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(Millôr Fernandes)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Jayati Ghosh ousa pensar o pós-capitalismo

Quarta, 30 de setembro de 2026

Jayati Ghosh ousa pensar o pós-capitalismo

Economista indiana provoca: ideias hoje “naturais”, como a ciência limitada por patentes, a hierarquia Norte-Sul e o trabalho não remunerado das mulheres, serão vistas no futuro como ridículas. É hora de encarar a crise da imaginação política

Entrevista a Thiago Gama

Poucos dias antes de os chefes de Estado desembarcarem em Nova Délhi para a cúpula do BRICS, uma das economistas que o Sul global está aprendendo a ouvir falou a Outras Palavras por quase uma hora, sem recusar uma só pergunta. No diálogo, Jayati Ghosh (leia seus textos já publicados pelo site) descreve mercados financeiros oligopolizados, nos quais a expectativa vira profecia e condena o devedor periférico antes de qualquer balanço; uma economia visível que se assemelha a um navio flutuando sobre um mar de trabalho não remunerado; um regime de patentes que precisa ser arrancado do caule aos ramos; e uma rota concreta para escapar do SWIFT, o sistema de pagamentos internacionais sob domínio do dólar e da Casa Branca.

Ao falar sobre a Índia, seu país, Ghosh é impiedosa: o crescimento – incensado pelo jornalismo econômico do Ocidente – é oco, e o governo que o anuncia ao mundo, diz ela, é fascista, opressor e incompetente. Nascida em 1955, formada em Délhi e doutorada em Cambridge, a economista lecionou por quase trinta e cinco anos na Universidade Jawaharlal Nehru e é, desde 2021, professora na Universidade de Massachusetts, em Amherst. Assinou ou organizou mais de vinte livros, entre os quais Never Done and Poorly Paid, sobre o trabalho jamais concluído e mal pago das mulheres na Índia globalizada; Demonetisation Decoded, em que disseca a “desmonetização” tocada por Modi; Women Informal Workers in the Global South; e o Handbook of Alternative Theories of Economic Development, no qual reuniu aquilo que a ortodoxia se recusa a ensinar.



Ghosh fundou e dirigiu por quase duas décadas a rede IDEAs, que articula economistas heterodoxos do desenvolvimento no mundo inteiro; recebeu o Prêmio de Pesquisa sobre Trabalho Decente, da Organização Internacional do Trabalho, e o Prêmio Galbraith; integra o Clube de Roma e conselhos das Nações Unidas e da Organização Mundial da Saúde; e é membro estrangeira da Accademia dei Lincei, a mais antiga academia científica do mundo. Esteve no Rio de Janeiro em julho, para a conferência Godley-Tobin, no Instituto de Economia da UFRJ.

Eis a entrevista.

Comecemos pela dívida dos países do Sul Global. Muitos deles estão sendo incapazes de pagá-la, porque os juros subiram demais no Norte. A pergunta é direta: isso é uma falha da governança global ou uma função estrutural do sistema, o capital financeiro impondo disciplina à periferia?

É uma combinação das duas coisas.

Os mercados operam de maneira altamente oligopolizada. São muito concentrados, um punhado de grandes agentes determina os principais fluxos financeiros. Todos são empresas sediadas na América do Norte ou na Europa Ocidental. E essas grandes corporações financeiras tendem a classificar a dívida do Norte muito acima da dívida de todos os países em desenvolvimento, mesmo quando estes últimos crescem mais depressa, são mais estáveis e têm maior probabilidade de pagar. Existe uma hierarquia.

É possível chamar isso de preconceito, ou de qualquer outro nome. Mas o problema é que estas expectativas se convertem em profecias que se cumprem por si mesmas. Se os mercados financeiros decidem que um país tem menos chance de pagar, enviam menos capital, e isso torna ainda mais difícil a rolagem da dívida. É um círculo vicioso.

Os Estados Unidos e o Japão podem tomar emprestadas somas enormes indefinidamente, e não há problema algum. Já os países da periferia, mesmo economias relativamente fortes, no instante em que sua dívida ultrapassa certo limite, passam a ser vistos como um problema gravíssimo, e podem enfrentar fuga de capitais.

