Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

As prisões secretas da Doutrina Donroe

Quinta, 13 de agosto de 2026

As prisões secretas da Doutrina Donroe

Sob Trump, EUA estabelecem rede de cárceres em países remotos, para onde enviam parte dos imigrantes detidos pelo ICE. Perseguições a estrangeiros crescem em ritmo e terror. E já atingem, com penas pesadas, ativistas políticos de esquerda

OutrasPalavras                                        Crise Civilizatória

Publicado 13/08/2026

Supostos membros de um cartel venezuelano, deportados pelos Estados Unidos, chegam a uma prisão de segurança máxima em El Salvador. A prática de encarcerar estrangeiros no exterior estende-se agora a 35 países

O domínio dos Estados Unidos sobre as Américas “jamais será questionado”, voltou a ameaçar o Departamento de Estado de Washington, nesta terça-feira (11/8), num vídeo de 5 minutos postado em meio aos fracassos de sua guerra contra o Irã. A frase, pronunciada pela primeira vez por Donald Trump horas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro, confirma um risco geopolítico crescente. Enfraquecidos em quase todo o mundo, os EUA podem estar preparando um recuo para o que veem como seu “quintal”. Aqui, passariam a exercer controle máximo – objetivo explícito da Doutrina Donroe, que retoma, recrudescida, a ideia de “América para os americanos”. Além do ataque a Caracas, a tendência aparece em sua aliança com Javier Milei na Argentina; suas interferências explícitas nas eleições recentes na Colômbia, Peru, Chile, Equador; suas pressões contra o Brasil.

Mas o que significa esta “volta ao reduto”, em termos de ataque à leis internacionais e aos direitos humanos? Ampla reportagem do jornalista Nicholas Casey, publicada nesta quarta-feira (12/8) no New York Times, traz uma das respostas. Ela conta a história quase surreal de Raul Mosquera, um imigrante cubano de 59 anos que, após mais de quatro décadas nos EUA, foi preso e deportado para o desconhecido reino de Eswatini — um enclave no território da África do Sul, governado por uma monarquia absoluta. Seu caso está longe de ser o único. Centenas, talvez milhares de imigrantes detidos nos EUA estão sendo enviados pelo governo Trump para prisões em 35 países. Nelas, assim como ocorria antes em Guantánamo, enfrentam, além do cárcere, um limbo jurídico. Enquanto isso, no EUA, o ICE, polícia de imigração, intensifica a caçada aos estrangeiros. E um de seus braços volta-se em especial contra ativistas de esquerda.

sábado, 8 de agosto de 2026

O dia em que Jânio Quadros renunciou

Sábado, 8 de agosto de 2026

O dia em que Jânio Quadros renunciou

O telex começa a chacoalhar furioso, vomitando resmas de notícias. Onde está o presidente? Ninguém sabe. No Sul emerge a figura de Brizola. Diz que respeitará a Constituição e prenderá qualquer oficial que sugira o contrário

Foto: Presidente Jânio da Silva Quadros (Arquivo)
O texto a seguir abre a série Passageiro da História, em que o Outras Palavras passa a publicar as memórias do grande jornalista brasileiro, Carlos Azevedo.

Por Carlos Azevedo, em Passageiro da História

25 de agosto de 1961, um mês de agosto quente. Dia do Soldado. Parada militar em Brasília. Tudo tranquilo na redação do jornal “O Estado de S.Paulo”, na sua majestosa sede na esquina da rua Martins Fontes com Major Quedinho, centro da capital. São duas da tarde. De repente o luminoso da frente do jornal para de dar notícias. O jornalista Raul Bastos, chefe do sistema de comunicação por telefone, rádio e telex, que se comunica com cerca de 400 correspondentes no país e no Exterior, sai de sua cabine apressado. Tem uma bomba nas mãos: o presidente da República renunciou

Comunica a notícia a Perseu Abramo, o chefe de reportagem. Como assim? Deve ser boato. Qual é a fonte? Você confirmou? A fonte era o chefe da sucursal do jornal na capital federal que está ao telefone aos gritos. O telex começa a chacoalhar furioso, vomitando resmas de notícias que vão se estendendo pelo chão.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A luta sem tréguas da Enfermagem

