“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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terça-feira, 6 de outubro de 2026

VISIBILIDADE NEGRA —Ancestralidade e resistência dos povos de terreiro na educação são temas do terceiro episódio do podcast Vozes e Territórios

Terça, 6 de outubro de 2026

VISIBILIDADE NEGRA
Ancestralidade e resistência dos povos de terreiro na educação são temas do terceiro episódio do podcast Vozes e Territórios

A jornalista Maria Helena conversa sobre juventude, tradição e os desafios para levar esses temas para a Universidade

Brasil de Fato — Porto Alegre (RS)
6.out.2026 

Iyá Vera Soares conversa com a jornalista e educadora Maria Helena sobre juventude, educação e tradição de matriz africana | Crédito: Katia Marko

A jornalista e professora Maria Helena destacou a importância da ancestralidade, da resistência e da representatividade dos povos de terreiro na educação no terceiro episódio do podcast Igualdade e Cultura Negra – Vozes e Territórios. Apresentado por Iyá Vera Soares, o programa pode ser assistido nas quintas-feiras, 19h, no YouTube da TV Josimo, do Brasil de Fato RS e nacional e no Vida no Sul. O podcast também será exibido nas sextas-feiras, às 11h, na TV Mais.

Neste episódio, a convidada tratou sobre juventude, tradição de matriz africana, racismo e os desafios para levar esses conhecimentos às escolas e universidades.

Maria Helena destacou que o ensino sobre a visão de mundo da matriz africana a jovens se tornou parte de uma busca para combater o preconceito racial. Ela destacou que a educação sobre a matriz africana é também uma forma de resistência e de combate ao racismo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Condenado por injúria racial também deverá indenizar vítima

Quarta, 27 de maio de 2026


Condenado por injúria racial também deverá indenizar vítima

Do TJDFT
por RS — publicado em 27/05/2026

A 1ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT)  manteve a condenação de um homem pelo crime de injúria racial. O réu foi condenado à pena de 2 anos de reclusão e, além disso, deverá indenizar a vítima por danos morais.

De acordo com a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), o caso ocorreu em abril de 2024, em Arniqueira, no Distrito Federal. Durante uma discussão entre vizinhos, a vítima, que trabalhava no local  e realizava reparos, repreendeu o acusado por xingar uma mulher; em seguida, o réu teria ofendido a honra da vítima com expressões de cunho racial.

domingo, 10 de maio de 2026

As bravas: a luta das Mães de Maio por justiça para vítimas da violência policial

Domingo, 10 de maio de 2026

ENTREVISTA — As bravas: a luta das Mães de Maio por justiça para vítimas da violência policial

Em homenagem ao Dia das Mães, o Pauta Pública recebe Débora Silva, a fundadora do movimento



10 de maio de 2026
JUSTIÇA SOCIEDADE
   
Neste mês, lembramos 20 anos dos “crimes de maio”, quando mais de 500 pessoas – em sua maioria jovens negros – foram mortas em São Paulo, em operações policiais que seriam uma “resposta” aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, que aconteceram no mesmo período. Mas também celebramos o nascimento desse movimento que se tornou um dos mais importantes do país: o Mães de Maio, que busca transformar o sofrimento imensurável de perder um filho assassinado pelo Estado em luta contra a opressão, a injustiça e o racismo. 

Hoje, a organização atua por justiça, reparação e acolhimento da dor de mulheres que perderam seus filhos para a violência policial em chacinas por todo o país, e também pelas próprias mães mortas diretamente pelo Estado, como Thawanna Salmázio, assassinada durante ação policial em Cidade Tiradentes, distrito localizado na Zona Leste de São Paulo, em 3 de abril deste ano. Ela deixou cinco filhos. Duas semanas depois, a policial que fez o disparo que matou Thawanna, e que estava estagiando na corporação, foi promovida a soldado.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Justiça confirma indenização a trabalhador vítima de injúria racial em obra do Lago Sul

Quinta, 23 de abril de 2026

Imagem ilustrativa

Justiça confirma indenização a trabalhador vítima de injúria racial em obra do Lago Sul

A 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal manteve condenação de homem ao pagamento de R$ 10 mil, por danos morais, em favor de trabalhador que foi alvo de ofensas raciais, durante atividade profissional em uma obra no Lago Sul, no Distrito Federal.