A forma como os mercados financeiros estão estruturados é injusta. Mas é também natural, no sentido de que não podemos esperar deles outro comportamento: sabemos que o lucro de curto prazo é exatamente o que procuram.

A solução consiste em regular esses mercados, limitar seu comportamento, determinar que tipos de fluxo podem realizar. E, do mesmo modo, estimular os países da periferia a não depender de mercados internacionais de capital que lhes são tão desfavoráveis.

Em Never Done and Poorly Paid, a senhora documentou a desvalorização do trabalho das mulheres. Depois da pandemia, a economia do cuidado passou a ser celebrada em documentos oficiais, mas a austeridade retira o dinheiro. Como uma outra Economia poderia reconhecer a reprodução social formalmente, não como apelo moral, mas como arquitetura econômica?

Esse é um ponto muito importante. Fico satisfeita que tenha sido levantado, porque mesmo os economistas heterodoxos, keynesianos e pós-keynesianos, tenderam a ignorar o papel decisivo do trabalho de cuidado e, em particular, do trabalho de cuidado não remunerado.

É possível pensar a economia reconhecida, aquela que todos nós observamos, como um navio que flutua sobre um mar de trabalho não pago. Ela não sobreviveria sem esse cuidado, porque a reprodução social é essencial para que uma sociedade exista e é absolutamente essencial para que uma economia funcione. Ainda assim, como economistas, não levamos isso em conta.

Se levarmos, teremos de pensar tudo de maneira muito diferente. Ao olhar a economia a partir de uma perspectiva de gênero, não deveríamos examinar apenas se meninas e mulheres recebem mais ou menos, os aspectos distributivos. Deveríamos perguntar de que modo a divisão sexual do trabalho altera a estrutura de uma economia, como determina padrões de acumulação, como torna viáveis certos tipos de política pública.

Dou dois exemplos. Na Índia, não é possível imaginar o crescimento econômico de que todos falam sem o trabalho não pago e mal pago das mulheres. Mal pago por quê? Porque, como elas realizam uma enorme quantidade de trabalho não remunerado, o mercado não as recompensa. Nem mesmo o setor público lhes paga salários regulares. E é sobre isso que nos apoiamos para exibir um PIB muito mais alto.

O segundo exemplo vale para o mundo inteiro. Quando as economias entram em recessão, surge de imediato o discurso da austeridade: é preciso apertar o cinto, o setor público tem de reduzir gastos. O que isso significa na prática? Cortar as despesas de cuidado e o gasto social. Saúde e atividades correlatas, como educação e creches – tudo isso é reduzido.

E qual é o pressuposto? O de que o trabalho de cuidado será feito de qualquer maneira, de que ele não deixará de acontecer porque o setor público parou de oferecê-lo. Sejamos francos: se há uma mãe idosa em casa e o Estado avisa que não vai cuidar dela, ninguém responde que ela pode ficar na rua, que pouco importa. Quem está ali vai cuidar dela.

Como nos importamos com aqueles de quem cuidamos, tanto os Estados quanto o capital sabem que podem reduzir essa oferta impunemente, porque as pessoas tomarão a tarefa para si. Farão o trabalho adicional, darão o cuidado, o tempo e o dinheiro necessários. Farão tudo isso por crianças pequenas, por idosos, por doentes, por pessoas com deficiência. Todos receberão algum nível básico de cuidado. Não será o melhor, não será o ideal, mas receberão alguma coisa. E, como os governos e os capitalistas privados sabem disso, exploram essa tendência. Usam esse fato para reduzir aquele gasto.

A ortodoxia prometeu a formalização pela integração ao mercado global, e o resultado foi o oposto, porque a informalidade se tornou massiva e permanente. É preciso abandonar a ideia de que a periferia um dia chegará ao centro? E o trabalho informal é um defeito do sistema ou uma função permanente, útil para rebaixar salários em escala global?

Essa é certamente a tendência do capitalismo e dos mercados privados. Mas trata-se de uma escolha política, porque mercados e capital não existem sem o Estado.

Toda a existência deles depende do sustentáculo estatal: as leis que instituem a propriedade privada, a proteção dessa propriedade, a proteção da troca, a proteção da exploração. Tudo isso é o Estado que dá. Logo, tudo o que fazemos, inclusive o modo como os mercados funcionam, não é uma lei que nos chega de Deus, da natureza ou de qualquer inevitabilidade. É algo determinado pela economia política. E, por isso mesmo, podemos mudá-lo.