Quinta, 30 de julho de 2026

A luta sem tréguas da Enfermagem

O cotidiano paradoxal de uma das profissões mais numerosas do país. Elas salvam, cuidam e confortam, mas vivem sob baixos salários, precarização e adoecimento crescentes. Contraponto: nenhuma outra categoria tem se mobilizado tanto

OUTRASPALAVRAS Trabalho e Precariado
Por Glauco Faria Publicado 30/07/2026

Reportagem de Glauco Faria, no Outra Saúde

(Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

Em 21 de março de 2020, dezenas de cidades brasileiras registraram à noite pessoas aplaudindo das janelas os profissionais de saúde que estavam na linha de frente do combate à pandemia de covid-19, ainda em seu estágio inicial no país. Àquela altura, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem tornaram-se símbolos de resistência de uma tragédia sanitária que matou, segundo números oficiais, mais de 700 mil pessoas em território nacional, ceifando a vida de centenas desses profissionais, infectados na rotina do cuidado e exauridos pelo esforço.

Uma situação de emergência como aquela exigiu a mobilização de inúmeras pessoas na área, inclusive daquelas que não estavam trabalhando no momento. “Fui convocada pelo Ministério da Saúde para atuar contra a covid-19 no início de 2020. Lembro bem, era à noite em Manaus, por volta das 22h no horário local, e eu já estava me preparando para dormir quando recebi uma ligação do Ministério”, conta a enfermeira Adriane Aragão, que trabalhou em uma das cidades que sofreria mais com a disseminação do coronavírus.

“A situação em Manaus era devastadora, e eu já participava de grupos que ajudavam a repassar informações sobre onde havia oxigênio disponível, oxímetros e máscaras que estavam em falta em toda a cidade”, conta, lembrando como foi feita a admissão.

domingo, 19 de julho de 2026

Brasil: Uma rota para a soberania energética

Domingo, 19 de julho de 2026

Brasil: Uma rota para a soberania energética

O desafio vai além da descarbonização. Rentismo se infiltrou na Petrobrás, no setor elétrico e, agora, abocanha potencial eólico e solar. Quais os caminhos para outro paradigma – Estado planejador, reindustrialização e energia como direito coletivo?

OUTRASPALAVRAS                                    Descolonizações
Matéria postada originariamente no OUTRASPALAVRAS em 14/07/2026

Foto: Divulgação/Petrobras

MAIS:

O texto a seguir é um complemento a série de debates Desafios para Outro Brasil, uma realização da parceria entre FESP-SP e Outras Palavras. Confira o debate realizado com William Nozaki e Ildo Sauer.

A Dialética da Energia na Evolução Humana: Do Fluxo Biológico ao Estoque Mineral

A compreensão dos dilemas energéticos contemporâneos e das crises que assolam o modelo brasileiro exige, preliminarmente, um mergulho na história da relação entre a humanidade e a energia sob a ótica da termodinâmica e da economia política. A trajetória da civilização, desde o surgimento dos caçadores-coletores há cerca de 2 milhões de anos e sua evolução para homo sapiens há mais de 200 mil anos, é indissociável das formas de captura, conversão e apropriação de energia, com o controle do fogo.. Durante a maior parte desse percurso, a existência humana esteve estritamente condicionada pelas chamadas energias de fluxo, caracterizadas por uma baixa Taxa de Retorno Energético (EROI – Energy Return on Investment). O esforço metabólico para capturar energia era quase equivalente à energia obtida, mantendo a humanidade em um estado de equilíbrio dinâmico com a biosfera, mas com um excedente social residual.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

No Pantanal, alerta para o ecocídio

Quinta, 16 de julho de 2026

No Pantanal, alerta para o ecocídio

Vista aérea da estrada de terra Transpantaneira, no Mato Grosso, Pantanal, Brasil, completamente devastada pelo fogo. Foto- Heideger Nascimento /Chalana Esperança.

