Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 10 de junho de 2026

WikiFavelas: Quem aprova as chacinas em favelas?

Quarta, 10 de junho de 2026

WikiFavelas: Quem aprova as chacinas em favelas?


Levantamento autônomo no Rio mostra ampla consciência do terror imposto às periferias – e lança dúvidas sobre pesquisas que afirmam apoio à violência policial. Produção cidadã de dados e “epistemologias dos becos” são cruciais para derrubar falsos consensos

OUTRASPALAVRAS                          OUTRAS CIDADES
Publicado 10/06/2026

As megaoperações policiais são um ator importante no jogo político no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Na última semana, um grupo de moradores, pesquisadores, ativistas e instituições de favelas publicou um estudo chamado “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?“, no qual apresentam que mais de 70% dos moradores de favelas desaprovam as megaoperações, especialmente pelos seus efeitos na vida de quem mora nesses territórios.

Em 2025, logo depois da operação no Alemão e na Penha, uma pesquisa produzida pela Quaest apontou que mais de 60% da população fluminense aprovaria a chacina e defenderia ações semelhantes em outras favelas. Na ocasião, o Presidente Lula classificou a operação como desastrosa e afirmou que houve matança. O então governador do estado, afirmou que os policiais mortos eram heróis, sem lamentar a morte dos mais de 120 moradores que foram executados pelo Estado. Diante do discurso punitivista quase hegemônico na sociedade, parte dos envolvidos decidiu promover campanhas em torno das mortes, como o então governador do Rio de Janeiro que anunciou mais dez operações semelhantes.

Por que o dado atual é importante? Em 2025, logo após a chacina nos Complexos da Penha e do Alemão, o Dicionário de Favelas Marielle Franco publicou, no Outras Palavras, um texto discutindo o papel eleitoreiro daquela operação. No texto, chamado “A direita convida à política do medo”, discutimos as relações da operação policial, que se tornou a mais letal da história do Brasil, com o cenário político pré-eleitoral que enfrentamos aqui no Rio de Janeiro. Desde então, diferentes pesquisas confirmam a grande preocupação nacional com a segurança pública.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Fascismo à brasileira e o pobre de direita

Sexta, 17 de abril de 2026

Fascismo à brasileira e o pobre de direita


Por que muitos marginalizados votam contra seus próprios interesses? Há uma complexa estrutura psíquica que se sobrepõe à consciência política. E a ultradireita aproveita-se deste bloqueio da autorreflexão. Uma análise a partir de Adorno, Freud e Jessé de Souza

OutrasPalavras                Crise Brasileira
Por Sinésio Ferraz Bueno Publicado 17/04/2026

Imagem: Cameron, Verney Lovett, 1844-1894; Oliver, Daniel, 1830-1916

O filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno integrou uma equipe multidisciplinar que nos anos 1940 pesquisou a personalidade autoritária e o fascismo junto à população norte-americana. Através de questionários, entrevistas clínicas e testes projetivos, a pesquisa produziu a chamada “escala F”, um indicador empírico destinado a quantificar a vulnerabilidade do cidadão comum a discursos e práticas fascistas. Adorno estudou o fenômeno fascista através de conceitos originados da psicanálise freudiana, priorizando a centralidade do caráter emocionalmente projetivo da hostilidade dirigida contra populações socialmente marginalizadas. Um conceito da psicanálise freudiana assume grande importância para a compreensão da agressividade fascista: o “estranho”.

“Estranho” é a palavra em língua portuguesa que mais se aproxima do conceito freudiano denominado unheimlich, que significa “estranho”, “estrangeiro”, “assustador”, mas também “próximo” e “familiar”. A expressão unheimlich sintetiza sentimentos próprios a uma estranheza que assusta, incomoda, mas que é ao mesmo tempo íntima e familiar ao sujeito. A síndrome agressiva que é própria ao fascismo envolve a projetividade emocional associada ao unheimlich, e isso significa que as qualidades negativas que são projetadas nas vítimas (inferioridade, malignidade, perversidade, promiscuidade, periculosidade, etc.) representam estranheza, mas também profunda familiaridade, pois pertencem à própria estrutura emocional dos agentes do preconceito.