Terça, 7 de abril de 2026
Arte e política
Na periferia do DF, Cristo ganha rosto negro e denuncia feminicídio e desigualdades
Desde 1997, montagem em Samambaia usa teatro para confrontar racismo estrutural e invisibilidade social
Brasil de Fato —Brasília (DF)
Espetáculo Cristo Negro, transforma a Paixão de Cristo em denúncia contra o racismo e o feminicídio, colocando o corpo negro e feminino no centro da cena. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF
Nas luzes do Cineteatro Verônica Moreno, localizado em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal, o que se vê não é apenas a reprodução de um rito bíblico, mas um espelho da periferia. Desde 1997, a Paixão do Cristo Negro transforma o sofrimento de Jesus em uma ferramenta de denúncia social e política. O espetáculo deixa de lado a neutralidade estética para mostrar, de forma direta, as dores de uma população negra que há muito tempo é marginalizada e esquecida pelo poder público.
A proposta vai além do altar e ocupa o espaço da crítica, questionando quem são os “Cristos” crucificados diariamente nas esquinas das cidades da capital. Na última sexta-feira (3), a encenação reafirmou sua vocação ao trazer três atores negros no papel principal, incluindo, de forma provocativa, a presença de uma mulher. Essa escolha subverte a imagem tradicional e coloca o corpo feminino no centro do debate sobre o sacrifício e a dor, um manifesto contra a invisibilidade.
Para a atriz Fernanda Marinha, uma das intérpretes de Jesus, a representação feminina é uma forma de humanizar a divindade e aproximá-la dos oprimidos. “É para mostrar essa força também. Porque às vezes a gente observa que as pessoas acham que Jesus pode ser só um homem, mas Jesus está em todos esses lugares”, explicou a artista.