No Pantanal, alerta para o ecocídio

Fora dos holofotes, maior superfície alagável do mundo vive seca severa. Incêndios criminosos do agro espalham-se. Vegetação dá lugar a pastos. Há risco do bioma desaparecer em 50 anos. Tarefa para 2026: construir a Bancada da Biodiversidade

OUTRASPALAVRAS
Publicado 16/07/2026

O Pantanal, “o reino das águas”, Patrimônio Nacional (Constituição de 1988) e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera (ONU, 2000), é tradicionalmente considerado a maior planície alagada do mundo. Esse bioma transfronteiriço se estende por três países: Bolívia (53.320 km2), Paraguai (8.520 km2) e Brasil (151.134 km², segundo o IBGE 2017).i Com cerca de 65% desse bioma em território brasileiro no Mato Grosso do Sul e o restante no estado do Mato Grosso, apenas 5,2% do Pantanal brasileiro está protegido em Unidades de Conservação,ii embora possua uma densidade sem par de biodiversidade descrita: 124 espécies de mamíferos, sendo duas endêmicas, 325 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e cerca de 3.500 espécies de plantas, muitas com enorme potencial medicinal.iii Essa riqueza singular de vida está ameaçada, pois o Pantanal é um dos principais teatros do ecocídio perpetrado pelo agronegócio em nosso país desde a ditadura militar. Entre agosto de 2000 e julho de 2025, o agronegócio foi o principal vetor da supressão de 16.470 km2 da vegetação nativa pantaneira, como mostra a Tabela 1.

domingo, 12 de julho de 2026

A surpreendente ascensão da esquerda nos EUA

Domingo, 12 de julho de 2026

A surpreendente ascensão da esquerda nos EUA

Como os socialistas estão vencendo batalhas importantes no Partido Democrata, ao propor pautas ligadas aos direitos e ao Comum. Os papéis de Bernie Sanders, Mamdani e Alexandra Ocasio. A resposta de Trump: um nervoso “apelo à Ordem”…


OUTRASPALAVRAS                        Estado em Disputa
Publicado originariamente no OutrasPalavras em 08/07/2026

Boletim Outras Palavras

No mesmo momento em que a influência poderosa de Donald Trump impulsiona a ascensão da extrema-direita na América Latina, um fenômeno oposto se dá Estados Unidos. No interior do Partido Democrata, uma corrente que se coloca de forma clara à esquerda está vencendo um número inédito de eleições primárias, em cidades importantes. Seu triunfo enfraquece as correntes vistas como favoráveis às corporações ou à política imperial norte-americana. O fenômeno é considerado pelo próprio New York Times como um das principais tendências políticas atuais no país.

Durante décadas, dentro do Partido Democrata, várias tendências e grupos coexistiram, em meio a crescentes tensões. Vão de uma ala mais conservadora, ideologicamente próxima do Partido Republicano, a outra ala mais radicalizada, integrada por correntes que, embora integrem o partido, também se organizam de forma autônoma. A mais destacada são os Socialistas Democráticos (DSA, ou Democratic Socialistas of America).

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A independência incomum da Bahia

Quinta, 2 de julho de 2026

A independência incomum da Bahia

Neste 2 de julho, o estado celebra emancipação onde o povo foi protagonista – não figurante de uma transição negociada. O Recôncavo Baiano conta outra história. Lutaram vaqueiros, lavradores, negros e mulheres. Entre elas, Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica

OUTRASPALAVRAS                         História e Memória
Publicado 02/07/2026

Em 2 de julho, baianos comemoram a expulsão das tropas portuguesas e a independência do Estado. Foto: Camila Souza/BBC Brasil

Há uma pergunta incômoda que o calendário cívico brasileiro se recusa a responder: como pode um país ter se tornado independente em 7 de setembro de 1822 se, dez meses depois, tropas portuguesas ainda ocupavam Salvador, a cidade que fora por mais de dois séculos a capital da América portuguesa? A resposta exige admitir aquilo que a historiografia oficial, forjada no Sudeste imperial e republicano, sempre tratou como nota de rodapé: a independência do Brasil não foi um ato, foi uma guerra. E essa guerra foi decidida na Bahia.

