Pedro Augusto Pinho*
Em 1938, teve início na Editora Hachette, na França, a coleção “A Vida Quotidiana”, que, após mais de 300 exemplares, encerrou os volumes inéditos em 2004. No ano seguinte, 1939, começava a II Grande Guerra. O volume nº 44 da coleção foi publicado em 1985 e tratava de “A vida quotidiana em Berlim no tempo de Hitler”, de autoria do historiador e jornalista francês Jean Marabini (1939). Neste volume encontramos a seguinte informação: “O grande Estado-Maior do Exército, o Reichswehr, ainda se encontrava dividido; de espírito monárquico, aceita todo o regime legal que favoreça os objetivos militares, desde o homem de esquerda, Noske a Hitler. O seu papel é o de se manter na sombra a fim de evitar uma guerra civil portadora de revoluções. Hitler convoca a organização dos antigos combatentes de extrema-direita, o “Capacete de Aço”, e espera abalar na conferência sobre desarmamento, em Genebra, as “correntes de Versailles”, a fim de recuperar a sua influência”.
Menos conhecido no século XXI, Gustav Noske foi um influente político alemão do Partido Social Democrata (SPD) e o primeiro Ministro da Defesa da República de Weimar. Possivelmente Marabini, ao citá-lo, quis demonstrar que a direita abrangia diversas facções, mesmo ideologicamente idênticas, pois Noske aliou-se a forças paramilitares de extrema-direita para esmagar revoltas de esquerda. O mesmo Jean Marabini, mais jovem, já colaborara com a Hachette, em 1965, escrevendo “A vida cotidiana na Rússia sob a Revolução de Outubro”. Mas sua Introdução é reveladora de um perspicaz jornalista: “consulte-se a farta biblioteca acerca da Revolução Russa, eliminando-se os historiadores que procuram demonstrar uma tese política. Em geral, todo cronista autêntico, toda testemunha fidedigna desses acontecimentos fantásticos, recorre ao mesmo tom excitado empregado para descrever manifestos e contra manifestos, discursos veementes, ações violentas, que se sucedem como salvas de canhão ou torrentes de lava, anulando para si toda vida corriqueira, bem como todo espírito crítico. No entanto, pouco menos de cinquenta anos depois dessa convulsão trágica, no momento em que um pouco de “apoliticismo” intervém na vida russa, pode-se tatear, com prudência, entre as cinzas de uma radioatividade ideológica ainda intensa. Sem a pretensão de sermos bem sucedidos, constituía tarefa excitante para o espírito tentar descrever, no “próprio movimento do mar”, como o chamava H.G.Wells, a existência cotidiana, tanto dos navegadores como dos náufragos”. Há movimentos e momentos em que não cabem o contra e o a favor. O estudo, embora imperfeito, escreve Marabini, “a sua vida cotidiana já é prenhe de ensinamentos úteis para melhor compreender aquelas centenas de milhões de seres humanos que continuam apegados às suas imagens, às suas necessidades, às suas esperanças”.
Na quinta-feira, 30 de julho de 2026, no horário da tarde, na GloboNews, dois brilhantes jornalistas abriram uma interpretação que cai como uma luva na realidade brasileira e mundial deste momento, ou seja, um pouco depois do centenário da Revolução Russa de Outubro, e um pouco antes do centenário do deflagrar da II Grande Guerra. Foram eles Flavia Oliveira e Octavio Guedes. No mundo surge um novo Hitler da era digital, no Brasil a maliciosa ignorância imagina que pode trocar o voto pelo golpe, bem descrito por Octávio Guedes.
Vou meter o bedelho, mas apresento algumas credenciais. Caminho para os 83 anos e desde os 15 me envolvo em política, atuando na Associação Metropolitana de Estudantes Secundários (AMES), sediada no incendiado prédio da UNE, na Praia do Flamengo. E por cerca de uma década, enquanto cursava duas faculdades, direito e administração de empresa, e um crédito no mestrado de antropologia, fui jornalista e professor na Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
UM MUNDO EM CONFLITOS E SEM DESTINO IDEOLÓGICO
O que mais difere o mundo de hoje daquele há cem anos é a ideologia, bem retratada por Jean Marabini. Pode-se extremar com o comunismo e o capitalismo, mas entre estes pólos existem diversas gradações que se colocam entre o liberalismo do século XVII e o comunismo do século XIX, ambos sepultados por suas próprias regras. Se tentarmos grupar os poderes por ideologias neste século XXI teremos o individualismo, numa ponta, e o capitalismo de estado, na outra.
O primeiro desconhece regras, normas de conduta e pode ser exemplificado por Donald Trump (1946), 47º presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Na outra ponta está a República Popular da China (China) com um complexo sistema que envolve uma institucionalidade única e o pensamento que amalgama o maoísmo, o confucionismo e o capitalismo regulado, mais do que o estatal. Mas, por que um só Hitler?