Neste momento, o capitalismo nos entrega resultados distópicos e terríveis. Produz informalidade, desemprego, perda de direitos sociais e econômicos, desigualdade brutal de toda espécie. Mas faz tudo isso porque permitimos. É muito importante lembrar que não precisa ser assim.

Mesmo o capitalismo pode ser controlado. O capital pode ser administrado, pode ser regulado e obrigado a operar de determinadas maneiras. Temos de exigir outro caminho. É possível suprimir os piores elementos do capital, forçá-lo a funcionar dentro de normas sociais, dentro de nossos limites planetários, a serviço de nossos objetivos sociais e de desenvolvimento.

Não digo que isso seja ótimo, nem ideal. Eu preferiria um sistema não capitalista. Mas mesmo o capitalismo, nesta forma terrível que temos hoje, não é inevitável. É uma escolha política.

Permita-me uma pergunta binária: Estado de bem-estar social ou Estado socialista? Qual é o caminho?

Idealmente, um Estado socialista, claro. E por Estado socialista não entendo aquele tipo de Estado centralmente planificado, vertical, burocrático, rígido e patriarcal que tantos países tiveram. Refiro-me a um Estado que garanta igualdade de oportunidades e permita a cada pessoa realizar plenamente suas capacidades, independentemente de quem seja e de onde tenha nascido.

Esse socialismo seria o melhor. Mas não penso que optar pelo Estado de bem-estar signifique o fim da possibilidade do socialismo, porque isso não acontece de um dia para o outro. Não é uma escolha entre um caminho ou outro.

O Estado de bem-estar já é um ataque ao capital. Já é algo que protege os trabalhadores, que lhes dá direitos – e não apenas ao capital privado. Assegura um mínimo de coesão social. Não devemos dizer que não é possível fazer um Estado de bem-estar. Eu diria que ele é um degrau para o socialismo.

Durante a pandemia, a senhora denunciou o apartheid vacinal, mas a questão vai além dos medicamentos. Gostaria de saber como um regime como o imposto pelo acordo TRIPS, da Organização Mundial do Comércio, promove o capitalismo rentista. Os monopólios legais estabelecidos pelo regime de patentes tornam impossível a soberania tecnológica no Sul, e eu gostaria de saber quais são as rotas políticas realistas para desmontá-los.

Essa é uma área em que é preciso ser revolucionário. É preciso arrancar a coisa do caule aos ramos, porque o regime de direitos de propriedade intelectual é ridículo. Ele parte da ideia de que é possível tomar o conhecimento, picá-lo em pedacinhos, privatizá-lo, comercializá-lo, monopolizá-lo, controlá-lo. A humanidade nunca foi capaz de fazer tal coisa.

A história da espécie humana é a de um conhecimento compartilhado e aberto, um conhecimento que só cresce quando é compartilhado. Algumas sociedades, no passado, montaram esse sistema estranho de controle do saber, e terminaram estagnadas.

Todos nós construímos sobre um conhecimento criado por quem está à nossa volta, pela história, pelo passado, por outros países e outros lugares. E só continuaremos a construir se continuarmos a compartilhar. Por isso a ideia de monopolizar o conhecimento e tratá-lo apenas como fonte de lucro não é só perturbadora: é ridícula. Foi um grande retrocesso para a humanidade.

Dizem que é preciso manter este sistema, porque de outro modo não haveria invenção nem inovação. Mas é preciso lembrar que esse regime estrito tem cerca de meio século. O próprio regime de patentes tem, no máximo, 150 ou 200 anos. Quer dizer então que não houve mudança técnica antes disso? Que não houve invenção, que a humanidade não deu nenhum passo em conhecimento ou em progresso técnico? A ideia de que é necessário garantir lucro individual para que haja conhecimento é tão falsa e tão destrutiva que precisamos nos livrar completamente dela.

A Índia tem hoje uma indústria de tecnologia poderosa e uma grande indústria farmacêutica. Essas duas indústrias servem ao povo indiano?