O 2 de Julho de 1823 — dia em que o Exército Pacificador entrou em Salvador após a fuga das tropas do general Inácio Luís Madeira de Melo — não é um episódio regional pitoresco. É o momento em que a independência deixou de ser uma proclamação e passou a ser um fato. Mais do que isso: é o único capítulo do processo de emancipação em que o povo — no sentido mais concreto e menos retórico da palavra — aparece como protagonista, e não como figurante de uma transição negociada entre elites.

Uma guerra, não um grito

A narrativa do Ipiranga tem a conveniência de todas as fábulas fundacionais: um príncipe, um cavalo, uma espada erguida, nenhum sangue. Ela consagra a leitura de que o Brasil nasceu de um arranjo — a continuidade da casa de Bragança nos trópicos, a preservação da escravidão, a unidade territorial garantida de cima para baixo. Não por acaso, essa é a versão que interessava ao Império e que a República, apesar de todos os seus rearranjos simbólicos, jamais teve interesse em revisar.

Um manifesto contra o mito do “crescimento”

Quinta, 2 de julho de 2026

Um manifesto contra o mito do “crescimento”

Por décadas, pensamento econômico sustentº®ou: “estabilidade fiscal” e “respeito ao ambiente de negócios” garantiriam vida digna para todos. Então, explodiram a desigualdade e a devastação. É hora de buscar outros caminhos. Eles existem

 OUTRASPALAVRAS                                                               Mercado x Democracia
Publicado 02/07/2026



Por Joseph Stiglitz, Thomas Piketty, Jayati Ghosh, Kate Raworth, Jason Hickel e Oliver de Schutter | Tradução: Antonio Martins

MAIS:

O texto a seguir apresenta uma iniciativa mais ampla. Redes de ativistas e pensadores que buscam superar o padrão de “desenvolvimento” hegemônico articularam-se a partir de um chamado de Oliver De Schutter, ex-relator especial da ONU para direitos humanos e extrrema pobreza. Seu esforço conjunto produzir, além do manifesto, estudos de políticas alternativas, encontros e apelos à mobilização. O conjunto da obra, denominado Novas Economias para erradicar a pobreza, pode ser encontrado aqui.

Vivemos em uma era de escassez fabricada. Num mundo mais rico do que nunca, cerca de um décimo da população mundial ainda vive em extrema pobreza . Milhões de pessoas não têm condições de comprar comida suficiente, ter moradia adequada ou acesso a cuidados básicos de saúde, enquanto uma pequena minoria acumula riqueza e poder sem precedentes. Ao mesmo tempo, secas, incêndios de grandes proporções, inundações e ondas de calor nos lembram que nossas economias estão levando o planeta além de seus limites.

Essas não são crises isoladas. São sintomas de um modelo econômico que chegou ao fim da linha. A pobreza e a desigualdade não são acidentes; são consequências previsíveis de escolhas políticas: como montamos os sistemas tributários, regulamentamos os mercados de trabalho, valorizamos o cuidado, estruturamos os serviços públicos e decidimos quais necessidades e vozes importam – e que outras podem ser descartadas. Fundamentalmente, se os governos podem criar pobreza, também podem erradicá-la.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Caso Master e a era dos parasitas

Segunda, 29 de junho de 2026

Caso Master e a era dos parasitas


Uma fraude do financismo veio à tona, e revelou as relações corruptas do rentismo. Muito mais grave é o que ainda não causa escândalo — dos juros altíssimos à privatização da infraestrutura e emissão de dinheiro para sustentar guerra. Como parar a máquina?