Segundo o trabalhador, as expressões de cunho racial foram proferidas pelo réu, na presença de testemunhas, em fevereiro de 2025. As ofensas foram registradas em boletim de ocorrência e incluíram termos que faziam referência explícita à cor da pele da vítima, além de menção à senzala. O autor argumentou que as agressões extrapolaram a esfera profissional e violaram sua dignidade e honra.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Dois anos depois —Dois acusados de matar Mãe Bernadete são condenados em júri popular em Salvador

Quarta, 15 de abril de 2026

Dois anos depois
Dois acusados de matar Mãe Bernadete são condenados em júri popular em Salvador

Penas chegaram a mais de 40 anos de prisão em regime fechado; um dos réus segue foragido

Brasil de Fato – Salvador (Bahia)

Mãe Bernadete | Crédito: Arte sobre foto de Walisson Braga/Conaq


Os réus Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos foram condenados, em júri popular, pelo homicídio da líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, conhecida como Mãe Bernadete. A sessão de julgamento, realizada no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA), durou dois dias — começou na manhã de segunda-feira (13) e terminou na noite desta terça (14).

Arielson da Conceição foi sentenciado a cumprir 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão, além de multa. Já Marílio dos Santos deve cumprir 29 anos e 9 meses de prisão, ambos em regime inicial fechado. Ele, no entanto, segue foragido, embora tenha constituído defesa.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Arte e política —Na periferia do DF, Cristo ganha rosto negro e denuncia feminicídio e desigualdades

Terça, 7 de abril de 2026

Arte e política
Na periferia do DF, Cristo ganha rosto negro e denuncia feminicídio e desigualdades

Desde 1997, montagem em Samambaia usa teatro para confrontar racismo estrutural e invisibilidade social

Brasil de Fato —Brasília (DF)

Espetáculo Cristo Negro, transforma a Paixão de Cristo em denúncia contra o racismo e o feminicídio, colocando o corpo negro e feminino no centro da cena. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Nas luzes do Cineteatro Verônica Moreno, localizado em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal, o que se vê não é apenas a reprodução de um rito bíblico, mas um espelho da periferia. Desde 1997, a Paixão do Cristo Negro transforma o sofrimento de Jesus em uma ferramenta de denúncia social e política. O espetáculo deixa de lado a neutralidade estética para mostrar, de forma direta, as dores de uma população negra que há muito tempo é marginalizada e esquecida pelo poder público.

A proposta vai além do altar e ocupa o espaço da crítica, questionando quem são os “Cristos” crucificados diariamente nas esquinas das cidades da capital. Na última sexta-feira (3), a encenação reafirmou sua vocação ao trazer três atores negros no papel principal, incluindo, de forma provocativa, a presença de uma mulher. Essa escolha subverte a imagem tradicional e coloca o corpo feminino no centro do debate sobre o sacrifício e a dor, um manifesto contra a invisibilidade.

Para a atriz Fernanda Marinha, uma das intérpretes de Jesus, a representação feminina é uma forma de humanizar a divindade e aproximá-la dos oprimidos. “É para mostrar essa força também. Porque às vezes a gente observa que as pessoas acham que Jesus pode ser só um homem, mas Jesus está em todos esses lugares”, explicou a artista.

terça-feira, 17 de março de 2026

Wikifavelas: As sementes de Marielle Franco

Terça, 17 de março de 2026

Wikifavelas: As sementes de Marielle Franco

OUTRASPALAVRAS                                   Feminismos
Por Caique Azael

Em 2018, manifestação por justiça no caso Marielle Franco, no Rio de Janeiro, reunia milhares na Cinelândia/ Pablo Vergara

Desde 2018, o dia 14 de março nunca mais foi o mesmo. São oito anos desde a brutal execução de Marielle Franco, então vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro, e Anderson Gomes, seu motorista. Em 2026 temos um elemento novo na história: finalmente, após anos de muita pressão popular, em particular das lutas que sua família travou ao longo do caminho, o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu o julgamento dos mandantes do assassinato de Marielle e escancarou um ecossistema do crime que persiste no estado do Rio de Janeiro.