Nossa indústria farmacêutica cresceu num tempo em que não tínhamos leis de patentes muito rígidas. Nos anos 1960, a Índia formulou uma legislação de patentes realmente boa: para produtos químicos e farmacêuticos, ela não permitia patentear o produto final, apenas o processo.

Isso foi decisivo. Permitiu que nossas empresas farmacêuticas observassem os remédios existentes e pensassem em seus próprios modos de produzir aqueles compostos químicos. É o que chamamos de engenharia reversa.

O resultado foi um êxito imenso: nos tornamos o produtor farmacêutico mais barato do mundo – o que é muito importante, porque somos um país pobre. Foi bom para o nosso mercado interno e também nos permitiu exportar para outros países de baixa renda.

O regime TRIPS interrompeu isso. Obrigou-nos a conceder patentes também sobre o produto. A consequência foi que nossas empresas nacionais, que eram vigorosas, acabaram em sua maior parte compradas por multinacionais. Restaram algumas pequenas e médias. Deixamos de estar na fronteira da produção dos medicamentos mais novos: fabricamos os que já saíram da patente, ou formulações nas quais acrescentamos uma vitamina a determinado remédio, ou outro componente qualquer. Não é uma melhoria substancial. E os preços dos nossos medicamentos subiram enormemente.

É lamentável que a Índia tenha tido de mudar seu regime de patentes por causa do TRIPS. Mas o episódio mostra o que acontece quando um país protege sua indústria nacional e lhe permite emular. Emulação não é cópia – é o modo básico pelo qual todas as economias se desenvolveram. Os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha – todos cresceram emulando. E agora dizem que nós não podemos fazer isso, que eles controlarão todo o conhecimento.

Nosso setor farmacêutico é um exemplo clássico de quanto um país perde ao abrir mão dessa capacidade. Nos demais setores, infelizmente, não somos tão bons.

O Brasil está bem à frente em várias indústrias de alta tecnologia. O banco de desenvolvimento de vocês desempenhou um papel notável no fomento de certos setores, inclusive o de aviões e o de determinados tipos de maquinário.

Na Índia, fizemos isso até certo ponto, mas nos últimos vinte anos deixamos de fazer, e não temos muito a mostrar nesse terreno. Também porque, nos últimos doze anos, com este governo, não houve investimento no setor público. Ele não permite que as organizações científicas e técnicas públicas cresçam. Isso vai nos custar caro no futuro.

O governo Modi é um mistério para a academia brasileira: não sabemos dizer se é de direita ou de esquerda, se é bom ou ruim para a Índia. Qual é a sua opinião?

O atual governo, conduzido pelo primeiro-ministro Modi, é fascista, opressor e incompetente. São palavras muito fortes, mas penso que sejam verdadeiras.

E creio que vocês, no Brasil, possivelmente não percebam o quanto a situação é grave na Índia. Este é um governo que promove ativamente o ódio e o veneno na sociedade, pela criação da divisão. Quer tornar-se um Estado hindu. Quer transformar muçulmanos, cristãos e outras minorias em cidadãos de segunda classe. Faz isso de maneira sistemática.

Promove o ódio que chamamos de comunal, o ódio fundado no pertencimento religioso. Estimula elementos lumpens, grupos que saem às ruas ameaçando pessoas, sobretudo mulheres. Nos últimos dez anos, tivemos episódios horríveis de linchamento, estudantes agredidos dentro da minha própria universidade, manifestações pacíficas atacadas por gangues vindas de fora, sem que a polícia se incomodasse. Os estudantes que se manifestavam pacificamente é que são intimados pela polícia, e é contra eles que os processos são abertos.

No plano político e social, portanto, o governo tem sido muito opressor. No plano econômico, tem sido extraordinariamente incompetente. Privatizou uma enorme quantidade de indústrias, porque é um regime de capitalismo de compadrio.

Há dois industriais em particular: os dos senhores Adani e Ambani, que se converteram em conglomerados gigantescos. O senhor Adani, em especial, não era nada: vinha do pequeno comércio de tecidos e hoje é um dos homens mais ricos da Ásia, graças ao patrocínio de Modi. Eles não são apenas imensamente ricos: estão comprando outras empresas, assumindo empresas estatais. A privatização entrega a eles ativos públicos, sejam aeroportos, sejam rodovias, seja o que for.