OUTRASPALAVRAS                            Mercado x Democracia

Publicado 29/06/2026
Imagem: Reprodução/Global Investigative Journalism Network

“Simplesmente os interesses dos muito ricos não são os mesmos que os interesses da nação.”George Monbiot, The Guardian, 2022

O escândalo do Banco Master anima muito o debate. Em ano eleitoral, tentar colar a etiqueta de corrupto no opositor político faz parte do tiroteio, em particular porque, para as pessoas desinformadas, a etiqueta permite substituir a informação e o raciocínio. Ao longo da minha vida de economista, me dei conta de que quando gritam “pega ladrão” em geral vale a pena olhar para quem está gritando. No caso presente, é evidente que, quando um governo combate a corrupção, ela vem à tona, porque é revelada, enquanto o governo corrupto que a gerou e tolerou fez o tema sumir do mapa.

Um segundo ponto é que não se trata de coisa nova. O caso Lemann, Sicupira e Telles, que também envolveu dezenas de bilhões de reais, sumiu do mapa. A fortuna de Jorge Paulo Lemann é hoje de R$ 88 bilhões; a de Carlos Alberto da Veiga Sicupira atingiu R$ 39,1 bilhões; a de Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, R$ 29,3 bilhões. Muito acima das Lojas Americanas, esse grupo pertence à 3G Capital, com sede em Luxemburgo, um paraíso fiscal, fora de alcance. Não é antigo: a Polícia Federal apontou que a fraude foi orquestrada pela antiga diretoria entre 2016 e 2022, resultando em operações contra ex-executivos. Foi o tempo ideal para as falcatruas, com Paulo Guedes e a autonomia do Banco Central. Foi também quando foi gerado o caso Master. Porém, aparece quando é combatido.

As fortunas continuam, mas as bandidagens em outra escala têm suficiente força para torná-las legais.

Quando a vida torna-se diagnóstico

Segunda, 29 de junho de 2026

Quando a vida torna-se diagnóstico

O sofrimento é ambíguo – e, cada vez mais, é enquadrado em categorias psiquiátricas. Isso limita a forma de interpretar a si e ao mundo. Talvez seja necessária uma expansão subjetiva para enxergar a diversidade da experiência humana…


Vivemos em uma época na qual emoções, comportamentos e experiências cotidianas são cada vez mais interpretadas através de diagnósticos psiquiátricos. Termos originalmente técnicos como ansiedade, depressão, T.O.C, bipolaridade, autismo, déficit de atenção e narcisismo, passaram a habitar conversas familiares, relacionamentos amorosos, ambientes de trabalho, redes sociais e narrativas pessoais.

Crescentemente, utilizamos tais classificações para dizer sobre alguém. Ou até mesmo para explicar quem somos, o que sentimos e por que sofremos.

À primeira vista, isso pode parecer apenas um reflexo dos avanços no conhecimento sobre saúde mental. E em muitos aspectos, é. Reconhecer o sofrimento constitui uma condição fundamental para que ele possa ser acolhido. Nomear determinadas experiências pode favorecer sua compreensão, reduzir estigmas e ampliar possibilidades de cuidado.

Entretanto, esse cenário levanta questões mais profundas:

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Alienação na Era do Algoritmo

Segunda, 22 de junho de 2026

A Alienação na Era do Algoritmo

Marx desvendou o ocultamento das relações de trabalho. Agora, fenômeno assume nova forma. Dispositivos digitais nublam o exercício de poder e captura da riqueza, sugerindo que tudo é fluido e sem atrito – não havendo, portanto, nada a disputar


OUTRASPALAVRAS                                                    Tecnologia em Disputa

Publicado 22/06/2026 às 18:19 - Atualizado 22/06/2026 às 18:31

                             Arte: Yukai Dui

Título original:
A materialidade do invisível: comportamento, poder e alienação no capitalismo algorítmico

O mundo que foi feito para parecer imaterial

Há uma mentira sofisticada na forma como o mundo contemporâneo se apresenta. Tudo parece leve, fluido, imediato. A experiência digital se oferece como transparência. Interfaces sem atrito, respostas instantâneas, caminhos encurtados. A sensação dominante é a de um mundo que se organiza sozinho, como se a materialidade tivesse sido superada.

Mas essa leveza é produzida.