I. Justiça como atitude além da condenação

Desde 2018, acompanhamos a multiplicação de vozes, homenagens e lutas em memória de Marielle Franco. No Dicionário de Favelas Marielle Franco, acompanhamos a história de Sementes que Ecoam em vários espaços: há aquelas que trilham o bom combate no parlamento, como a própria viúva de Marielle, Monica Benício, vereadora da cidade do Rio, legislando na mesma casa em que Marielle legislou por dois anos antes de ser morta; ou no poder executivo, como a irmã de Marielle, Anielle Franco, atual Ministra da Igualdade Racial do Brasil; mas também há milhares de sementes espalhadas pelos movimentos sociais, universidades, instituições de pesquisa ou grupos diversos, produzindo movimento e mobilizando outros mundos todos os dias.

Para todas as sementes, o julgamento que ocorreu no último mês não foi apenas o fim de um rito jurídico, mas uma resposta a um ciclo de violências que persiste todos os dias em nosso país. Uma mulher, negra, favelada, socialista, bissexual, mãe, defensora dos direitos humanos… foi morta, a tiros, no exercício de seu mandato parlamentar, em uma das maiores metrópoles do mundo. Que tipo de fissura esse crime produz na democracia brasileira? Como a execução de Marielle é um analisador da situação do nosso país?

sábado, 7 de março de 2026

Racismo —Dono da rede Sky Hotéis é condenado no RS por fala racista em que teria comparado trabalhador a macaco

Sábado, 7 de março de 2026

Racismo
Dono da rede Sky Hotéis é condenado no RS por fala racista em que teria comparado trabalhador a macaco

Decisão judicial prevê prestação de serviços comunitários e pagamento de 10 salários mínimos; cabe recurso

Brasil de Fato — São Paulo (SP)

O empresário Hilário Darci Krauspenhar, dono da rede Sky Hotéis | Crédito: Reprodução / YouTube Sky Hotéis

A Justiça do Rio Grande do Sul condenou o empresário Hilário Darci Krauspenhar, proprietário da rede Sky Hotéis, pelo crime de injúria racial contra o trabalhador Marco Lima, em Gramado, na Serra Gaúcha. O Brasil de Fato teve acesso à sentença que fixou pena de dois anos de reclusão, substituída por prestação de serviços à comunidade e pagamento de 10 salários mínimos. Cabe recurso da decisão.

O caso ocorreu em 29 de novembro de 2023, quando a vítima, o recepcionista Marco Lima, trabalhava em um bar localizado na avenida das Hortênsias. Segundo a denúncia do Ministério Público, o empresário questionou a origem do funcionário e fez comentários ofensivos relacionados à sua aparência e à sua cor da pele. Em determinado momento, afirmou que ele deveria “tomar cuidado”, pois poderia ser confundido com “um macaco” e levar um tiro caso fosse visto por moradores da região.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Racismo, discurso de ódio e extrema direita: por que os terreiros lutam e não recuam

Quarta, 21 de janeiro de 2026

Encruzilhadas exigem posições em diálogo com as lutas históricas por democracia, direitos e políticas públicas

Do brasil de fato —Brasília (DF)
21.jan.2026 -
Francisco Nonato do Nascimento Filho


Povos de terreiro conquistaram políticas públicas no Brasil no último período| Crédito: Freepik

No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, os terreiros brasileiros saem às ruas para denunciar os efeitos estruturais do racismo religioso e enfrentar o avanço do discurso de ódio da extrema direita, representado pelo bolsonarismo. A data é marcada pela presença e pelo legado ancestral da saudosa Mãe Gilda de Ogum, fundadora do Axé Abassá de Ogum, vítima de racismo religioso, cuja memória inspira a resistência e fortalece a luta dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana.

A luta e a presença ancestral de Mãe Gilda de Ogum constituem fundamento necessário que impulsiona, em todo o país, iniciativas voltadas ao fortalecimento dos coletivos de terreiro e à incidência institucional, com o objetivo de garantir a promoção de políticas públicas específicas de enfrentamento ao racismo religioso. Dados sistematizados em 2025 indicam que 80% dos terreiros no país já sofreram algum episódio de racismo religioso, violência física ou material.

sábado, 29 de março de 2025

Luciana Barreto denuncia ataques racistas em delegacia especializada

Sábado, 29 de março de 2025
Agência Brasil
Publicado em 28/03/2025 - 18:08
Rio de Janeiro
Jornalista Luciana Barreto /Foto © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Agência Brasil — Rio de Janeiro

A jornalista Luciana Barreto, apresentadora do telejornal Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil, denunciou à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) os ataques racistas e ameaças que recebeu nas redes sociais da emissora e também em seus perfis pessoais. O depoimento e as provas foram apresentados na tarde desta sexta-feira (28) na delegacia.