Mais grave que a parte do compadrio, porém, é uma incompetência muito mais ampla, porque o crescimento que vemos é oco. Alguns pensam que a Índia cresce maravilhosamente, que é uma história de sucesso da economia global, e essa é a imagem que o governo Modi tenta apresentar o tempo todo. Mas existe outra economia no mundo que cresça supostamente entre 5 e 10% ao ano, e na qual o emprego não cresça? Os salários reais não crescem há quinze anos. E, se vocês vierem aqui e testemunharem o tipo de miséria em que as pessoas vivem, ficarão chocados.

É uma economia que se tornou extremamente desigual e, por isso mesmo, oca. Não é possível ter quase um bilhão de pessoas vivendo em condições terríveis, sem os indicadores mínimos de desenvolvimento humano, sem nutrição básica, sem saúde adequada, sem saneamento adequado, e dizer que a economia é vibrante e forte.

A ausência de geração de emprego, a condição terrível dos assalariados e dos autônomos, a quantidade enorme de trabalho não remunerado, muito maior do que em qualquer outro lugar do mundo, são marcas indianas. Somos piores até que a Arábia Saudita na extensão do trabalho não pago que é realizado. Tudo isso indica que esta não é uma economia saudável. É uma economia muito frágil.

E por que o governo Lula tem uma visão tão favorável do governo Modi?

Eu faria um pedido ao presidente Lula e a todos os ministros: que venham. Nem precisam sair de Délhi. Eu os levo para fora das ruas principais, que estão sempre muito bonitas para os estrangeiros, até os becos imediatamente ao lado. E eles verão as condições em que as pessoas vivem.

De que forma isso se relaciona com a reunião recente dos BRICS?

Vocês precisavam ver como estão embelezando a cidade agora. Fizeram o mesmo antes do G20: limpam determinadas ruas e levantam tapumes, para que as pessoas não possam ser vistas.

Nos dois dias do BRICS, a cidade inteira fechou. Escolas, hospitais, ruas, tudo fechado. Os empregadores privados receberam a orientação de dar folga a todo mundo. A ideia é dar aos estrangeiros a sensação de que está tudo bonito, de que fizemos um progresso enorme e de que tudo é fantástico, porque não os deixarão ver a realidade.

As instituições criadas em Bretton Woods continuam a impor austeridade e ajuste, e a senhora defende alternativas há muito tempo. O Novo Banco de Desenvolvimento, dos BRICS, tem capacidade de contornar a hegemonia financeira ocidental, ou existe o risco de reproduzir a mesma condicionalidade, agora em linguagem multipolar?

As duas coisas são verdadeiras.

Existe potencial, e não apenas nos bancos, mas em toda a gama de arranjos econômicos e financeiros entre os países do BRICS e outros países, que nem sequer pertencem ao bloco. Mas, pelo modo como esses bancos funcionam hoje, e mesmo as diversas iniciativas em curso, eles ainda caem na armadilha de impor condições semelhantes às do Banco Mundial, ou às de qualquer outro banco de desenvolvimento já existente. É preciso ser mais ambicioso, operar em escala maior e reduzir esse tipo de condicionalidade no crédito.

Nos demais aspectos, porém, o espaço é enorme. Há espaço, por exemplo, para um sistema de pagamentos e de compensação diferente. Hoje todos dependem do SWIFT. Ele é caríssimo para nós, porque tudo é convertido em dólar ou em euro e depois reconvertido em outra moeda, e todas as margens ficam com os bancos correspondentes da Europa e dos Estados Unidos.

Deveríamos adotar pagamentos em moedas digitais de banco central. Deveríamos usar o CIPS chinês e o UPI indiano. Já temos esses sistemas implantados em nossos próprios países e podemos pensar em modos de integrá-los, de maneira que, ao menos em nosso próprio comércio, seja possível operar com as moedas uns dos outros e reduzir ao mínimo a dependência tanto dos portais financeiros internacionais, como o SWIFT, quanto de todas essas outras moedas.

Não digo que devamos eliminá-los, mas é possível minimizar a dependência. Isso não equivale a dizer que o BRICS deva ter moeda própria. Não creio que estejamos preparados, nem me parece desejável ou necessário. Mas é possível desenvolver arranjos comerciais e financeiros alternativos que reduzam nossa dependência do Ocidente.