O que se apresenta como imaterial resulta de uma operação histórica concreta. Plataformas, sistemas de recomendação e arquiteturas de interface foram desenhados para reduzir o atrito entre sujeito e mundo. O que desaparece não é apenas o esforço. Desaparece o intervalo em que surgem dúvida, comparação e conflito interno.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Bolsa Família, uma política de saúde pública

Sexta, 12 de junho de 2026

Bolsa Família, uma política de saúde pública

Pesquisadores da Fiocruz Bahia analisaram dados de milhões de brasileiros e constataram: o programa de transferência de renda não apenas diminui a miséria, mas também contribui para reduzir incidência de doenças e o número de mortes entre seus beneficiários


OutraSaúde                  Saúde e Desigualdade
Publicado em 12/06/2026

Créditos: Cidacs/Fiocruz Bahia

Mesmo quando os discursos preconceituosos em relação ao Programa Bolsa Família (PBF) já parecem enterrados no passado, volta e meia as direitas brasileiras recolocam o questionamento à sua validade na ordem do dia. No entanto, o Brasil já conta com evidências científicas que reafirmam o sucesso do programa.

Se figuras de proa do empresariado do país acusam o programa de estimular a acomodação, pesquisadores e indicadores oficiais mostram que o programa é um catalisador de integração e avanços sociais. E isso inclui, de forma marcante, a saúde pública.

Na semana passada, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, realizou evento online para apresentar o documento Efeitos do Programa Bolsa Família na Saúde da População Brasileira. O trabalho reúne e sistematiza pesquisas realizados por importantes especialistas da Saúde no Brasil, vários deles com passagens por governos e experiência na coordenação de políticas públicas.

“Vivemos uma nova onda de desinformação sobre o Bolsa Família, que culpabiliza os pobres pela sua pobreza.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

WikiFavelas: Quem aprova as chacinas em favelas?

Quarta, 10 de junho de 2026

WikiFavelas: Quem aprova as chacinas em favelas?


Levantamento autônomo no Rio mostra ampla consciência do terror imposto às periferias – e lança dúvidas sobre pesquisas que afirmam apoio à violência policial. Produção cidadã de dados e “epistemologias dos becos” são cruciais para derrubar falsos consensos

OUTRASPALAVRAS                          OUTRAS CIDADES
Publicado 10/06/2026

As megaoperações policiais são um ator importante no jogo político no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Na última semana, um grupo de moradores, pesquisadores, ativistas e instituições de favelas publicou um estudo chamado “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?“, no qual apresentam que mais de 70% dos moradores de favelas desaprovam as megaoperações, especialmente pelos seus efeitos na vida de quem mora nesses territórios.

Em 2025, logo depois da operação no Alemão e na Penha, uma pesquisa produzida pela Quaest apontou que mais de 60% da população fluminense aprovaria a chacina e defenderia ações semelhantes em outras favelas. Na ocasião, o Presidente Lula classificou a operação como desastrosa e afirmou que houve matança. O então governador do estado, afirmou que os policiais mortos eram heróis, sem lamentar a morte dos mais de 120 moradores que foram executados pelo Estado. Diante do discurso punitivista quase hegemônico na sociedade, parte dos envolvidos decidiu promover campanhas em torno das mortes, como o então governador do Rio de Janeiro que anunciou mais dez operações semelhantes.

Por que o dado atual é importante? Em 2025, logo após a chacina nos Complexos da Penha e do Alemão, o Dicionário de Favelas Marielle Franco publicou, no Outras Palavras, um texto discutindo o papel eleitoreiro daquela operação. No texto, chamado “A direita convida à política do medo”, discutimos as relações da operação policial, que se tornou a mais letal da história do Brasil, com o cenário político pré-eleitoral que enfrentamos aqui no Rio de Janeiro. Desde então, diferentes pesquisas confirmam a grande preocupação nacional com a segurança pública.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Thomas Piketty vislumbra o pós-capitalismo

Segunda, 8 de junho de 2026

Thomas Piketty vislumbra o pós-capitalism

Relatório coordenado pelo economista sugere: é possível eliminar pobreza, reduzir jornadas de trabalho à metade e frear o aquecimento global. Pré-requisitos: ataque frontal à desigualdade e transformação política e econômica. Quais os caminhos?


