Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador Pátria Latina Le Monde Diplomatique e fakes news. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pátria Latina Le Monde Diplomatique e fakes news. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de fevereiro de 2021

FAKE NEWS E IDEOLOGIA: A ATUAÇÃO DOS MONOPÓLIOS MIDIÁTICOS NA FALSIFICAÇÃO DA REALIDADE

Sábado, 6 de fevereiro de 2021


Por Maiara Marinho e Thiago Rafagnin*

Le Monde Diplomatique – Partimos do pressuposto de que os grandes monopólios da mídia reproduzem as mesmas práticas de fake news e censura que afirmam discordar

Alguns veículos da grande imprensa têm denunciado recentemente a disseminação das fake news. As agências de checagem possuem metodologias para identificação dessas notícias e utilizam categorias ou etiquetas para demonstrar o nível de falsidade ou não de uma determinada declaração ou notícia. Mas algumas ponderações estão sendo deixadas de lado nas checagens e nas análises sobre esse fenômeno como, por exemplo, as deformações elaboradas nos conteúdos de algumas matérias, especialmente sobre aquelas que dizem respeito às políticas econômicas, tais como reforma trabalhista, previdenciária, Pec do Teto de Gastos e outras. Recentemente, o Twitter bloqueou a conta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por possuir conteúdo falso. Da mesma maneira, bloqueou a conta do Parlamento Venezuelano sob a alegação de não cumprir as normas da organização. Partimos do pressuposto de que os grandes monopólios reproduzem as mesmas práticas de fake news e censura que afirmam discordar. Dessa maneira, propomos uma reflexão que objetiva o combate a essas práticas, por um lado, demonstrando que se trata de um mecanismo ideológico e, de outro, a defesa das liberdades democráticas.

Os debates e estudos sobre fake news em geral apontam para os algoritmos do Facebook e do Instagram que, de fato, facilitam a construção de bolhas. Portanto, quanto maior é o consumo de páginas ou personalidades que produzem e reproduzem notícias falsas, menor é a chance de se ter contato com notícias mais precisas sobre a realidade. Outro aspecto importante é o acesso a dados pré-pago no Brasil, que são aqueles planos de internet para celular que possuem limite de acesso. Nesse caso, tem-se um limite menor de acesso nas redes sociais e nas plataformas de buscas como a Google, mas um limite maior no uso do WhatsApp. Então é comum acontecer de notícias falsas chegarem no WhatsApp e o acesso ser limitado a elas se os dados de navegação já foram consumidos.

Mas não se trata apenas de uma questão técnica. O debate centra-se no aspecto ideológico, pois o fenômeno em que insere as pessoas na crença dessa falsidade é o catalisador.

A última crise econômica mundial (2008) resultou em uma série de crises políticas ao redor do mundo. Essas crises políticas são resultado de embates entre diferentes grupos na definição de quais políticas seriam aplicadas para a saída da crise. Para isso, foram elaborados durante os últimos anos significados a-históricos sobre os acontecimentos. O tom de fatalidade dado em defesa das políticas austeras seguido pela “ilogicidade da causalidade e da coincidência” se impôs. Segundo o semiólogo francês Roland Barthes, a fala mítica objetiva esvaziar a memória de produção das coisas, atua com um modo de significação a fim de naturalizar as coisas, suprimindo, com isso, a dialética da história. Para Barthes, o que está presente no mito não é a ocultação, mas a deformação. Dessa maneira, ao esvaziar o sistema de significação primeiro abre-se espaço para preencher de significações segundas dando outro sentido à realidade enquanto ela segue atuando como ela é.

O mito, portanto, é um modo de significação, uma fala, mas, principalmente, uma fala roubada, e tem por objetivo esvaziar a memória de produção das coisas. Apresenta-se como um sistema de significação segundo uma forma de comunicar, que “não se define pelo objeto da sua mensagem, mas pela maneira como a profere”[1] e, por isso, é construído através do uso da conotação. O efeito de naturalizar o que é histórico confere ao mito a capacidade de construir narrativas descoladas de seus contextos, em que torna possível recorrer a outros elementos para dispor ao redor de um conceito, ressignificando-o. Isto pode ser feito, no caso de um texto jornalístico, utilizando meios de ordem conotativa: o medo, o imediatismo, a repetição de palavras, histórias sem passado, entre outras. Para o semiólogo, focalizar o significante mítico enquanto totalidade de sentido e forma, “relacionar o esquema mítico com uma história geral, explicar como corresponde ao interesse de uma sociedade definida” significa “passar da semiologia à ideologia”[2], seguindo sua natureza semiológica dialética.