Os autores dos ataques e ameaças poderão ser punidos civilmente (ação de dano moral) e criminalmente (racismo e injúria com motivo racial).

“Discurso de ódio nas redes sociais é meu objeto de estudo. Eu tenho um livro sobre isso, inclusive”, lembra Luciana.

“Hoje, no entanto, eu saí do campo da análise e do estudo e segui para uma frente igualmente importante, a denúncia. Nem todo mundo quer aprender com o letramento racial. Para esses, tem que haver a punição da lei.”

Para o advogado da jornalista, Fabiano Machado da Rosa, é fundamental a iniciativa de fazer a queixa na polícia.

“O cenário não muda porque as pessoas não denunciam. Mas pessoas públicas estão indo atrás dos seus direitos.”

Outras medidas judiciais

Além da iniciativa particular da jornalista, os autores dos ataques poderão ser acionados pelas medidas judiciais já tomadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Luciana Barreto é autora do livro Discursos de ódio contra negros nas redes sociais (editora Pallas, 2023); e mestre em relações étnico-raciais. A apresentadora é ganhadora de diferentes prêmios e há mais de uma década é reconhecida uma Mulher Inspiradora (Think Olga).

terça-feira, 30 de julho de 2024

Miss São Paulo é alvo de racismo nas redes após vencer concurso: 'Desde que ganhei, não tive paz'

Terça, 30 de julho de 2024

Modelo há dez anos, Milla Vieira lamenta violências: "é 24 horas por dia" - Arquivo pessoal

Eleita para representar o estado no Miss Brasil, modelo Milla Vieira relata comentários agressivos

Carolina Bataier
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 29 de julho de 2024 às 22:05

Poucas horas após vencer o concurso Miss São Paulo, representando a cidade de São Bernardo do Campo, a modelo Milla Vieira viu suas redes sociais serem invadidas por comentários racistas. "Vc não tem beleza pra ser miss! E vc sabe disso!", escreveu um usuário do Instagram identificado como Natan Silva, cujo perfil é privado. Sem nenhuma publicação, ele usa no avatar uma foto de personagem de desenho animado. Um perfil comercial escreveu: "Vc é a MISSericórdia só se for kkkkkk".

O caso chegou até a organização do concurso, que publicou um vídeo de repúdio aos ataques. "Não existe lugar na organização Miss Universe Brasil, como não deve existir lugar no mundo, a pessoas que defendem o racismo", disse Gerson Antonelli, CEO do concurso. No vídeo, ele ressalta que a modelo vai participar da disputa nacional e sugere que ela bloqueie os ofensores. "Nós estamos com você", disse ele, em recado à Milla.

Antonelli ressalta que o caso pode ser enquadrado na lei 7.716, já que, desde janeiro de 2024, o crime de injúria racial é equiparado ao crime de racismo. Além de penas mais severas, a mudança na legislação exclui a necessidade de representação da vítima, ou seja, qualquer pessoa pode fazer a denúncia.

Comentários racistas no perfil de Milla Vieira, eleita Miss São Paulo em 2024 - Créditos: Reprodução/Instagram

No caso de Milla, por se tratar de um crime virtual, os nomes de usuário e prints dos comentários são informações importantes para que os criminosos sejam localizados. Os rastros digitais dessas contas ficam armazenados nos provedores de internet por seis meses e as autoridades policiais podem exigir o rastreamento desses dados.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

JULHO DAS PRETAS 'O candomblé é uma escola', diz Mãe Dora de Oyá

Sexta, 26 de julho de 2024

Para a ialorixá, a religião afro-brasileira e o samba são indissociáveis: "levam uma mensagem de resistência"

Bianca Feifel
Brasil de Fato | Brasília (DF) | 25 de julho de 2024

Mãe Dora de Oyá tem trajetória de militância e resistência por meio da cultura - Valter Campanato/Agência Brasil.

Fé, samba e ancestralidade – esta é a tríade que sustenta Mãe Dora de Oyá em sua trajetória de resistência no Distrito Federal e Entorno. Mulher negra multifacetada, além de Ialorixá do Ilê Axé T’ojú Labá, terreiro de candomblé localizado em Cidade Ocidental (GO), Dora Barreto é educadora social, fisioterapeuta, militante, cantora e compositora.

