira?

Iyá Vera Soares - Para iniciar, eu vou pedir meu agô. Agô, para quem não sabe, quer dizer licença. Então eu vou pedir agô aos meus ancestrais porque, independente da cor da pele ou da fé, nós temos os nossos ancestrais. Para que eu possa falar de uma ferida tão profunda que fere tanto a maior parte da população brasileira e não só brasileira, os próprios africanos quando nos olham. Para termos estes povos nas mesas de poder temos um primeiro desafio que é combater o racismo.

Só o racismo justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa

Só ele justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa. Nas grandes autarquias brasileiras, temos quadros qualificados para ocupar nesses espaços. A única coisa que pode definir esta ausência é o racismo. O racismo instaurado na sociedade civil, na sociedade como um todo, na instituição brasileira, inclusive o racismo religioso, o racismo da existência, o racismo de ser quem eu sou. E a partir também de um estudo que ainda não está na pauta, mesmo que estejamos no século 21, que é como vamos ter conceitos legítimos, transparentes, da questão da mestiçagem popular.

Hoje é moda o negro casar com o branco, o branco procriar com negras. Como é que fica essa população? Então são feridas, são elementos que servem de sustentação para o racismo. Porque quando o Estado brasileiro não quer discutir, não quer aprofundar e chegar a um conceito que contemple esses povos, vamos conviver com este racismo instaurado, intrínseco em todos os setores da nossa sociedade.

BdF RS - Mas apenas para mostrar como esse espelho dá uma visão contrária dessa questão negro x branco, se formos usar a referência das prisões. Nas prisões, cerca de 70% são pretos e pardos. Só nesse momento, eles são maioria. Assim como nas favelas. Isso tem a ver com a questão da reparação porque tivemos a dita libertação dos negros, mas essa liberdade foi muito relativa, porque os negros não tiveram acesso à terra, não tiveram acesso às condições de vida após essa dita libertação.

Iyá Vera - Quando a princesa Isabel disse que alforriou, libertou o povo preto, o povo oriundo da diáspora negra, eles já tinham fugido. E isso está caracterizado nos grandes quilombos. Ela, a princesa Isabel, teve que ter uma ação, uma atitude, para que não se desmoralizasse como um todo o governo da época, né?

Só que esses (brancos) que vieram ganharam uma ajuda, um pedaço de terra

Quando a Europa descobriu o Brasil, entre aspas - que a gente aprende na escola que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil - quando já tinha os indígenas aqui. Então, na realidade, não descobriu. Chegou e se adonou do território brasileiro. Sem falar no povo que foi dizimado, os indígenas que desapareceram.