Diante da crise climática, chama atenção a impotência da maior parte dos governos. Além disso, o custo da mitigação é transferido para o Sul, e alguns observadores chamam isso de colonialismo verde. Como o Sul pode formular uma posição a respeito, exigindo reparação pela dívida ecológica e transferência de tecnologia, de modo que o processo não se converta em mais um vetor de imperialismo?

Infelizmente, a mudança climática e a resposta a ela já são parte do projeto imperialista. Temos, portanto, de pensar em como enfrentá-las.

As reparações mencionadas na pergunta são um ponto certeiro: na Europa e nos Estados Unidos, as pessoas simplesmente não dizem nada a respeito. Não falaremos sobre isso, é o que respondem. Falarão de migração. Falarão que nossas emissões de carbono são altas demais e que precisamos cortá-las, ainda que não compartilhem tecnologia e não ofereçam financiamento para esse corte. Mas dirão que temos de cortar. E dirão, em seguida, que levantarão barreiras protecionistas contra nós, porque querem preservar suas próprias indústrias e permanecer na dianteira dessas tecnologias.

Não escutarão nem a demanda histórica por reparações, nem a demanda atual. Basta olhar o orçamento global de carbono: o Norte ainda usa 60% dele, apesar do crescimento chinês, indiano e assim por diante.

Precisamos pensar numa alternativa que não apele apenas à benevolência deles. Devemos seguir batendo a cabeça contra esse muro? Vale a pena repetir as exigências o tempo todo. Mas precisamos pensar também em nossos próprios arranjos.

Felizmente, na transição verde, não há dúvida de que os avanços tecnológicos chineses mudaram o jogo. Muitas tecnologias ficaram mais baratas, e a energia verde está mais barata.

Ainda assim, continuamos sem acesso àquilo que é necessário para montar o sistema inteiro, o ecossistema. Uma coisa é importar veículos elétricos; o ideal seria sermos capazes de fabricar os carros, os painéis solares e toda a gama de baterias e de tudo o mais de que precisamos nessa transição.

Os chineses não se mostraram particularmente entusiasmados em compartilhar tecnologia, mas ainda assim compartilharam mais do que as grandes multinacionais do Norte. Há espaço aí.

Penso que outros países, não apenas a China e os grandes países do BRICS, deveriam se reunir e compartilhar tecnologia. Deveríamos pensar também nas tecnologias mais adaptáveis e frequentemente mais baratas em nosso próprio contexto, porque muitas das tecnologias desenvolvidas no Norte são caríssimas e não correspondem ao que precisamos.

É como a inteligência artificial. A grande questão nos Estados Unidos é quem desenvolverá o modelo de linguagem mais eficaz, quem será mais inteligente, quem será mais parecido com um humano, toda essa bobagem. Talvez não precisemos desse nível de inteligência artificial. Precisamos de coisas que nos tornem mais eficazes na agricultura, na irrigação, no abastecimento. Ela pode melhorar nossa capacidade de levar conhecimento às pessoas e apoiar certas atividades de saúde. Há aplicações que podemos usar.

Não existe razão para nos obcecarmos com a inteligência artificial mais nova, maior e melhor, aquela que vai substituir a humanidade. Penso que não deveríamos permitir isso. Deveríamos regulá-la.

Minha última pergunta é sobre a universidade. No IDEAs, a senhora enfrentou a hegemonia neoliberal dentro da própria disciplina. Quais são os obstáculos epistemológicos que seguem protegendo o consenso neoclássico, no currículo e na política pública? E onde a senhora enxerga terreno fértil para a resistência intelectual hoje?

A verdadeira dificuldade de fazer avançar abordagens alternativas em economia não é tanto epistemológica. É política. É uma questão de poder.

Nossa disciplina é enormemente influenciada pelo poder. Isso significa que aqueles que a controlam, os guardiões do portão, os que decidem quem vai conseguir emprego, quem vai publicar nos chamados periódicos de primeira linha, quem vai ser membro das academias, são pessoas que promovem certo tipo de economia, muito conformada ao status quo. É raro que alguém rompa com isso. E, quando rompe, é frequentemente marginalizado pelos poderosos.