Para a sacerdotisa, o candomblé é uma “grande escola” e um espaço de formação de identidade, de caráter e de musicalidade. Os princípios da religião afro-brasileira a acompanham desde pequenina, quando também teve os primeiros contatos com o samba, dons transmitidos pelos bisavós.

“Meu bisavô sempre disse que eu ia cuidar de muita gente. É óbvio que eu nunca imaginei que seria como ialorixá”, relatou em entrevista ao Brasil de Fato DF. Foram os bisavós benzedeiros que apresentaram à pequena Dora as rezas e o poder das folhas.

Em 21 de janeiro, é celebrado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa / Tony Winston/Agência Brasília

Nascida em Riachão das Neves, interior do oeste baiano, Mãe Dora chegou à Brasília na década de 70, após perder a mãe quando ainda tinha apenas 6 anos. Foi nesse momento que teve seu primeiro contato com o racismo.

“Eu devia ter oito para nove anos. Eu entendi que aquilo ali nos diferenciava do resto das crianças. Eu não entendia o que significava, mas eu sabia que era uma coisa ruim”, conta.

Apesar de ter sido um dos nomes mais apontados quando a reportagem perguntou a mulheres negras do DF quem elas gostariam de ouvir no Julho das Pretas, Mãe Dora não se considera uma referência.

“Todas as vezes que eu tô fazendo isso, eu nunca estou pensando em me transformar numa referência. Eu tô pensando que eu sou só mais um braço dessa luta, que precisa ser de todas nós”, afirma.

Confira, abaixo, a entrevista completa com Mãe Dora de Oyá para o Brasil de Fato DF:

Brasil de Fato DF – Nos conte um pouco sobre a sua origem e trajetória. Tendo em vista que a senhora é uma mulher negra multifacetada – ialorixá, sambista, militante, fisioterapeuta, educadora – como todas essas versões nasceram e coexistem?

Mãe Dora de Oyá – Eu acho que isso vem desde muito pequena, por conta dos meus bisavós. Eu perdi minha mãe muito cedo, com 6 anos, e fui criada pelos meus bisavós maternos. O meu bisavô, um moçambicano, e a minha bisavó, uma [indígena] pataxó. E aí que desde muito pequena, meu bisavô foi colocando essa coisa da música, e a música muito como esse lugar de resistência. E depois veio a luta mesmo.

Quando eu fui descobrir o racismo, que a gente não falava de racismo, eu já estava em Brasília. Eu vim para cuidar dos meus irmãos pequenos. As pessoas da vizinhança não queriam que os filhos brincassem conosco, porque nós não tínhamos mãe, meu pai trabalhava muito, então a gente ficava a criançada sozinha em casa. Diziam que não queriam que os filhos brincassem e usavam, inclusive, termos bem pejorativos, no sentido de que essas meninas vão tudo, desculpa a expressão, virar puta e esse menino vai virar marginal. Eu devia ter oito para nove anos. Eu entendi que aquilo ali nos diferenciava do resto das crianças. Eu não entendia o que significava, mas eu sabia que era uma coisa ruim.

E aí a gente começou a fazer brinquedos lúdicos dentro do quintal, para não ir pra rua. Então a gente brincava entre a gente. Fazia pipa para o meu irmão, brincava de bolinha de gude, de jogar dominó essas coisas que você vai desenvolvendo para não ter que conviver com esse tipo de coisa. Eu não sabia que era racismo, mas sabia que era uma coisa ruim.

Tudo isso foi me formatando para a mulher que eu sou hoje, de entender e de lutar contra aquilo [racismo]. Depois, eu fui crescendo e fui fazer militância política. E aí eu fui entendendo que isso era racismo. Desde sempre, então, a minha trajetória passa muito por isso, por essa coisa da infância mesmo, de saber que nós éramos diferentes no sentido de que os pais não queriam que nós brincássemos porque a gente não teria futuro. Que coisa, né? Como se as pessoas definissem o nosso caráter e o futuro.

E a sua relação com o samba também veio desse núcleo familiar?