OUTRASPALAVRAS                                              Desigualdades
Publicado 08/06/2026 às 19:48

Foto: Ed Calcock/“The New York Times”

Thomas Piketty, Anmol Somanchi e Gastón Nievas em entrevista a Thiago Gama

Só as lutas sociais podem produzir transformações nas estruturas de poder e de riqueza, sugere a História — mas onde está a centelha capaz de mobilizar as sociedades para tanto? Numa época em que a ordem capitalista está em crise, mas o vaticínio de Margaret Thatcher (“Não há alternativas”), ainda insuperado, produz angústia e desencanto, vale atentar para um trabalho lançado neste fim de semana pelo Laboratório Mundial das Desigualdades, liderado pelo economista francês Thomas Piketty.

Chama-se Relatório para a Justiça Global. Propõem objetivos que só podem ser classificados como pós-capitalistas — ainda que não tenham sintonia direta com os distintos programas socialistas dos séculos passados. Propõem basicamente três objetivos, que requerem transformar as relações políticas e econômicas hoje existentes — daí o caráter disruptivo e mobilizador da proposta.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

UFBA: um projeto para superar a universidade neoliberal


Quinta, 4 de junho de 2026

UFBA: um projeto para superar a universidade neoliberal

Em eleição inédita para reitoria, comunidade acadêmica reafirma recusa ao ideário travestido de “moderno” e “eficiente”. Propõe a luta pelo orçamento público, o resgate da mobilização permanente, a importância do convívio presencial e o sentido de soberania


Do OUTRASPALAVRAS                 Além da Mercadoria

Foto: Aristides Alves/UFBA

O resultado da primeira eleição direta para a Reitoria das universidades federais, realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), conforme a nova regra que aboliu a lista tríplice a partir da qual o Presidente de República escolhia o seu indicado dentre os mais votados em uma consulta à comunidade universitária, consagrou a vitória de uma conquista democrática histórica, reafirmando a autonomia das universidades.

No dia 22 de maio, após dois dias de votação, com a participação recorde de 13.211 votantes, foi proclamada a vitória da chapa “Somos UFBA” formada pelos professores João Carlos Salles (Filosofia) e Jamile Borges (Educação), que obteve 68% do total de votos e foi vencedora nas três categorias, com o comparecimento de 77% dos docentes, 65% dos técnicos administrativos e 25% dos estudantes. As demais chapas concorrentes obtiveram a seguinte votação: 23,4% (chapa 1); 3% (chapa 3) e 4,4% (chapa 4); os votos nulos e brancos representaram 1,6%.

domingo, 31 de maio de 2026

Quem lutará pela transformação do Brasil?



Domingo, 31 de maio de 2026

Quem lutará pela transformação do Brasil?


Depois de passar do sertão à fábrica e à luta por direitos, país mergulhou na era do trabalho fragmentado e dos conflitos sem projeto. Rendeu-se à agroexportação e ao algoritmo. Como encontrar, neste caos, um novo sujeito social das mudanças?

 
Do OUTRASPALAVRAS                      Crise Brasileira

Comemoração de 1 de maio, em São Bernardo do Campo, na década de 1980 Foto: SMABC

Título original:
Do sertão ao algoritmo: a mutação dos conflitos no Brasil

O Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente mobilizado por algoritmos e redes sociais.

Da mesma forma, a violência mudou de forma, acompanhando as alterações na trajetória do capitalismo. Na República Velha, o conflito vinha do abandono. O sertão rebelava-se contra um país que praticamente não existia fora das oligarquias exportadoras. A Guerra de Canudos não foi apenas uma rebelião religiosa, mas a explosão de um Brasil excluído da modernização oligárquica. O mesmo ocorreu na Guerra do Contestado, no cangaço e nas revoltas tenentistas. Aquele Brasil ainda era territorialmente fraturado. O Estado era pequeno, regionalizado e incapaz de integrar a maioria da população. O conflito tinha cheiro de terra, fome e abandono.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Quarta, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Avança, no Senado, proposta “modernizadora” apoiada por bancos, mídia e direita. Efeitos: atar o BC aos rentistas. Isolá-lo, por orçamento nababesco, dos dramas do país. Tirar de funcionários a força necessária para enfrentar a oligarquia financeira

