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(Millôr Fernandes)

sábado, 26 de setembro de 2026

Vorcaro: corrupção, violência e ignorância no Brasil

Sábado, 26 de setembro de 2026


 Pedro Augusto Pinho*

VORCARO: CORRUPÇÃO, VIOLÊNCIA E IGNORÂNCIA NO BRASIL.
Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do Estadista Getúlio Vargas, escreveu a respeito da contrarrevolução de 1932, ocorrida em território paulista: “Feita dos grãos de ódio de todos os reacionários, de todos os tempos e de todos os Estados” (Alzira Vargas, “Getúlio Vargas, meu pai”, 1960).

Os eventos históricos são fruto das condições ocorridas em determinados momentos na vida dos povos. Fica difícil imaginar um Daniel Bueno Vorcaro (1983) surgindo no Brasil governado por Costa e Silva, Médici ou Geisel, ex-tenentistas da década de 1920, então generais presidentes, que levaram o País ao “Milagre Brasileiro”, e constituído por empresas como a Embraer, a Embrapa, a Cobra, a Nuclebrás, e instituição cultural como a Funarte, e, nas relações exteriores, reatando as relações diplomáticas com a China (1969-1979).

Quando surge Daniel Vorcaro?

Quando o Brasil estava entregue ao traidor e corrupto Michel Temer (2016-2019) e ao ignorante, violento e corrupto Jair Bolsonaro (2019-2022).

O pai de Daniel Vorcaro, o bem sucedido corretor de imóveis Henrique Vorcaro, fundara, em Minas Gerais, a Corretora Multipar, em 1991, quando o neoliberalismo financeiro se enraizava no Brasil com Fernando Collor de Mello (1990-1992). Seu filho Daniel construiu fortuna principalmente por intermédio do setor financeiro, destacando-se com a compra do falido Banco Máxima, em 2018, e transformá-lo no Banco Master.

E veja, caro leitor, dos citados presidentes, dois deles colocaram no Supremo Tribunal Federal (STF) seus Ministros da Justiça, respectivamente: Alexandre de Moraes (Temer) e André Mendonça (Bolsonaro). Jair Bolsonaro teve a oportunidade de indicar, anteriormente, outro Ministro, o evangélico Kassio Nunes Marques.

São estes três, juntos ao Dias Toffoli, indicado por Lula em 2009, que têm escandalizado a Nação com o lavar de roupa de indescritível sujeira moral.

E não se diga que é novidade. O STF já havia consternado o Brasil com o Caso do Mensalão (2/8 a 17/12/2012), conduzido por Joaquim Barbosa, que, tão logo cumpriu seu triste papel, deixou o cargo de ministro e a presidência do tribunal, em julho de 2014, afirmando que a decisão se dera por “livre arbítrio”, e foi viver na Flórida (Estados Unidos da América – EUA), onde a vida, reconhecidamente, não é para qualquer salário.


ONDE ENTRA O ESTADO E A INDISPENSÁVEL INSTRUÇÃO


A derrocada do Brasil se deu com a criminalização do Estado, a partir do exterior, com o governo da Baronesa Thatcher de Kesteven (1ª Ministra do Reino Unido de 4/5/1979 a 28/11/1990), sendo presidente dos EUA Ronald Reagan (20/1/1981 a 20/1/1989), Thatcher pelo Partido Conservador (Tories) e Reagan pelo Partido Republicano. É o triste destino das nações que não souberam construir sua independência, sua autonomia.

Estes dirigentes estrangeiros promoveram a “Desregulação Financeira” mundial, a partir das duas mais importantes praças, naquele final de século: Nova Iorque e Londres. A ação direta desta força neoliberal financeira no Brasil se deu impondo o sucessor do Presidente Geisel, general João Batista de Oliveira Figueiredo (15/3/1979 a 1985).

Durante os governos de Costa e Silva a Geisel foi o Estado que promoveu o salto de desenvolvimento do nosso País. As empresas privadas também ganharam, mas tinham que se submeter aos projetos estatais. Isso, que nos parece razoabilíssimo, uma vez que o Estado é composto por todos os cidadãos, passou a ser um sinônimo de autoritarismo, privilegiando um voto periódico e ignorante, como vemos desde a eleição de 1985, aguçada com o domínio das comunicações de massa orientadas pela dúzia dos donos das plataformas e mídias virtuais que dominam neste século XXI.

E, não por acaso, os bilionários, os homens mais ricos do Planeta, são donos da empresas gestoras de ativos (BlackRock, Vanguard, Fidelity, State Street, JPMorgan Chase) onde muitos dos donos e gestores das empresas de mídias - Space X, Meta, Amazon, Oracle, Alphabet - depositam suas fortunas.

A República Popular da China (China) surge, ao fim do primeiro quartel do século XXI, como a maior potência mundial, destronando os EUA, que arfa, mente, bufa, ameaça, sem reverter a situação. Ao contrário, mais cai no ridículo e se afasta do período de glória, ainda que indevido, do pós-guerra.

E de onde sai a força chinesa?

Conhecer a História da China pode servir de incentivo para a grande mudança que, hoje, é necessária ao Brasil: dar prioridade absoluta à instrução.