Sim, porque o meu bisavô tocava rabeca. Todo final do dia ele chamava os netos, fazia uma grande roda e botava a gente para versar. Olha que coisa engraçada, né? Para a gente era só uma brincadeira. Ele puxava uma cantiga e botava a gente para completar essa música. Eu era pequenininha, tipo 3 anos. Samba de roda, também com 3 anos, ele tentou botar a gente pra dançar, pra sambar em volta de uma fogueira.

Mas eu nunca pensei que isso fosse alguma coisa que tivesse tanta relevância que tem hoje. Mas há muito tempo, eu entendo que isso era uma forma de resistência e e de nos mantermos unidos.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

PF prende dois suspeitos de matar filho de Mãe Bernadete


Quinta, 18 de julho de 2024
© Foto Janaína Neri

Morte de Binho do Quilombo era investigada desde setembro de 2017

Publicado em 18/07/2024 - Por Agência Brasil* - Brasília

A Polícia Federal (PF) prendeu dois suspeitos do assassinato de Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, também conhecido como Binho do Quilombo. Ele era representante da comunidade quilombola de Pitanga dos Palmares, na Bahia, junto com sua mãe, Maria Bernadete Pacífico Moreira, também vítima de homicídio no ano passado. A operação ocorreu na tarde de quarta-feira (17) e manhã desta quinta-feira (18).

“Os elementos de informação produzidos no curso dos autos demonstram que os suspeitos utilizaram na empreitada criminosa um veículo fraudulentamente adquirido em nome de terceiro, financiado mediante utilização de documentos falsificados. Restou consignado, ainda, que o número de celular utilizado por um dos investigados à época do crime foi cadastrado em nome desta mesma pessoa”, explicou a PF, em nota.

“Essas foram circunstâncias que, no início, fizeram as investigações tomar um rumo que se distanciava da correta elucidação do fato criminoso. Identificado o verdadeiro usuário do terminal telefônico de interesse, foram deferidos os dois mandados de prisão em desfavor dos indiciados, cumpridos durante a deflagração da operação”, acrescentou.

terça-feira, 9 de julho de 2024

CED 08 DO GAMA SURPREENDE E EMOCIONA COM O ESPETÁCULO “CORPO FECHADO”

 Terça, 9 de julho de 2024

Professor Valdeci Moreira desenvolve trabalho de teatro periférico e antirracista com alunos

Por Juan Ricthelly

Na manhã do dia 03 de Julho, por volta das 9h30 uma plateia de convidados, professores e alunos do CED 08 do Gama assistiram um espetáculo dirigido pelo já conhecido Diretor de Teatro Valdeci Moreira, que também desempenha o papel de professor de Artes na mesma escola. 


O espetáculo em questão tinha como título “Corpo Fechado”, com texto desenvolvido pelo diretor da peça junto com o ‘homo gamensis’ Lelê Teles, contando no elenco com quatro estudantes negros que nunca haviam atuado,  uma trilha sonora sensivelmente marcante e em total sintonia com a atuação dos atores, que tiveram apenas dois meses de ensaio e preparação antes da estréia.


De início uma das marcas do diretor Valdeci Moreira salta aos olhos dos presentes, que é a ‘estética de terreiro’ com fortes raízes nos cultos de matriz africana, invocando a ancestralidade do povo negro, a força dos orixás e a africanidade, por meio da ‘oralitura’ que consiste em valorizar a histórias contadas por meio da oralidade, que é a forma que muitos povos recorrem para compartilhar os seus conhecimentos e valores ao longo das gerações.


Quem já acompanha o trabalho desenvolvido no Espaço Semente é capaz de fazer essa conexão facilmente, mas “Corpo Fechado” deu um passo além em relação aos espetáculos anteriores, mergulhou na pauta antirracista de forma tão profunda que foi impossível qualquer dos presentes não se emocionar ao longo da apresentação, não sendo poucas as pessoas que chegaram às lágrimas, incluindo este que vos escreve.


“Corpo Fechado” adentrou em questões antirracistas do cotidiano sem necessitar invocar um academicismo forçado, que não poucas vezes soa incompreensível para quem mais precisa captar a mensagem.


Eram atores negros, jovens e estudantes de Ensino Médio de uma cidade periférica abordando o racismo do dia a dia, numa escalada que parte do racismo recreativo e vai até o genocídio do povo negro no último país do mundo a abolir a escravidão.