Essa é a maior dificuldade, porque percebo que existe uma fome enorme por outros tipos de conhecimento entre os estudantes jovens. Eles são muito inteligentes. Sabem que aquilo que lhes ensinam nos manuais não tem relação alguma com a realidade. Sabem que a concorrência perfeita não existe. Veem poder em todas as relações econômicas que observam à sua volta. Reconhecem, portanto, que é preciso outro quadro de referência.

Em toda parte, aonde vou, não encontro pessoas inteiramente afinadas com aquele arcabouço teórico. O problema é que os incentivos são fortíssimos. Quem precisa de emprego, quem quer dar aula numa universidade, precisa de publicações. Para publicar, é preciso escrever certo tipo de artigo, fazer uma diferença, adaptar-se ao que estiver vendendo naquele momento. E aí o trabalho inteiro é talhado para aquilo. Depois que a pessoa começa a dar aulas, precisa da estabilidade e entra na corrida dos ratos. Quem precisa de emprego, precisa se comportar de determinada maneira. Isso tem sido um impedimento enorme.

De um modo peculiar, a crise que hoje atinge o ensino superior no mundo inteiro, e certamente na Índia, faz com que nem mesmo um diploma excelente garanta emprego. A vida é muito diferente do que era quando eu me formei. Hoje é possível obter um doutorado numa instituição excelente e ainda assim não conseguir um bom emprego, nem sequer um emprego regular e permanente. A pessoa pode acabar como professora temporária, fazendo todo tipo de trabalho precário no ensino.

De certa forma, portanto, as pessoas têm menos a perder. Nesse sentido, é provável que haja hoje uma abertura maior a modos alternativos não apenas de pensar, mas de fazer economia, de tentar compreender a economia, em vez de apenas ajustar um modelo para conseguir uma publicação. Acho isso muito mais provável agora.

Como a senhora enxerga este momento do mundo?

É um momento muito estranho da história humana.

Num certo nível, parece extremamente deprimente. Estamos à beira da catástrofe ecológica. O planeta está claramente esquentando. Não estamos equipados, não estamos preparados, e estamos piorando a situação. Estamos envolvidos em guerras, e há tantas guerras explodindo em diferentes partes do mundo. De certo modo, é um tempo aterrorizante. E há essas novas ameaças: sejam sanitárias, de novos micro-organismos; sejam coisas como a inteligência artificial, sobre as quais simplesmente nada sabemos. Num certo nível, portanto, é um mundo muito incerto e assustador.

Mas é também um mundo em que surgem oportunidades muito maiores, de várias maneiras. Ainda que estejamos sempre desancando as tecnologias, sobretudo as digitais, é preciso reconhecer que esta nossa conversa só existe graças ao triunfo da tecnologia digital. Conseguimos estar em contato com pessoas do mundo inteiro de um modo que era simplesmente impossível dez ou quinze anos atrás. Conseguimos acessar materiais aos quais nunca teríamos acesso.

Quando eu era estudante na Índia, os dados mais recentes do Fundo Monetário Internacional só chegavam com seis meses de atraso. Era preciso esperar que fossem despachados para a nossa biblioteca. Hoje acessamos dados e análises de gente muito diversa, conversamos com os outros de uma forma que simplesmente não existia.

E acredito que os seres humanos sejam, no fim das contas, seres sociais. Isso significa que acabaremos pensando socialmente sobre nossos problemas comuns. Não ficaremos para sempre atolados na divisão.

A outra coisa que me dá esperança, e me faz pensar que vivemos também um tempo de oportunidade, são os nossos jovens. Na Índia, tivemos um movimento recente, o Cockroach Janata Party e a Revolta das Baratas, um movimento de jovens que protestaram contra o sistema educacional.

E não é apenas que tenham protestado, e tenham obtido êxito em parte das reivindicações. Eles galvanizaram o resto da sociedade. Romperam o véu do medo que este governo repressivo, fascista, havia imposto: o medo e o silêncio. Romperam porque não têm medo. Não se importam.

E, de repente, todo mundo está dizendo: por que ficamos com tanto medo esse tempo todo? Foi como furar um balão.

Estamos entregando à próxima geração um mundo verdadeiramente horrível. Mas penso que eles têm, de algum modo, a coragem, a inteligência e o humor para sobreviver a isso e para tornar este mundo habitável.

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