Os candidatos são diversos e podemos estar diante de novo modelo, plurimegalômano, mas não necessariamente histriônico, com o Marco Rubio (1971), Secretário de Estado nos EUA, tendo por aliado Benjamin Netanyahu (1949), Primeiro-ministro de Israel, promovendo genocídios nas Américas e no Oriente Médio, pelas idades como filho e pai. Onde teremos lugar? Não sendo necessariamente de esquerda, mas simplesmente democratas, humanistas? O desempenho eleitoreiro do Ministro André Mendonça mostra quão longe estamos de uma democracia, quando o bolsonarismo arrebanha um quarto do eleitorado, num mugido só.
Um país que mais da metade da população é formada pela mistura de raças, e não bastassem o nativo indígena, o português, e, muito a contragosto, etnias africanas, até se abre às migrações asiática e europeia, como se constata andando por São Paulo, pelas cidades catarinenses e do Paraná.
Um historiador português que muito me agrada, também pedagogo e jornalista, nascido na Índia, António Sérgio de Sousa Júnior (1883-1969) que teve sua “Breve Interpretação da História de Portugal” editada na primeira vez em espanhol, pois vigorava a ditadura em Portugal e António Sérgio exilara-se na França e posteriormente na Espanha, onde se lê o seguinte parágrafo: “Um dos grandes males da nação foi que a fidalguia se não enraizou nos seus campos, não exerceu um verdadeiro papel civilizador – um papel de direção e proteção dos seus povos – antes se fez parasita do povo e do Poder Central. Os maus efeitos desse vício sentem-se ainda hoje no País”.
Estamos ou não conhecendo uma História do Brasil?
Leia-se Darcy Ribeiro (1922-1997) na edição póstuma de “Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos”, pela Fundação Darcy Ribeiro (2013), em sua “Introdução”: “A contribuição da Antropologia ao conhecimento do processo de formação das sociedades nacionais modernas e dos seus problemas de desenvolvimento é muito menor do que seria desejável. Também é, provavelmente, muito menor do que seria possível, apesar das evidentes limitações metodológicas com que se defrontam as ciências sociais. Na verdade, os antropólogos – como de resto todos os cientistas sociais – parecem preparados para empreender pesquisas acuradas sobre problemas restritos e socialmente irrelevantes, mas pouco propensos a focalizar as questões cruciais com que se debatem as sociedades modernas, mesmo as que se situam em cheio no seu campo de preocupação científica”. E, ainda na “Introdução”, escreve este gênio brasileiro: “Conceituamos as revoluções tecnológicas como inovações prodigiosas no equipamento de ação sobre a natureza e a utilização de novas fontes de energia que, uma vez alcançadas por uma sociedade, a fazem ascender a uma etapa mais alta no processo evolutivo. Esta progressão opera através da multiplicação de sua capacidade produtiva com a consequente ampliação do seu montante populacional, da distribuição e da composição deste; da reordenação das antigas formas de estratificação social; e da redefinição dos setores básicos da cultura. Opera, também, mediante uma ampliação paralela do seu poder de dominação e de exploração dos povos que estão a seu alcance e que se fizeram atrasados na história por não terem experimentado os mesmos progressos tecnológicos”.
QUEM MANDA NO BRASIL DE HOJE
Em 1998, o embaixador, economista e escritor gaúcho Adriano Benayon do Amaral (1935-2016) deu-nos a 1ª edição de “Globalização versus Desenvolvimento”. Num dos temas tratados está o da ação das Empresas Transnacionais: “A tendência da competição é gerar seu contrário: a concentração. Portanto, para resguardar algo da economia de mercado há que salvá-la de si mesma”. E, após discorrer sobre ideologias e história dos países e de suas economias, conclui: “as empresas transnacionais (ETNs) que dominam a “globalização” são, ao mesmo tempo, industriais, financeiras e de serviços. Surgiram e transformaram-se no que são, cevando-se no mercado dos países centrais e nos recursos dos países periferizados”.
Na Câmara dos Deputados há 513 parlamentares e são 21 os partidos lá representados. Mas existiriam vinte e uma ideologias ou projetos de país para exigirem distintas bancadas? Seguramente, não. Partidos que tem no nome socialista, comunista, social ou trabalhista são sete, mas suas propostas e seus votos variam de um espectro que vai da direita ao socialismo com leve viés marxista. Na realidade, apenas muitos poucos deputados não seguem a orientação financeira, dos bancos, do exterior.
O partido de maior número de deputados federais é o Partido Liberal (PL), com 97 eleitos. Mas é um partido que defende os interesses estadunidenses antes das necessidades brasileiras, suas recentes propostas estão coerentes com os pronunciamentos de Donald Trump, e seu candidato à presidente do País em 2026 recebe, na Convenção que o escolheu, o presidente da vizinha Argentina, que se intitula o mais fiel representante de Trump na América do Sul, onde existem, hoje, ao menos outros cinco: De la Espriella, da Colômbia; Noboa, do Equador; Keiko Fujimori, do Peru; Kast, do Chile; e Santiago Peña, do Paraguai. Num contexto desta natureza, o conservador líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva se torna um esquerdista, que ele certamente se persigna quando ouve este julgamento.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