Em 1949, quando a China conquista sua autonomia política, ainda que bastante dependente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a taxa de analfabetismo era de 80%. Na mesma época (1950), o Brasil tinha 50% de analfabetos. Quando teve início a Revolução Cultural na China (1966) tanto a China quanto o Brasil tinham percentagens bem próximas de analfabetos, perto dos 40%, que se igualaram com as reformas econômicas na China e a denominada “redemocratização” no Brasil: 20%. A partir daí, mesmo com população quase sete vezes maior para um território somente 13% superior, o analfabetismo regride na China, chegando a 2025 somar 1,5% da população e, no Brasil, regride em ritmo bem menor: 5% no mesmo fim dos 25 primeiros anos do século XXI.

Em 1932, 26 brasileiros, oriundos de diferentes áreas do conhecimento e de Estados do País, firmaram o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”. O que pediam estes intelectuais? Que a educação no Brasil fosse obrigatória e para todos os habitantes, o que só poderia acontecer se fosse grátis, logo estatal, pública e não privada, como ocorrera até 14/11/1930, quando o Estadista Getúlio Vargas, onze dias após ser designado Presidente do Governo Provisório, assina o Decreto nº 19.402, criando no Brasil o “Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública”, bases da cidadania. Mas esta condição fundamental não era a única. E educação seria laica, jamais doutrinadora, quer quanto ao modelo ideológico, quer quanto ao credo religioso.

Podemos ver quanto retrocedeu o Brasil do “Teto de Gasto”, sob o domínio do poder neoliberal financeiro.

O que significaria a “Educação Nova” para o Brasil de hoje?

Examinemos um dos trabalhos do pedagogo paulista Manuel Bergström Lourenço Filho (10/3/1897-3/8/1970), “Educação Comparada” (1961). Nesta obra, o educador analisa dez sistemas de ensino: do Reino Unido, da França, da República Federal Alemã, da Itália, da URSS, dos EUA, do México, da Argentina, do Japão e da Índia. É bem verdade que as tecnologias, principalmente as digitais, alteraram o trabalho e a educação nestes 65 anos que nos separam do livro de Lourenço Filho.

Mas temos a inclusão das considerações pedagógicas do gênio Darcy Ribeiro e da experiência, no Rio de Janeiro, dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs).

Doze dias após a criação de um ministério para a educação e saúde pública, o Estadista Getúlio Vargas dá o passo decisivo para o fim da escravidão, com o Decreto nº 19.433, criando o “Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio”, colocando o trabalho e a iniciativa empresarial no mesmo pé de igualdade. Getúlio não defendia a luta de classe. Em 1932, cria a “Carteira Profissional”, que terá a designação de Carteira do Trabalho. Em 1º de maio de 1943, edita a Consolidação das Leis do Trabalho, com o salário mínimo, as 44 horas semanais, as féria remuneradas, o descanso semanal remunerado, a proteção do trabalho da mulher e do menor. Parecia que a escravidão estava finalmente, após quase quatro séculos, afastada do Brasil.

Mas os escravagistas, que levaram Vargas ao suicídio, o desenvolvimento com os generais tenentistas dos anos 1967 a 1979 a ser derrotado pelo neoliberalismo financeiro, criaram os microempreendedores individuais, os “ubers”, os escravos do século XXI, com a Reforma Trabalhista de 2017 (Lei nº 13.467, 13 de julho de 2017, promulgada por Michel Temer).

Estamos no ano eleitoral que escolherá o Presidente do Brasil, dois senadores, uma nova Câmara dos Deputados, os Governadores dos Estados e do Distrito Federal e as Assembleias Legislativas dos Estados e do Distrito Federal.

Sob o ponto de vista da cidadania, formação do brasileiro como cidadão, não somente um alfabetizado, pois como ensinava Confúcio (“Os Analectos”, 500 anos antes da Era Cristã), o ensino é por natureza engajado e modela a ética essencialmente fundada nos valores humanos, é Confúcio volta a educar o chinês a partir de Hu Jintao (2002-2013), permanecendo com Xi Jinping (desde 2013).

Doze candidatos se apresentaram à Presidência do Brasil. Oito declaradamente opostos ao confucionismo, favoráveis ao neoliberalismo e à escravidão. Três que adotam a ideologia do século XIX, o marxismo. A opção fica com a continuidade, que, não sendo ideal, ao menos não foi responsável pelos retrocessos e deu, nestes últimos dias, um passo importantíssimo: o fim do jogo de azar.

Repetindo o que ocorrera em 1946, proibição dos jogos de azar e cassinos no Brasil, sem passar pela duvidosa moralidade de um Congresso, onde, hoje vendeu-se a Daniel Vorcaro, naquele ano, ainda eram visto como no Império, “casas de tavolagem”, pelo Marechal Eurico Gaspar Dutra, signatário do Decreto-Lei nº 9.215, de 30//1946.

Concluo esta artigo com uma lembrança da adolescência; a leitura de “O Presidente Negro” de Monteiro Lobato, cuja edição de 1926 tinha na capa o subtítulo “Romance do Choque das Raças na América no Ano 2228”.

Vivemos 200 anos antes um choque de Lobato, não menos intenso e também imenso: a liberdade ou a escravidão, o retrocesso colonial ou a soberania progressista. Os dois candidatos que aparecem com mais intensão de votos para presidente representam exatamente isso: enquanto o Bolsonaro vai a Washington beijar a mão e os pés de Donald Trump, Lula da Silva vai a Nova Iorque, às Nações Unidas para defender o multilateralismo, a cooperação e não a sujeição a qualquer país, a liberdade de todos os humanos, independente de sexo e raça.

Temos o retrocesso e um futuro para nós e os que deixaremos aqui.



*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

26/9/2026