A quarta parede era explicitamente quebrada em meio ao texto, mas a verdade é que todos se sentiam dentro do espetáculo o tempo inteiro, em razão de sua conexão profunda e visceral com a realidade, o texto era dito para todos, mas a porrada contida nele parecia feita sob encomenda para cada um ali.


O racismo e todas as suas nuances presentes em nossa sociedade estavam lá, olhando na cara das pessoas como um espelho refletindo o seu lugar no meio disso tudo, vítima ou algoz? 


A peça “Corpo Fechado” é uma verdadeira aula sobre as questões sociais e o antirracismo, deveria ser obrigatória para todos os que ainda ousam cometer o crime de injúria racial e para policiais em formação, duvido que qualquer um que assista consiga sair do mesmo jeito que entrou.


A nossa expectativa é que não fique apenas no CED 08, aguardamos ansiosamente uma temporada no Espaço Semente e outros lugares do Distrito Federal.



FICHA TÉCNICA 

Direção:  Valdeci Moreira 

Dramaturgia: Lelê Teles e Valdeci Moreira 

Supervisão: Ricardo César

Elenco: André Crist, Artur Nunes, Geovana Yasmim, Miguel Crist. 

Figurinista - Luazi Luango

Fotografia: Ogan Luiz Alves

Cenógrafo: Valdeci Moreira

Iluminador: Valdeci Moreira

Arte: Ogan Luiz Alves

Realização: CED 08 DO GAMA

Data: 03 de julho

Horário: 09hs

Apoio: CED 08 do Gama

domingo, 24 de março de 2024

‘O racismo criou formas de se esconder’, denuncia ialorixá Iyá Vera Soares

Domingo, 24 de março de 2024

Quando se celebram as tradições de matriz africana, ela observa que o preconceito racial continua, embora camuflado

Katia Marko e Ayrton Centeno
Brasil de Fato | Porto Alegre | 24 de março de 2024

A ialorixá Iyá Vera Soares coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana - Foto: Alexandre Garcia

A ialorixá Iyá Vera Soares é uma militante histórica do movimento negro no Rio Grande do Sul. Além de seu papel religioso, ela coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.


Nesta semana, a quinta-feira, 21, marcou o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Por conta disso, Brasil de Fato RS resgata esta conversa com Iyá Vera sobre racismo, preconceito, reparações e a representação do povo negro na sociedade gaúcha e brasileira.

Acompanhe:

Brasil de Fato RS - O presidente do Senado e o presidente da Câmara são brancos. Toda a composição do Supremo Tribunal Federal é de brancos. Os generais, a imensa maioria dos generais, ou todos, são brancos. Os brancos são maioria nas assembleias estaduais, nas câmaras de vereadores, nas universidades, na Câmara Federal e no Senado. O que é possível fazer hoje no Brasil, no século 21, para se combater essa distorção absurda na medida que pretos e pardos são a maioria da população brasileira?

Iyá Vera Soares - Para iniciar, eu vou pedir meu agô. Agô, para quem não sabe, quer dizer licença. Então eu vou pedir agô aos meus ancestrais porque, independente da cor da pele ou da fé, nós temos os nossos ancestrais. Para que eu possa falar de uma ferida tão profunda que fere tanto a maior parte da população brasileira e não só brasileira, os próprios africanos quando nos olham. Para termos estes povos nas mesas de poder temos um primeiro desafio que é combater o racismo.

Só o racismo justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa

Só ele justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa. Nas grandes autarquias brasileiras, temos quadros qualificados para ocupar nesses espaços. A única coisa que pode definir esta ausência é o racismo. O racismo instaurado na sociedade civil, na sociedade como um todo, na instituição brasileira, inclusive o racismo religioso, o racismo da existência, o racismo de ser quem eu sou. E a partir também de um estudo que ainda não está na pauta, mesmo que estejamos no século 21, que é como vamos ter conceitos legítimos, transparentes, da questão da mestiçagem popular.

Hoje é moda o negro casar com o branco, o branco procriar com negras. Como é que fica essa população? Então são feridas, são elementos que servem de sustentação para o racismo. Porque quando o Estado brasileiro não quer discutir, não quer aprofundar e chegar a um conceito que contemple esses povos, vamos conviver com este racismo instaurado, intrínseco em todos os setores da nossa sociedade.