OUTRASPALAVRAS                       Mercado x Democracia
Publicado 20/05/2026

Crédito: Reprodução/The Economist

Título original:
PEC 65 ou: como capturar o Banco Central chamando de modernização

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou, em 20/5, o exame do substitutivo do Senador Plínio Valério à PEC 65/2023. A proposta, contudo, continua a tramitar – e persistem, portanto, as ameaças nela implícitas. O texto pretende conferir ao Banco Central autonomia orçamentária e financeira, permitindo que a autarquia financie suas despesas com “receitas próprias”, fora do orçamento aprovado pelo Congresso. Depois de dezoito meses de tramitação, 21 emendas e oito versões de parecer, a redação atual abandona a expressão “empresa pública” — que constava do texto original assinado por quarenta e dois senadores em novembro de 2023, com Vanderlan Cardoso, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, Rogério Marinho, Sergio Moro, Hamilton Mourão e Flávio Bolsonaro entre os primeiros signatários. O texto final passa a definir o BCB como “entidade pública de natureza especial”. Apresentada como concessão substantiva às críticas acumuladas desde 2024, a mudança é cosmética, como demonstra a Nota Técnica 22 do Transforma/Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil), publicada esta semana, da qual este artigo retoma os achados centrais.

O primeiro problema é que as “receitas próprias” que financiariam o BCB resultam de apropriação indébita de recursos da União: os ditos lucros de senhoriagem. A senhoriagem resulta do monopólio estatal de emitir moeda que não paga juros. Comecemos pela aritmética. Sob a Lei n.º 13.820/2019, os resultados positivos do BCB são transferidos ao Tesouro para abater dívida pública federal. No período 2017-2025, a senhoriagem — medida pela taxa de juros nominal sobre a base monetária — somou R$ 210,2 bilhões em valores constantes de dezembro de 2025. No mesmo período, a despesa administrativa do BCB no Orçamento Geral da União — folha de pessoal, custeio, investimento — somou R$ 43 bilhões. A diferença, R$ 167,2 bilhões, é o que a PEC pretende usar para financiar o BCB. O valor é equivalente, em valores acumulados, a aproximadamente 1,5% do PIB anual médio do período — ou, em termos de impacto anual médio, cerca de 0,17% do PIB ao ano. É essa magnitude que está em jogo quando se discute “autonomia financeira”.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pochmann: Brasil, trajetória de um desmonte


Sexta, 15 de maio de 2026

Pochmann: Brasil, trajetória de um desmonte


A partir dos anos 1990, a ideia de nação foi abandonada e corre o risco de se tornar rótulo vazio. Sem projeto, território abre-se a interesses empresariais, de fundamentalismo e de mídia. País só voltará a existir plenamente se pensar seu desenvolvimento além das eleições


OutrasPalavras                                    Crise Brasileira
                       Foto: Zuleika de Souza/Divulgação

Título original: Do nacionalismo ao globalismo liberal: o Brasil como território em disputa 

A passagem do Brasil nacional-desenvolvimentista para o globalismo liberal não foi apenas uma mudança de política econômica. Foi uma profunda transformação no próprio sentido de país.

Entre 1930 e o fim dos anos 1980, mesmo com contradições, autoritarismos e desigualdades, havia um projeto nacional. O sentido nacional era o de industrializar, urbanizar, integrar o território, ampliar o emprego formal e criar alguma expectativa de mobilidade social para o conjunto dos brasileiros.

A partir dos anos 1990, contudo, esse horizonte foi sendo desmontado. A abertura comercial desenfreada, a generalização das privatizações, a difusão da financeirização e a constante redução do papel estratégico do Estado substituíram a ideia de nação por uma lógica de mercado, concorrência individual e submissão às cadeias globais do capital.