BdF RS - Mas apenas para mostrar como esse espelho dá uma visão contrária dessa questão negro x branco, se formos usar a referência das prisões. Nas prisões, cerca de 70% são pretos e pardos. Só nesse momento, eles são maioria. Assim como nas favelas. Isso tem a ver com a questão da reparação porque tivemos a dita libertação dos negros, mas essa liberdade foi muito relativa, porque os negros não tiveram acesso à terra, não tiveram acesso às condições de vida após essa dita libertação.

Iyá Vera - Quando a princesa Isabel disse que alforriou, libertou o povo preto, o povo oriundo da diáspora negra, eles já tinham fugido. E isso está caracterizado nos grandes quilombos. Ela, a princesa Isabel, teve que ter uma ação, uma atitude, para que não se desmoralizasse como um todo o governo da época, né?

Só que esses (brancos) que vieram ganharam uma ajuda, um pedaço de terra

Quando a Europa descobriu o Brasil, entre aspas - que a gente aprende na escola que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil - quando já tinha os indígenas aqui. Então, na realidade, não descobriu. Chegou e se adonou do território brasileiro. Sem falar no povo que foi dizimado, os indígenas que desapareceram.

domingo, 21 de janeiro de 2024

DIA DE LUTA —Intolerância religiosa aparece em um terço dos casos de racismo no Brasil, mostra pesquisa

Domingo, 21 de janeiro de 2024
Desde 2007, 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa - Juliana Gonçalves/ Arquivo Brasil de Fato

Crenças de matriz africana concentram mais denúncias de discriminação do que outras religiões

Redação
Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) | 21 de janeiro de 2024

O Brasil chega a este 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, com números alarmantes. Segundo levantamento da startup JusRacial, em 2023 havia 176 mil processos por racismo em tramitação nos tribunais do país, e um terço deles (33%) envolviam intolerância religiosa.

A pesquisa foi feita a partir das páginas oficiais dos tribunais durante todo o ano, contando processos concluídos ou em andamento. No Supremo Tribunal Federal (STF), a proporção de casos de intolerância religiosa entre os processos por racismo é ainda maior: 43%.

Em entrevista ao Central do Brasil, programa do Brasil de Fato em parceria com a Rede TVT, o diretor-executivo da JusRacial, Hédio Silva Júnior, advogado e doutor em direito pela PUC-SP e ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo, afirma que pessoas de diferentes segmentos religiosos ou convicções filosóficas enfrentam preconceitos no Brasil devido às suas crenças. Entre os praticantes de religiões afro-brasileiras, porém, esse índice é muito maior.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Declaração Universal de Direitos Humanos faz 75 anos em meio a guerras

Domingo, 10 de dezembro de 2023
© José Cruz/Agência Brasil


Anistia Internacional destaca necessidade de erradicar o feminicídio

Publicado em 10/12/2023 - Por Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro

A Declaração Universal de Direitos Humanos completa 75 anos neste domingo (10) e o mundo ainda não conseguiu garantir os direitos previstos neste documento para todas as pessoas. A prova disso são os conflitos, as guerras, além das violações diárias de direitos como alimentação e habitação. No Brasil, não é diferente.

“Quando a gente fala em direitos para todos e na implementação da Declaração Universal, tem que entender que tem um caminho gigantesco a percorrer porque a gente está em um país em que tem miséria, em que tem fome, em que tem violência, em que tem uma família que tem um adolescente ou jovem negro que pode não voltar para casa simplesmente por ser um jovem negro, por ser um jovem periférico, por ser jovem morador de favela. A gente não está falando em implementação de direitos, a gente está falando que a gente está muito distante”, avalia a diretora de programas da Anistia Internacional Brasil, Alexandra Montgomery.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi firmada 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com o nazismo derrotado, o mundo divido entre socialistas e capitalistas e no início da Guerra Fria, que se estenderia de 1947 a 1991. O documento, aprovado pelo Brasil, prevê, de forma geral, o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano e a observância desses direitos e liberdades. Trata-se do documento mais traduzido no mundo, alcançando 500 idiomas e dialetos.

No Brasil, a Declaração é incorporada à Legislação na Constituição Federal de 1988, garantindo a todas as pessoas os direitos à educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, entre outros.

“Direito é direito. Não pode ser confundido com uma série de privilégios, e tem que se aplicar a todo mundo. Não pode se aplicar somente a alguns, senão não é direito, é privilegio”, ressalta Montgomery.